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Nuno Amado

Nuno Amado

Professor universitário

Ano novo, oportunidades de golo novas: os 'Expected Goals' (xG), a maior ameaça à inteligência do adepto de futebol comum

"Entre os simplórios que aderiram a esta ferramenta como se fosse o elixir da sapiência, destacam-se aqueles que a usam para justificar estratégias ultradefensivas", escreve Nuno Amado, "convencidos em cima disso de que a novíssima ferramenta dos Expected Goals (xG) permite medir com eficácia a putativa qualidade dessas oportunidades"

Nuno Amado

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Quem não tem tempo ou paciência para ver um jogo de futebol com atenção, considera hoje em dia que, para aferir o que de mais relevante se passou em campo, basta olhar para as oportunidades de golo numa baliza e noutra. Reduz-se assim o jogo a meia dúzia de momentos em que a bola andou a rondar as redes adversárias em condições mais ou menos favoráveis, e consideram-se esses os momentos decisivos para a história do jogo. Como se não bastasse essa redução de milhares de incidências a uma ou duas dezenas de casos, muitas das pessoas que acham que basta comparar oportunidades de golo para falar com propriedade acerca do equilíbrio de forças num jogo dispõem hoje em dia de uma ferramenta estatística que, na cabecinha delas, as dispensa de olhar para as jogadas em causa. Os Expected Goals (xG), actualmente a maior ameaça à inteligência do adepto comum, servem de fio de prumo às convicções mais embrutecidas daqueles que não têm tempo para dedicar à aborrecida actividade de ver jogos. Ter uma opinião sobre as incidências de uma partida de futebol chegou assim ao grau zero da indolência. Para se saber qual das duas equipas mais mereceu ganhar, não só já não é preciso fazer uso da inteligência como já nem é sequer preciso abrir os olhos e assistir à partida: basta esperar pelo apito final do árbitro, abrir uma página na internet e olhar para um número com duas casas decimais num ecrã. Nunca a estupidez custou tão pouco a alcançar!

Entre os simplórios que aderiram a esta ferramenta como se fosse o elixir da sapiência, destacam-se aqueles que a usam para justificar estratégias ultradefensivas. Convencidos de que o sucesso ofensivo das duas equipas se compara colocando lado a lado as oportunidades de golo nas duas balizas, e convencidos em cima disso de que a novíssima ferramenta dos Expected Goals (xG) permite medir com eficácia a putativa qualidade dessas oportunidades, erguem a voz contra quem quer que sugira que o caudal ofensivo, que a capacidade de entrar com a bola controlada no bloco adversário, que a quantidade de acções dentro da área adversária ou nas imediações dela, que as situações de finalização iminente que, por qualquer motivo (um desarme in extremis, uma hesitação do atacante, um último passe mal feito), não chegam a ser situações de finalização efectiva, que tudo isto, no fundo, merece ser considerado na hora de calcular a produção ofensiva de uma equipa.

Imaginem um lance de três para um, por exemplo, em que o portador da bola não consegue deixar um dos dois colegas isolado perante o guarda-redes adversário e permite a intercepção do defesa. O lance, que era bastante promissor antes dessa última acção decisiva, não chega assim a transformar-se numa oportunidade de golo. Imaginem de seguida um avançado que se isola e, na recepção, adianta demasiado a bola e já não lhe chega antes do guarda-redes. Aquilo que seria uma oportunidade de golo clara, caso a recepção fosse perfeita, acaba por não ser contabilizado como tal por um simples percalço no último instante da jogada. E imaginem ainda um jogador que, em desequilíbrio e desenquadrado, rodeado de adversários, sem outro recurso à mão naquele momento, remata com força para onde está virado e a bola, depois de desviar num adversário, vai na direcção da baliza. Trata-se isto de uma oportunidade de golo, apenas porque a bola acabou por se encaminhar caprichosamente para onde era suposto? A contabilidade das oportunidades de golo raramente tem em conta o quão promissor o lance chegou ou não a ser. Quem olha para elas, olha geralmente para o último toque na bola e nada mais. É isso suficiente para que se fique com uma ideia correcta da produção ofensiva duma equipa? Fará sentido somar oportunidades de golo e fazer continhas complicadas acerca das probabilidades de êxito dessas oportunidades, e pôr de parte tudo o resto, inclusive todos os lances promissores que, por qualquer motivo, não culminaram em acções de finalização? Parece-me evidente que não.

Clive Brunskill

O primeiro grande problema dessa ferramenta mágica dos Expected Goals (xG) é justamente este: a exclusão da análise de todos os lances promissores que não culminem em oportunidades de golo. Não é, no entanto, o único problema. As únicas oportunidades de golo que a ferramenta analisa são as que terminam com um remate à baliza. Um lance de ataque que termine com um autogolo, por exemplo, não entra para as contas. Imaginem um cruzamento que se destina a um avançado ao segundo poste, preparado para empurrar a bola para a baliza, que é desviado por um defesa para dentro da baliza antes de lá chegar. Não é isto uma oportunidade de golo claríssima? A ferramenta dos Expected Goals (xG), o santo graal dos papalvos das tabelas numéricas, não o considera. Assim como não considera uma oportunidade de golo qualquer lance de ataque que culmine com um corte in extremis de um defesa a evitar que o avançado finalize sozinho à boca da baliza. Poderíamos pensar, é claro, que estes são casos excepcionais, e que na maioria dos jogos não há ocasiões deste tipo, capazes de desvirtuar a contabilidade das probabilidades de sucesso de uma equipa. Mas estes estão longe de ser os únicos problemas da ferramenta. Além de não contemplar tudo o que antecede o momento final da jogada e de não contemplar jogadas cujo momento final não coincida com a intenção de alvejar a baliza adversária, o que por si só já deixa de fora um número de incidências mais do que suficiente para que desconfiemos da sua utilidade, esta milagrosa ferramenta também não contempla alguns dos factores que mais contribuem para o êxito de um remate.

Como sugerido atrás, os Expected Goals (xG) indicam o número de golos que seria expectável um jogador ou uma equipa concretizar, com base na quantidade e qualidade dos remates efectuados. Os factores em equação dependem muito do modelo usado, mas são normalmente tidos em conta a zona do terreno onde o remate é efectuado (a distância para a baliza e o ângulo disponível), a parte do corpo com que ele é efectuado (se é com o pé ou com a cabeça), a situação de jogo em concreto (se é um lance de bola corrida ou de bola parada), o tipo de passe que precede o remate (se é um cruzamento pelo ar ou um passe pelo chão) e a pressão defensiva no momento do remate. Todos estes factores influenciam decerto a probabilidade de êxito de um determinado remate, que se obtém depois, recorrendo a uma base de dados com milhares de remates registados no passado, por comparação com o êxito de remates do mesmo tipo.

Tudo isto parece fazer sentido. É com certeza menos provável que um remate de longe seja convertido em golo do que um remate de perto, assim como é menos provável que um remate de cabeça acabe em golo do que um remate com o pé da mesma zona. Todos estes factores são relevantes, e todos eles influenciam as probabilidades de êxito de um remate. E poderíamos pensar que, não obstante poder haver outros factores relevantes, a consideração destes já contribui para um valor fiável. Nada mais errado. O que é que interessa que um remate por exemplo dentro da área, feito com o pé após um cruzamento rasteiro, e sem oposição defensiva relevante, tenha uma certa probabilidade de êxito, à luz da comparação com milhares de outros remates da mesma zona e nas mesmas condições, se o remate em análise tiver sido realizado em condições técnicas desfavoráveis, por exemplo, em esforço? Se o jogador se tiver esticado para conseguir chegar à bola e não tiver possibilidades de executar um gesto técnico perfeito, é natural que a probabilidade de êxito seja muito inferior ao que era expectável. Qual é a relevância de considerar factores como a zona do terreno, a parte do corpo, a situação de jogo, o tipo de passe e a pressão adversária, se uma coisa tão simples como a qualidade do gesto técnico no momento do remate altera de modo significativo as probabilidades de êxito desse remate? E quem diz o gesto técnico diz outras coisas igualmente susceptíveis de alterar profundamente essas probabilidades: a bola estar ou não dominada por quem remata; a velocidade a que ela lhe chega, caso se trate de um remate de primeira; a velocidade a que o atleta se desloca no momento anterior ao remate; as características individuais de cada atleta, como o facto usar ou não o pé dominante para rematar; etc.

Andrew Powell

Além de não contemplar lances promissores que não chegam a ser transformados em oportunidades de golo e de não contemplar senão remates (como já sugeri, um desarme de um defesa in extremis, à boca da baliza, não entra nas contas), a ferramenta não contempla também uma série de factores que, dependendo da situação em análise, podem fazer toda a diferença. As características de um remate não se reduzem de modo algum à zona onde é efectuado, à parte do corpo com que é realizado ou à oposição defensiva que é exercida nesse momento. O gesto técnico, o timing de ataque à bola, a decisão de dominá-la para rematar de seguida (o que pode levar a perder ângulo de remate ou a permitir a aproximação de um defesa que venha estorvar a acção decisiva), a decisão de tirar um último defesa da frente, para ficar em melhores condições de finalização (e que pode conduzir a uma perda de bola ou, pelo menos, a uma alteração significativa das probabilidades de êxito), qualquer hesitaçãozinha, tudo isto pesa muitíssimo na qualidade de um remate. E as características individuais do rematador? Um remate com o pé dominante é completamente diferente de um remate com o pé mais fraco. Há jogadores que metem bolas de fora da área na gaveta com um pé e que falham golos cantados com o outro. E o pé dominante não é de todo a única característica individual relevante. Em comparação com um jogador exímio no jogo aéreo, um jogador mais fraco nesse capítulo tenderá decerto a falhar muito mais golos de cabeça a poucos metros da baliza. A ferramenta dos Expected Goals (xG) não considera, nem vejo como poderá algum dia considerar, as virtudes e os defeitos de cada atleta. Mesmo que não tivesse mais nenhum problema, só isso seria suficiente para produzir valores erróneos constantemente. Num jogo em que cada uma das duas equipas tenha uma oportunidade de golo apenas, e essas oportunidades sejam absolutamente idênticas (na mesma zona do terreno, com a mesma oposição defensiva, etc.), os Expected Goals (xG) serão tendencialmente iguais para os dois lados. Mas basta que os rematadores sejam muito diferentes (por exemplo, Cristiano Ronaldo e Mesut Ozil, numa finalização de cabeça) para que as probabilidades de êxito sejam bem distintas.

Ao contrário do que é sugerido por aqueles que dela beneficiam comercialmente ou por aqueles que a usam para estipular certezas acerca da justiça ou da injustiça de um resultado, a ferramenta não é por isso apenas vagamente imperfeita. Não se trata somente de algumas limitações, que na maioria dos casos não prejudicam a leitura da produção ofensiva das equipas em análise. Pelo contrário, a ferramenta dá uma ideia fundamentalmente errada acerca dessa produção. São tantos os parâmetros que ignora, tantos os aspectos de um lance que não cabem na análise desse lance, que o grau de fiabilidade das taxas de sucesso expectável, para cada lance e depois para cada jogo, só poderia ser baixíssimo. E essa ideia fundamentalmente errada acerca da produção ofensiva das equipas não é sequer a pior das ilusões que esta ferramenta produz. Mais pernicioso do que isso são os juízos de valor que lhe vêm atrelados. Quem quer que a leve a sério, convencer-se-á a médio ou a longo prazo de que o caminho para o sucesso deverá ir ao encontro do que quer que esta bolinha de cristal for mostrando. Equipas com taxas mais baixas procurarão seguir os exemplos de equipas com taxas mais altas, que tendencialmente serão aquelas que atacam com mais espaço e que, em proporção, mais vezes terminem as suas jogadas com remates em zonas favoráveis. Atacar com paciência, hesitar, elaborar melhor os lances, procurar melhores situações de finalização, tentar desposicionar blocos adversários compactos, assumir a iniciativa com bola – tudo isto tenderá a perder relevância e a tornar-se obsoleto. Quanto mais nos deixarmos persuadir pela bruxaria aritmética dos Expected Goals (xG), mais distópico será o futuro da modalidade.

A meio de Dezembro, José Mourinho reagiu à derrota em Liverpool, consentida ao cair do pano, alegando que a melhor equipa em campo tinha perdido o jogo. A alegação não surpreende, dado que não é a primeira vez que Mourinho considera injusto perder nestas circunstâncias. Por razões que continuo a achar dificílimas de justificar, Mourinho teima em achar que, desde que consiga sair em contra-ataque duas ou três vezes durante os 90 minutos, pode perfeitamente passar o jogo encostado à pequena área e consentir variadíssimas oportunidades aos adversários. Em Liverpool, o Tottenham conseguiu realmente criar quatro ocasiões de golo, quase todas no mesmo período, logo no início da segunda parte. Mas durante os 90 minutos consentiu mais de uma dezena de oportunidades à equipa de Jurgen Klopp (seis delas, pelo menos, tão ou mais flagrantes do que aquelas de que dispôs o Tottenham), mais de quarenta acções dentro da sua própria área e 74% de posse de bola ao adversário. Claro que o Tottenham podia ter ganho o jogo. Bastava que as poucas oportunidades que conseguiu criar tivessem sido transformadas mais vezes em golo do que as muitas oportunidades criadas pelo Liverpool. Não era a primeira vez que acontecia. Mas achar que, num jogo com essas características, a equipa que menos iniciativa teve, que menos acções ofensivas realizou e que dispôs de situações de finalização, efectiva ou iminente, em menor quantidade e qualidade, foi aquela que no final mais perto esteve da vitória é no mínimo absurdo. É por isso muitíssimo elucidativo para os efeitos deste artigo que, nesse mesmo jogo, a giríssima aritmética dos Expected Goals (xG) tenha indicado que foi o Tottenham e não o Liverpool que, de facto, esteve mais perto da vitória.

Tottenham Hotspur FC

De acordo com os dados da plataforma understat.com, a soma das probabilidades de êxito de todos os remates efectuados pela equipa de Jurgen Klopp não passou de 1.22, enquanto a da equipa de José Mourinho chegou aos 1.52, pelo que o resultado final de 2-1 para o Liverpool não reflecte aquilo que as duas equipas produziram ofensivamente. Será mesmo assim? Mesmo que ignoremos todos aqueles lances que não culminaram num remate à baliza, as mais de quatro dezenas de acções dentro da área adversária e tudo aquilo que o Liverpool conseguiu fazer em termos ofensivos (a quantidade de vezes que conseguiu saltar as primeiras linhas de pressão e entrar no bloco adversário, a facilidade com que criou superioridade numérica na zona da bola, etc.), e nos foquemos apenas nas jogadas contempladas pela ferramenta, aquilo que vemos é uma inflação descabida de certas ocasiões por comparação com outras.

No caso do Tottenham, a pontuação depende quase exclusivamente das quatro ocasiões mais claras: a do golo de Son aos 32 minutos de jogo (0.35 xG), as duas de Bergwijn, aos 45 e aos 62 minutos (0.34 xG e 0.28 xG) e a de Harry Kane, de cabeça, aos 62 minutos (0.43 xG). A primeira coisa a dizer a respeito destes números, e que não pode de modo algum deixar de ser surpreendente, é que a ferramenta considera mais provável que a primeira oportunidade de Bergwijn terminasse em golo do que a segunda. Basta rever o lance para perceber que isso não faz qualquer sentido. Na primeira ocasião, Bergwijn ganha a frente a Alexander-Arnold, mas depois perde algum tempo e, quando remata, já está a ser estorvado. Mais do que isso, opta por fazê-lo com o pé direito (por ser o seu melhor pé), quando o esquerdo, naquelas circunstâncias em particular, o deixaria mais confortável perante proximidade do defesa. O gesto técnico, por causa dessa opção, acaba por ser deficiente, e o remate sai fraco e ao lado. Estimar que esta oportunidade de golo teria mais probabilidades de êxito do que a segunda, num lance em que o mesmo Bergwijn pôde finalizar sem qualquer oposição e o gesto técnico foi o pretendido e aquele que maior eficácia lhe garantia, é desde logo revelador do quão pouco fiável a ferramenta é. Mais do que isso, leva a crer que o factor ‘pressão defensiva’ tem provavelmente em conta apenas os adversários que se encontram entre a bola e a baliza, e não aqueles que, como foi o caso, perturbam a acção de finalização.

Ocorre um problema parecido na oportunidade advinda do cabeceamento de Harry Kane, na sequência de um pontapé de canto. Que esse cabeceamento tenha mais probabilidades de êxito, à luz da matemática muito bonitinha dos Expected Goals (xG), do que o remate ao poste de Bergwijn ou do que o remate para golo de Son também é bem ilustrativo da flagrante falta de acuidade da ferramenta. Se Kane estivesse sozinho no momento de cabecear, talvez um cabeceamento daquela zona tivesse probabilidades de êxito superiores aos remates de Bergwijn e Son. No meio do cacho de jogadores em que se encontrava, não sabendo sequer se a bola lhe chegaria ou não até ao momento em que ela lhe aparece ali à frente, presumir que marcaria mais de duas vezes a cada cinco é só ridículo. Mais uma vez se percebe que as únicas referências defensivas que a ferramenta considera são aquelas que se encontram entre a bola e a baliza no momento do remate. Este lance é aliás perfeito para mostrar de que modo a abordagem do avançado ao lance pode ter muito mais relevância para aferir as probabilidades de êxito do mesmo do que qualquer um dos critérios que a ferramenta privilegia. O que é que interessa que o cabeceamento tenha sido feito já na pequena área, a poucos metros da baliza, só com o guarda-redes pela frente, se a abordagem à bola era dificílima de calcular e o gesto técnico não podia ser preparado de antemão?

Como se percebe, portanto, se há coisa que os Expected Goals (xG) do Tottenham neste jogo tornam evidente é a profunda incoerência em que se baseiam. E os do Liverpool? De acordo com os mesmos dados da understat.com, foram considerados 15 remates só dentro da grande área. É capaz de valer a pena repetir: 15! A menos que boa parte desses remates tivesse sido de ângulo apertado, o que não foi o caso, é estranhíssimo que a soma das probabilidades de êxito de quinze oportunidades não supere a soma das de quatro.

É por isso interessante olhar para algumas dessas oportunidades e tentar perceber de que modo elas foram avaliadas pela magnífica ferramenta dos Expected Goals (xG). Começo pelo cabeceamento de Firmino aos 10 minutos, na sequência de um livre batido por Robertson na meia-esquerda. A ferramenta considerou que o remate de Firmino, que cabeceou à vontade a poucos metros da baliza de Lloris, merecia uma taxa de êxito de 0.03 xG. Portanto, só para ficarmos todos com uma ideia clara do quão arbitrários são estes números, um cabeceamento a poucos metros da baliza, sem ninguém por perto a estorvar e para o qual o avançado dispõe de tempo para adequar o melhor possível o gesto técnico (até podia ter parado no peito e finalizado de outro modo), tem 14 vezes menos probabilidades de êxito do que um cabeceamento dois ou três metros mais à frente no meio de um aglomerado de defesas (o cabeceamento de Kane foi estimado em 0.43 xG), é isso? O cabeceamento de Firmino naquelas condições favoráveis, que leva aliás o guarda-redes do Tottenham a executar uma estirada para defendê-lo, tem tantas probabilidades de êxito quanto o remate de Salah, aos 56 minutos (0.03 xG), ou quanto o remate de Alexander-Arnold logo no primeiro minuto da partida (0.02 xG), ambos a mais de 20 metros da baliza? É possível levar a sério uma palermice destas?

Mas calma que há mais. Alguém consegue explicar por que motivo o cabeceamento para golo de Firmino aos 89 minutos gerou um número quatro vezes mais baixo (0.11 xG) do que o cabeceamento de Kane, se foi efectuado praticamente da mesma zona? Mesmo dando de barato que a abordagem do avançado ao lance e a presença de adversários por perto no momento do remate tenham sido ignorados pela ferramenta, e desconsiderando por isso que Firmino dispusesse de condições bem mais favoráveis do que as de Kane (vem embalado e ganha a frente ao opositor), como é que dois cabeceamentos praticamente da mesma zona (a diferença deve ser de um metro) podem gerar probabilidades de êxito tão distintas?

Olhemos agora para a oportunidade de Sadio Mané aos 72 minutos, quando se esquiva ao seu opositor directo e, descaído para a esquerda, na pequena área, desfere um remate de pé esquerdo à barra só tendo pela frente Hugo Lloris. Qual terá sido a taxa de êxito gerada pelo abacozinho dos Expected Goals (xG)? 0.60 xG ? 0.50 xG? Talvez algo um pouco mais modesto, dado que o ângulo não era perfeito. 0.40 xG? 0.30 xG? Nada disso, meus amigos. Um remate sem ninguém pela frente, daquela zona do terreno, não vai além dos 0.07 xG. A melhor oportunidade do Liverpool em todo o jogo, num lance em que Mané se desembaraça do seu adversário e fica isolado, com a baliza a pouquíssimos metros de distância, e cujo gesto técnico não é estorvado, só daria golo 7 vezes em 100 tentativas. Vá, podem rir. Mas contenham-se porque há mais. Aos 68 minutos, Mohamed Salah isola-se a passe de Rhys Williams. A jogada é ligeiramente descaída para a direita, e o defesa vem no seu encalço, não lhe permitindo finalizar confortavelmente com o seu melhor pé. Como tal, Salah decide usar o pé direito e o remate sai enrolado, frouxo e pouco colocado. A decisão de colocá-lo ao primeiro poste e não ao segundo teria decerto produzido um remate mais potente (o gesto técnico, com um pé que não é o dominante, seria menos exigente), e a defesa de Lloris seria bem mais difícil do que foi. Ainda assim, no momento do remate, Salah só tem o guarda-redes pela frente, e não comete o erro de Bergwijn na primeira das duas oportunidades que teve, ao optar por abrir o corpo para usar o seu pé preferencial, assim permitindo que o defesa lhe estorvasse a acção. E, no entanto, ao contrário desse lance de Bergwijn, que produziu um taxa de êxito de 0.34 xG, o lance de Salah produziu um taxa de apenas 0.12 xG. É verdade que Salah remata numa zona ligeiramente mais recuada (por outro lado o guarda-redes não estava tão próximo e o ângulo não estava tão fechado), mas achar que a probabilidade de esse remate acabar dentro da baliza é inferior em três vezes à probabilidade de golo do lance de Bergwijn é, uma vez mais, um disparate de todo o tamanho.

Não queria aprofundar muito mais estas observações, até porque o Liverpool criou inúmeras oportunidades, mas vale a pena referir que uma das melhores ocasiões de golo do Liverpool na primeira parte, um lance pela esquerda aos 20 minutos que acaba com um remate frontal de Salah, na zona da marca de penálti, mereceu uma taxa de êxito de 0.10 xG. De novo, alguém acredita que, daquela zona, sem oposição, com o seu melhor pé, em resposta a um cruzamento rasteiro, Mohamed Salah só marcava 1 vez a cada 10 tentativas? E, já agora, 0.10 xG foi também a taxa de êxito de um remate cruzado de Firmino aos 34 minutos, que levou Lloris a executar uma defesa apertada. Apesar de ter Eric Dier pela frente no momento do remate, considerar que a cada 10 oportunidades iguais Firmino só faria 1 golo diz quase tudo da fiabilidade desta ferramenta.

John Powell

Queria aliás terminar com uma sugestão. Embora fuja ao âmbito de negócio de qualquer Hernâni dos números que para aí ande, aquilo que sugiro é que se troquem os algoritmos moderníssimos por – digamos assim – a capacidade de pensar. Se querem calcular taxas de êxito, abram os olhos, vejam cada jogada, discirnam cada pormenor, e atribuam vocês uma probabilidade de êxito, consoante essa análise. Dá trabalho, claro, e não gera consensos. Aquilo que uma pessoa considera relevante, outra pode não considerar. Mas a discutir é que as pessoas se entendem. Achar que as matemáticas complicadas tornam impertinentes as discussões entre as pessoas e se oferecem como arbitragem incontestável e prontinha a consumir é uma ambição antiga dos que pior toleram a divergência de opinião.

Façamos um exercício rápido, usando para o efeito este mesmo jogo entre Liverpool e Tottenham. Para facilitar, consideremos apenas as seis oportunidades mais claras dos pupilos de Jurgen Klopp, e atribuamos empiricamente, puxando pela própria cabecinha e sem medo de falhar por excesso ou por defeito, um valor de 1 a 10 a cada oportunidade (onde 10 seria golo certo), somemos tudo e no final dividamos por 10. Comecemos pelo Tottenham: se somarmos a oportunidade do golo de Son (8), à de Bergwijn aos 45 minutos (4), à de Bergwijn aos 62 (7) e à de Harry Kane aos 62 (3), obtemos um valor de 22, que dividido por 10 daria 2.2 golos. No caso do Liverpool, se somarmos a oportunidade de golo de Firmino aos 10 minutos (6), à de Salah aos 20 (6), à de Firmino aos 34 (5), à de Salah aos 68 (6), à de Mané aos 72 (7) e à de Firmino aos 89 (6), obtemos um valor de 36, que dividido por 10 daria 3.6 golos. Um resultado de 4 a 2 favorável ao Liverpool não espelha muito melhor o que as duas equipas na verdade fizeram em campo? Para quem quer que não tenha vergonha de não ser perfeito a fazer estimativas, que admita facilmente que uma oportunidade a que atribuiu 5 pontos possa afinal merecer 4 ou 6 e aceite portanto a introdução de alguma margem de erro nestas contas, a resposta a esta pergunta é óbvia. Para os outros, é barulho. Se por qualquer acaso a calculadora que estimam como rosário lhes dissesse que a raiz quadrada de 9 é feijoada à transmontana, com agrado suporiam que tudo no mundo se pode explicar recorrendo ao feijão, à hortaliça e ao chispe de porco.

Nota: O autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.