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Elisabete Jacinto

Elisabete Jacinto

Presidente da Comissão Mulheres e Desporto do COP

Pensar a igualdade de género no desporto: questionemos a forma como aceitamos as diferenças de tratamento entre géneros

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo do país. Hoje escreve Elisabete Jacinto, presidente da Comissão Mulheres e Desporto do COP

Elisabete Jacinto

Romain Biard

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“Todos têm o direito a praticar desporto. O desporto pertence a todos, independentemente da etnia, da cultura, da religião, do sexo ou da classe social”. Estas são as palavras da Birgitta Kervinen, presidente honorária da Organização Europeia Não Governamental de Desportos (ENGSO), uma das poucas mulheres presidentes de organizações europeias do desporto. Foi a principal palestrante no “Forum Nacional ALL IN Rumo à Igualdade no Desporto”, realizado nos dia 11 e 12 de dezembro pelo Instituto Português do Desporto e Juventude, inserido no âmbito das celebrações do 75.º Aniversário da Organização das Nações Unidas.

Apesar de estarmos todos de acordo com esta afirmação, o resultado do Inquérito ALL IN chama a atenção para o facto de 78% das mulheres portuguesas nunca terem efetuado qualquer atividade física e de a prática feminina, em termos de desporto federado, se limitar a 30% do total dos atletas federados.

Estes números não nos causam admiração. Apesar de estarmos conscientes de todos os benefícios do desporto, a realidade portuguesa parece não ter tendência a mudar. A Comissão Europeia estabeleceu metas, desafiou todos os organismos relacionados com o desporto a tomar medidas que visassem o aumento do número de mulheres no desporto, mas, em Portugal, estas continuam a estar em minoria.

Ora, este fórum teve, exatamente, por objetivo provocar uma reflexão sobre o assunto e levantar algumas questões pertinentes, desafiando todos a pensar em medidas concretas que possam contribuir para melhorar e aumentar a participação desportiva das raparigas e mulheres, reduzindo as barreiras à sua participação, aumentando a oferta desportiva para a sua prática, melhorando os espaços e locais dessa mesma prática. Que medidas seriam suscetíveis de serem postas em prática para aumentar o número de mulheres em cargos de liderança no desporto, dentro e fora do campo?... Para capacitar as organizações dos benefícios do aumento do número de mulheres em posições de liderança?… Para aumentar a cobertura mediática, para eliminar o sexismo, para atrair e estimular o investimento no desporto para mulheres?… Enfim, foram discutidos todos os aspetos com o objetivo de criar um Plano Nacional a ser posto em prática por todas as entidades desportivas e que visa, exatamente, a igualdade de género no desporto.

Mais um plano, mais um texto para ser lido e esquecido imediatamente?! Esperamos que não! Esperamos que tenha sido dado mais um passo para a mudança.

Sabemos que a desigualdade de género resulta de uma profunda herança cultural e que a mudança de mentalidades não é fácil. Precisamos de leis, de regras, de quotas… sim, precisamos de um “motor de arranque” que chame a atenção, que nos faça pensar. É que a mudança, realmente, está nas nossas mãos. Na consciencialização de que ainda não vivemos numa sociedade igualitária e que é a nossa capacidade de intervenção no “pequeno” mundo de cada um de nós que faz a diferença. Questionemos os ensinamentos que nos foram dados quanto à forma como aceitamos as diferenças de tratamento de ambos os géneros, questionemos a forma como ensinamos e educamos os nossos filhos…. Pensemos no assunto. Esse é o desafio que vos deixo: vamos pensar, questionar, agir!

Como dizia Birgitta Kerviven na sua conferência, cada um de nós pode originar a mudança, mas um grupo de pessoas pode criar um movimento e definir os padrões para um novo normal, aquele em que mulheres e homens marcam presença no desporto de uma forma igualitária.