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Sobre a absoluta necessidade de defender a sustentabilidade do desporto em contexto de pandemia

Todas as semanas, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, José Manuel Constantino, presidente do COP

José M. Constantino

Evening Standard/Getty

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Em condições normais estaríamos agora a fazer o balanço dos Jogos Olímpicos de Tóquio e a preparar o ciclo dos Jogos de Paris 2024. Mas não. Vamos ter de aguardar mais um ano.

A crise de saúde pública que atinge todos os recantos do mundo veio mudar tudo.

Sabemos que a economia vai sofrer, o desemprego aumentar, o que, tendo consequências no plano individual, também o terá no plano das atividades sociais, entre as quais o desporto.

O que sucederá será um mundo com novas assimetrias, que gerará novas desigualdades, evidenciando, uma vez mais, que num contexto de crise ela não vai tocar a todos da mesma maneira.

O desporto vai sofrer um forte abalo. Já o está a sofrer. Num primeiro tempo confinou-nos. E conectou o exercício em casa, acelerando a digitalização das nossas vidas. Depois pudemos sair para nos mexermos. E progressivamente para retomar as atividades de grupo. Sem toque, sem máscara, mas com distanciamento. A partir daqui não sabemos. O desafio é esse: o de retomar progressivamente as atividades num quadro sanitário severo e que parece pouco disposto a abrandar.

Tal como no plano individual, em que a condição social de cada um determinará os meios de combater a situação, também no desporto não há uma resposta única. Nem todas as modalidades desportivas têm as mesmas características e os mesmos meios para fazer face a esta nova situação. E o que o vale para as modalidades desportivas aplica-se aos clubes e coletividades desportivas.

Uma coisa é certa: não foi possível evitar a paragem de um número muito significativo de atletas e de modalidades, com competições canceladas ou adiadas, ginásios e espaços de treino encerrados e restrições de mobilidade que inibem ou eliminam a possibilidade da prática desportiva regular, o que terá um efeito severo sobre o nosso sistema desportivo, num país com baixos indicadores de prática desportiva federada e assentes numa economia associativa frágil.

A retoma da prática desportiva é uma das principais preocupações de todos os intervenientes do movimento associativo desportivo, mas o problema mais premente que o sistema desportivo atravessa no cumprimento da missão que os poderes públicos lhe confiam em prover o direito constitucional ao desporto é, precisamente, o risco da sua sustentabilidade, agravado pela total ausência de medidas de apoio urgentes extraordinárias para o mitigar, ao contrário do que tem ocorrido na generalidade dos países europeus.

Importa, por isso, estarmos focados na absoluta necessidade de defender a sustentabilidade do desporto em contexto de pandemia, protegendo um bem público e a sua importância social.

Todos nós - poderes públicos e desportivos -, devemos encontrar mecanismos solidários, designadamente para ajudar clubes e associações desportivas de base que são os que mais sofrem com a situação que estamos a viver.

Ser capazes de superar o momento, encontrando a motivação necessária para retomar a normalidade das nossas vidas e defender o desporto, é o grande desafio que temos pela frente nestes tempos difíceis que vivemos.