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Duarte Gomes

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Ex-árbitro de futebol

O apelo de Duarte Gomes: não sejam como o mecânico que insistia em ensinar o padeiro a fazer pão

O ex-árbitro de futebol lamenta o estado em que o país está, por conta de quem não respeita as limitações provocadas pela pandemia de covid-19: "É nesta nossa casa que uns quantos doidos varridos pedem aos vizinhos que lhes emprestem os Lulus para poderem passeá-los sem que as autoridades os chateiem"

Duarte Gomes

MIKE EGERTON

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Portugal voltou hoje a bater recordes no que diz respeito a número diário de infetados e mortes por Covid-19.

Além de lamentar a perda de vidas, não há muito mais a dizer sobre estes números arrepiantes.

O que é cada vez mais notório (basta passar os olhos pelas redes sociais, telejornais e afins) é a gigante colisão de opiniões que pessoas iguais, como eu e o caro leitor, ainda mantêm sobre esta realidade. Sobre esta factualidade.

Não há "inocentes" aí. Já todos caímos nesse erro bem intencionado, o que se percebe.

É que há muito que este é o tema da atualidade. A pandemia mudou totalmente o nosso quotidiano, afetou profundamente a nossa economia e alterou radicalmente a forma como socializamos uns com os outros.

Mas entre essa liberdade e a insistência quase obsessiva de nos posicionarmos como se soubéssemos mais do que quem sabe, vai uma diferença enorme.

Quando vejo tanto "especialista" falar sobre este assunto de forma tão afirmativa, lembro-me logo daquela história do mecânico que insistia em ensinar ao padeiro como devia fazer pão.

O padeiro, que tinha anos e anos de experiência, bem tentava dizer-lhe que estava errado e que sabia, por A + B, que as coisas não era assim, mas o mecânico, irredutível e manipulador, mantinha a dele, com a arrogância dos ignorantes. Vencia-o pelo cansaço.

Penso que este já não é o momento para troca de galhardetes, conversas apimentadas ou sobreposição de argumentos inócuos.

Portugal é hoje a Itália que em março tanto nos horrorizou. Isto é verdade. É mesmo verdade.

Em momentos assim, de urgência máxima, não se fazem contas, não se apontam dedos nem se trocam generais.

Em momentos de urgência arrepia-se caminho. Atua-se e atua-se com rapidez e eficiência.

Javier Zayas Photography / Getty Images

É que dez meses depois não pode haver uma única pessoa normal que desvalorize a gravidade deste vírus. Não pode haver um único ser humano quem coloque em causa a idoneidade profissional de todos os que lidam diariamente com ele.

Já não faz sentido. Já não há cabimento. Já não é aceitável.

Neste momento o que todos temos que fazer, enquanto pessoas de bem e cidadãos responsáveis, é ficar em casa. Ficar em casa sempre que possível. E quando não for possível, sair mas com máscara, mantendo distâncias e higienizando as mãos com frequência.

Agora digam-me: será assim tão difícil? Se acham que sim, considerem isto:

De março de 2020 até hoje morreram (em Portugal) 9.246 pessoas com Covid-19.

A média é de quase 925 pessoas por mês.

Estamos a falar de mais de 30 mortes por dia.

Além destas, muitas outras, que sofriam de patologias graves e que não tiveram a assistência que precisavam e mereciam, também partiram. Lamentavelmente.

É um drama real, com efeito galopante e devastador nas outras doenças e que agora é feito de escolhas angustiantes e difíceis.

Isto está a acontecer aqui, em Portugal. Na nossa casa. Na nossa casa!

E é nesta nossa casa que meia dúzia de alienados insiste em colocar em risco a saúde de todos ao escolher dar uma voltinha sem máscara e de trela na mão (mas sem cão).

É nesta nossa casa que uns quantos doidos varridos pedem aos vizinhos que lhes emprestem os Lulus para poderem passeá-los sem que as autoridades os chateiem. Aconteceu em Cascais, em Bragança e sabe-se lá mais onde.

Há-de chegar ao dia em que alguém terá de prestar contas (quando se apurar com justiça quem e quais) sobre o que podia ter sido feito e não foi, sobre o que foi bem ou mal decidido, sobre isto ou aquilo... mas agora não! Agora é tempo de ser sensato e de defender os nossos.

É tempo de prevenir e cuidar.

Não culpem os outros daquilo que só depende de vocês. De cada um de nós.