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Marco Alves

Marco Alves

Diretor de Missões e Preparação Olímpica do COP

“Eu não sei o que dizer”

Todas as semanas, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve Marco Alves, Chefe de Missão aos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020

Marco Alves

Tomohiro Ohsumi/Getty

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A disrupção em que vivemos o ano de 2020 permite-nos títulos como este…

Em 1999, Al Pacino celebrou, desta forma, o início do discurso que preenche um dos capítulos da 7.ª arte mais visualizados de sempre, quando se trata de desporto.

Mas as palavras que se seguiram não retratam apenas o desporto, retratam também a vida de cada um, a singularidade das decisões e a forma como cada uma delas influencia um todo ou, se preferirem, um resultado.

Focado na vitória, nas adversidades, nas decisões, nos centímetros que separam o sucesso do insucesso e na forma como cada um de nós se pode tornar mais forte, o ator conseguiu, através de parábolas comuns, inspirar a luta pela vitória.

Recuperando a retórica de Aristóteles, diria que assistimos ao jackpot do ethos, phatos, logos nesta passagem de “Um Domingo Qualquer”.

A credibilidade, a emoção e a lógica reuniram-se naquela mensagem com um objetivo maior. Num objetivo maior do que cada um que se encontra envolvido neste processo.

Para todos nós, que estamos em preparação para Tóquio, mensagens como esta transportam palavras que aconchegam, que relembram a razão, que mexem de alguma forma com o íntimo. Mas não são elas, por si só, a condição que nos faz querer, que nos faz mexer ou que nos faz tremer ou temer.

Acredito que é algo mais profundo. Acredito que é algo que, de uma forma quase inexplicável, nos permitiu ultrapassar os desafios colocados por esta malfadada pandemia, algo que nos obrigou a reajustar e que nos permitiu reinventar aquilo que acreditávamos ser o caminho que estava traçado rumo aos Jogos Olímpicos Tóquio 2020.

Será a vontade? Será a coragem? Será o medo?

“Eu não sei o que dizer” mas estou certo que cada um de nós encontrou, em si, a estratégia para tornar este caminho possível, para crescer, para saltar, para marcar, para acertar, para navegar e para vencer e conquistar os centímetros, os segundos, os confrontos ou os combates que nos permitem desenhar aquilo que 2021 nos reserva.

Acredito que o verdadeiro sentido das coisas está bem mais enraizado dentro de todos cujos objetivos apontam ao oriente, em julho deste ano. A vontade, a coragem ou o receio que colocamos em cada tarefa é muito maior do que qualquer palavra que possamos ler ou ouvir neste processo de conquista.

Por tudo aquilo que demonstrámos nos últimos meses, é por demais evidente que não precisamos de palavras. Precisamos sim de acreditar, precisamos de ser confiantes, precisamos que nos deixem voar em direção ao que ambicionamos há 5, 9 ou 13 anos ou mesmo há uma vida.

Acabámos de atravessar um ano cheio de desafios, de mudanças e aprendizagens. Ultrapassámos novas barreiras, explorámos o que ainda não tinha sido explorado.

Dito isto, não se pretende com estas palavras inspirar, apoiar ou motivar aqueles que se encontram em preparação para os Jogos Olímpicos Tóquio 2020. Pretende-se, sim, relembrar tudo o que a Nossa representação no maior palco de todos significa. O que significa para cada um de Nós e o que significa para Portugal.

Portanto, “eu não sei o que dizer” mas sei o que quero…

Quero que 2021 nos devolva tudo aquilo que 2020 nos ficou a dever.

Vemo-nos em Tóquio!