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Opinião
João Rodrigues

João Rodrigues

Presidente Comissão Atletas Olímpicos

Faz agora um ano: como me sentiria se estivesse em campanha para Tóquio e me visse mergulhado numa realidade completamente diferente?

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve João Rodrigues, presidente da Comissão de Atletas Olímpicos

João Rodrigues

ROMEO GACAD

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Faz agora um ano já se vislumbrava no horizonte qualquer coisa. Não se sabia bem o que era, nem qual seria o desenvolvimento. Mas começava a sentir-se uma certa tensão no ar. Acima de tudo, o que incomodava era o desconhecimento, a incerteza do que, inevitavelmente, chegaria aos quatro cantos no mundo. Inclusivamente ao nosso.

Nessa altura, centenas de atletas portugueses mantinham um registo habitual. Exploravam os limites do corpo e da mente humana. Tudo para terem a oportunidade de marcar presença, não só no maior evento desportivo do planeta, mas também no mais competitivo, onde apenas os melhores atletas do mundo têm oportunidade de medir forças com os seus pares.

Consigo ainda rever os milhares e milhares de horas que terão despendido, na ânsia de desenvolver todo o seu potencial. As escolhas que terão feito, escolhas profundas. As decisões que terão tomado, que afetaram as suas vidas, mas também as daqueles que os rodeiam. Tudo para terem o privilégio de lá estar.

Não foram só os quatro anos que marcam cada ciclo Olímpico. Foram todos aqueles anos passados a trabalhar em busca da perfeição, até poderem sentir-se minimamente confiantes para abraçar uma campanha Olímpica. E depois, trabalhar mais ainda, mais afincadamente, mais detalhadamente, explorando detalhes cada vez mais subtis, percebendo nuances invisíveis ao olhar comum, conhecendo-se cada vez melhor, sob todos os níveis: físico, mental, ético…

Entretanto, surgiu a incerteza. A paragem. A dúvida. A indecisão. Quantas vezes me imaginei no lugar deles. Como me sentiria se estivesse em campanha para Tóquio e, de um dia para outro, me visse mergulhado numa realidade completamente diferente, com regras distintas, outros desafios, inimagináveis uns meses antes? E ainda assim, continuasse a preparar-me para aquele momento? Que sabia ser tão exigente em condições normais?

O que fizeram então os atletas? Reagiram e adaptaram-se! Alargaram esse conceito, que tantas vezes usaram quando em competição, para todos os aspetos do dia-a-dia. Ao fazê-lo, sem certamente saberem, inspiraram todo um país. Nunca baixando os braços, deram provas de uma enorme resiliência, mas também de muita paciência. Não se vitimizaram, mas manifestaram a sua opinião. Discordando do rumo que quem, por direito, entendeu dar à forma de enfrentar esta adversidade global. Fizeram-no com elevação, mas também com a clara perceção da situação de milhões de portugueses, como que em solidariedade para com todo um povo.

Passado um ano, não será sem uma ponta de orgulho que constatamos que aqueles atletas continuam a dar mostras de uma fibra e uma garra exemplares. Que em muitos casos tem resultado até em classificações internacionais de relevo. No entanto, nesta reta final, um esforço suplementar será ainda necessário.

Estes Jogos Olímpicos serão em tudo diferentes. Mas tal não invalida que a sua participação não resulte em algo absolutamente extraordinário. Até porque, no seu âmago, a essência do evento continua de pedra e cal. Essa essência reside na oportunidade que cada atleta terá de se transcender como ser humano num determinado momento. Essa magia está ao alcance de qualquer um, porque traduz-se em algo absolutamente único, singular e individualizado. Continua lá!