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Duarte Gomes

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Ex-árbitro de futebol

Sporting-Braga e Farense-FC Porto: o que têm em comum estas infrações? (Duarte Gomes responde)

O ex-árbitro Duarte Gomes explica os lances entre Al Musrati e Palhinha, no Sporting-Braga, e entre Cassio e Marega, no Farense-FC Porto

Duarte Gomes

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Al Musrati e Palhinha.
Cassio Scheid e Marega.

O que têm em comum as eventuais infrações cometidas pelos primeiros sobre os segundos (final da Taça da Liga e Farense/FC Porto, respetivamente)?

Como repararam os dois lances foram de natureza técnica semelhante. Em comum tiveram:

1. O facto do jogador tocar primeiro na bola e só depois no opositor;

2. O ponto de contacto com o adversário (pé no corpo) dar-se numa zona mais acima (tronco/costas).

Diferenças:

1. O primeiro foi assinalado como irregular. Da falta, antes do meio-campo, nasceu o golo que definiu o resultado e a conquista de um troféu.

2. O segundo foi interpretado como legal. O lance ocorreu dentro da área de penálti do SC Farense.

Dito isto, fica a explicação sobre como devem ser analisados este tipo de lances.

Marega: avançado do FC Porto

Marega: avançado do FC Porto

MIGUEL RIOPA

Importa referir desde logo que as leis de jogo não detalham ao pormenor estas situações. Ou seja, não há nada escrito que diga como e quando se deve punir a ação em que um jogador toca primeiro na bola e só depois no adversário.

Quer isto dizer que muito do saber deriva das recomendações que são emanadas e, sobretudo, da forma lógica como devem ser analisados um a um. Isso pressupõe usar todos os sentidos ao serviço da decisão e levantar, para nós próprios, a questão que preside ao bom senso: "Que tipo de decisão é que o futebol espera neste lance"?

Indo à parte técnica em si, julgo estarmos todos de acordo se afirmarmos que é legal todo e qualquer contacto (posterior ao toque na bola) que seja totalmente inevitável. Certo?

Ou seja, quando um jogador aborda o lance de modo próprio (isto é importante: com a intensidade e velocidade que ele exige) e, depois de jogar a bola, colide/toca no adversário que também a tentou disputar... tudo correto. Tudo regular.

Acontece com frequência.

Mas quando a abordagem leva "intensidade a mais", quando há velocidade/força acima do exigível ou quando a entrada em si roça o imprudente (mostra falta de cuidado ou não considera as consequências), o choque/toque seguinte é "de risco para quem arrisca". Se assim for, o mais certo é ser percecionado como faltoso.

Além deste fator - o relativo à forma de abordar a jogada - outro dos factores é avaliar o que chamamos de "movimento extra", ou seja, perceber qual foi o local do contacto no corpo do adversário.

Se, por exemplo, um jogador que toca a bola em carrinho rente ao solo acerta depois numa zona alta do opositor (perna, peito, etc) está claramente a cometer falta. Pressupõe-se que o gesto posterior foi desnecessário e podia ser evitado.

Nota ainda para a questão dos pés: se eu, defesa, toco na bola com o pé direito e com o esquerdo derrubo o meu adversário, muito provavelmente estou a infringir. Porquê? Porque esse não é o seguimento normal e expetável para quem toca antes na bola.

Há ainda a questão do "benefício", que pode ajudar a distinguir legal de ilegal: quando o toque posterior no adversário não traz qualquer vantagem desportiva (a bola sai do campo, por exemplo) é uma coisa; se, por outro lado, esse contacto derrubar o adversário que até ficava em situação muito vantajosa, pode ser outra.

Como vêem, não há aqui verdades absolutas, mas há ferramentas que ajudam a decidir e mais, há a sensatez, que nos deve fazer olhar para um lance e intuir se ele é ou não legal.

NOTA - Al Musrati e Cassio Scheid fizeram mesmo falta. Indiscutivelmente. Percebem agora porquê?