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Duarte Gomes

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Ex-árbitro de futebol

O caso do fora de jogo fantasma no Moreirense-Braga: se este erro tivesse acontecido no dérbi, a arbitragem voltaria a ser chamuscada

O ex-árbitro Duarte Gomes explica o caso que marcou o Moreirense-Braga, quando um golo de Ricardo Horta foi anulado por alegado fora de jogo: um erro, já que o jogador estava em jogo por mais de um metro

Duarte Gomes

Quality Sport Images

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Na última jornada aconteceu uma situação atípica em Moreira de Cónegos: Ricardo Horta marcou um golo inicialmente validado pela equipa de arbitragem, mas que foi depois anulado por intervenção do VAR. A sinalética do árbitro confirmou que o avançado bracarense partiu de posição irregular.

Embora o "olho nú" nunca seja fiável - sobretudo em lances de dúvida, no limite - a verdade é que todas as imagens daquele instantâneo pareceram mostrar que Horta estaria claramente em jogo.

De acordo com explicação oficial posterior (também dada, no final do jogo, às duas equipas)... "a deficiente calibragem técnica das linhas de fora originou a má avaliação de um lance de ataque do Sp. Braga", sendo por isso sancionado, de forma indevida, um fora de jogo num lance que o jogador estava em jogo por 1.18m.

O que aconteceu não tem explicação técnica fácil, mas tentarei resumir aqui de forma simplificada:

- Os estádios não são todos iguais e, por isso, as câmaras não podem ser colocadas de igual modo. Naqueles em que as bancadas são mais pequenas, a sua fixação é próxima ao solo (mais perto do relvado), algo que dificulta o trabalho operacional de quem está em sala. Isso acontece no estádio do Moreirense e em muitos outros, por oposição ao que sucede, por exemplo, em Guimarães, Braga ou Jamor.

2 - Quando há um lance de possível fora de jogo sujeito a VAR (um que resulte, por exemplo, em golo ou pontapé de penálti), a primeira coisa que é feita pelo técnico de imagem é calibrar as referências que existem (áreas, medidas, marcações, linhas, todo e qualquer outro ponto relevante), para ter todas as ferramentas que precisa para medir o posicionamento do avançado.

Regra geral, para a análise de foras de jogo são usadas as câmaras de topo/master (ângulo aberto), a do fora do jogo (que coloca o ponto na última parte do corpo de defesa e avançado que estão mais perto da baliza - à exceção dos braços) e uma de "curtos" (ângulo fechado), apenas para definir o exato momento em que o passe é feito.

3 - Neste caso concreto, o que falhou foi a triangulação de todas elas. Por força de se usar uma das câmaras mais baixas (perto do terreno de jogo), um erro de calibragem aconteceu e foi o que bastou para que a linha tecnológica de fora de jogo fosse colocada atrás de Ricardo Horta, ou seja, indicando que o avançado estaria em offside.

Temos que aceitar que o erro humano é um dano colateral inevitável no uso da tecnologia, porque a maioria delas depende de mão humana e o homem é falível. No entanto, essa verdade não pode nem deve levar a facilitismos. Não pode nem deve justificar tudo.

A questão que deve ser levantada é a de perceber-se o que levou VAR e AVAR a validarem aquela informação distorcida como correta.

Na arbitragem não há Maradonas e se há coisa que o universo já nos ensinou (ensina-nos a todos, todos os dias) é que há sempre qualquer coisa nova para aprender, há sempre qualquer lição a retirar, ainda que de experiências menos felizes.

No caso em apreço, a grande lição a retirar é a necessidade de termos que questionar tudo, a toda a hora. É a obrigação profissional de nunca darmos como certa uma decisão se temos a oportunidade de a confirmar uma, duas, três vezes.Isso é ainda mais relevante quando a solução entretanto apresentada pareça desajustada e descabida aos olhos do senso comum, como aquela pareceu de imediato.

Um videoárbitro concentrado tem que olhar para um lance como aquele e perceber que algo está errado. Um árbitro assistente focado e seguro tem que desconfiar de uma indicação técnica que contrariou, de forma clara, a percecão correta que teve em campo. E um técnico de imagem com feeling para o jogo tem que intuir que há determinadas coisas têm tudo para não bater certo.

Num fora de jogo de 2 ou 3 cms esta questão não se colocaria, porque entraria na tal margem de erro difícil de detetar empiricamente. Aí sim, a tecnologia faz lei. Mas em lances destes, de decisão claramente percetível a olho nu, tem que haver perguntas, tem que haver certezas, tem que haver mais segurança antes de se validarem processos de resposta automática.

A tecnologia é um instrumento de apoio, não é o Supremo Tribunal. Supremo é o árbitro na sua autoridade.

A arbitragem tem cada vez mais meios e está agora a aprender a lidar e a crescer com eles. É um desafio exigente, demasiado escrutinado e porventura injusto, mas a sua exposição é inevitável na forma como o negócio-futebol está montado.

Errar não é crime (quem nunca?) mas a credibilidade da classe também assenta na sua capacidade em discernir boas e más decisões quando há tempo, meios e condições para isso. E ali houve.

Se este erro tivesse acontecido no dérbi de Alvalade, num clássico a doer ou em qualquer outro jogo mais mediático, seria tema para meses e a arbitragem voltaria a ser chamuscada em praça pública. Se tivesse tido influência direta num qualquer resultado eliminatória ou campeonato... seria o fim do mundo. Porquê? Porque ninguém desconfiou, ninguém questionou e todos se conformaram. Mal.