Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Opinião
Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

A mania do preto no branco (no futebol há situações de jogo que dependem exclusivamente da leitura que quem está em campo faz)

"Por cada lance clarinho como a água, há meia dúzia de outros de análise 'impossível' de reunir consensos", escreve o ex-árbitro Duarte Gomes, pelo que nada no futebol é 100% claro

Duarte Gomes

Central Press

Partilhar

Somos todos assim. Gostamos das coisas esclarecidas. Faz sentido. O "nim" não agrada a ninguém. Não é carne nem é peixe, é insonso. Agridoce. É uma não solução e as não soluções não solucionam.

É certo que em muitos momentos das nossas vidas somos saciados com respostas afirmativas, que nos dão tranquilidade e paz de espírito. É bom e sabe bem. Mas no futebol as coisas nem sempre são assim. Pelo menos, no que diz respeito à arbitragem e a algumas das decisões que os árbitros tomam em campo.

Não é a primeira vez que abordo este tema nem será seguramente a última. Há verdades que têm que ser repetidas várias vezes para que possam ser digeridas e interiorizadas no tempo, com tempo.

Se, no dia-a-dia, a nossa exigência já é grande, no futebol é ainda maior. É que o futebol não é apenas um jogo giro, que entretém as pessoas e distrai as gentes e o povo. Para muitos, o futebol é um modo de vida, uma religião. É uma profissão, uma carreira, um objetivo.

Tudo o que ali é cinzento, amarga. Angustia. Não sacia. A indústria é demasiado poderosa para depender de interpretações momentâneas, e decisões subjetivas. Percebe-se, mas com muita pena minha, tenho que vos dizer... nada a fazer.

Não insultem os outros, não deem murros na parede e não batam em ninguém, porque não acelera respostas nem resolve a questão. E a questão aqui é muito simples: há situações de jogo (muitas delas relevantes para o resultado final) que dependem exclusivamente da leitura que quem está em campo faz.

Os árbitros não são responsáveis pelo facto das coisas serem assim, como são.

É a natureza humana (eternamente limitada) e, sobretudo, a limitação das próprias leis de jogo, que existem há século e meio e que, mesmo assim, nunca conseguiram encontrar soluções objetivas para todas as jogadas do futebol. É como é... e é assim.

Por cada lance clarinho como a água, há meia dúzia de outros de análise "impossível" de reunir consensos.

Visionhaus

- Qual é a lei que ensina um árbitro a ser infalível quando avalia intensidade de contactos? Quando, por exemplo, tem que se decidir se é ou não falta aquele braço nas costas do opositor ou aquela mão sobre os ombros do adversário? Qual é?

- Qual é a regra que garante, a 100%, que um árbitro acertará sempre se tiver que avaliar que determinado lance é faltoso ou apenas simulado? Qual é?

- Qual é o árbitro que pode garantir que um jogador que está no caído no relvado, agarrado à cara, sofreu de facto um contacto sério na cara? Qual é?

- Qual é o árbitro que consegue punir corretamente uma agressão que ocorreu nas suas costas? Ou sancionar com acerto um palavrão pronunciado a 70 metros de distância? Ou assegurar que um jogador coreano o insultou verbalmente? Qual é?

Meus amigos, acreditem no que eu vos digo... às vezes, não há hipótese.

O futebol não é uma ciência exata. Os jogadores não são autómatos, conhecem bem as malandrices que lhes permitem chegar mais depressa às suas metas. E os árbitros não são perfeitos na interpretação das leis nem na análise psicológica do comportamento de cada um daqueles vinte e dois humanos.

Sem prejuízo de tudo isto, a verdade é que há sempre uma veredito para cada lance. Convém não esquecermos isso. O árbitro ou pune ou não pune, mas numa e noutra opção está a tomar uma decisão.

Portanto o problema de fundo não é a indecisão. É a discordância pontual da decisão.

Barrington Coombs - EMPICS

Tudo somado o mais difícil mesmo é a uniformização de critérios que todos desejam. Ela é exigível mas só exequível em momentos factuais. Nos restantes é bem mais difícil de se conseguir e por um conjunto de razões: para quem está lá dentro, a mesma situação pode ter muitas formas distintas. Depende da colocação do árbitro no momento em que o lance acontece, da perspetiva que teve desse instantâneo, do ângulo de visão que dispunha para o analisar (basta limpar o suor que escorre da testa ou deixar-se tapar por um jogador para deixar de ver o óbvio), do controlo emocional, da concentração momentânea, da comunicação com a equipa, enfim, de tantos e tantos fatores.

Isto não desculpa tudo, pelo contrário.

Todas essas questões terrenas, difíceis de melhorar, têm que ser trabalhadas cá fora: o posicionamento ideal, o foco, a antecipação, a gestão de pressão e stress, a interação com colegas e é aí, na forma como assimilam e aplicam toda essa aprendizagem, que se percebe quem tem (e quem não tem) unhas para esta guitarra.

Enquanto uns vão evoluindo e ganhando consistência e quilate, outros vão percebendo que o bólide tem demasiados cavalos para o seu andamento. É a lei da vida, igual à que prevalece em todas as outras áreas de atividade que existem. Que impere a meritocracia.

Do lado de fora, do vosso lado, o ideal é que exista esta compreensão, de que as coisas são mesmo assim.

Estas questões, a das boas e más decisões em campo, tem têm por trás passivos complicados.

Às vezes uma mera decisão pode estar embrulhada num papel de oferta transparente e invisível a olho nu que abrange competência, personalidade, experiência, sensibilidade, versatilidade, intuição, perspicácia e até sorte. É um cocktail grande aquele que o futebol necessita para ser bem arbitrado, jogado, treinado. Também para ser bem dirigido, comentado e aplaudido.

Ninguém é perfeito, mas entender a sua própria limitação (e a dos outros) é meio caminho andado para evoluir e crescer no sentido certo.

A falar nos entendemos. Podemos continuar a criticar e a não gostar, mas conhecer a perspetiva de quem vê o mesmo fenómeno do lado oposto tem que ser sinal de inteligência.