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Quando a única certeza é a incerteza

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve Ana Bispo Ramires, psicóloga do Desporto e Performance e membro da direção de Medicina do Comité Olímpico de Portugal

Ana Bispo Ramires

GIUSEPPE FAMA/EPA

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Factos:

1) A ansiedade é uma resposta natural (e, “por defeito”, no ser humano) à perceção de incerteza;

2) Esta resposta por “defeito” encontra-se inibida enquanto a perceção de segurança for mantida;

3) A experiência de ansiedade ou stress crónicos resultam mais de uma perceção generalizada de ameaça do que de uma ameaça concreta;

4) A intolerância à incerteza é uma característica natural, aliviada quando a perceção de segurança aumenta;

5) Somos naturalmente ávidos por segurança, por “certezas” e controlo, pelo que, quando imaginamos nada poder fazer para aumentar a perceção de segurança, a possibilidade de amplificação de fenómenos de natureza ansiogénica eleva-se, favorecendo, entre outras, a perturbação e labilidade do humor, a dispersão cognitiva (ou a incapacidade em manter sustentadamente a atenção), o isolamento e a perda de vitalidade (física e psicológica).

Um exercício simples de multiplicar a informação apresentada (que agrega um denominador comum em termos de conclusões por parte de uma enormidade de estudos científicos) por uma grande prevalência de indivíduos na nossa sociedade leva-nos a compreender facilmente a perda de vitalidade, a sensação de “desesperança” e a tão falada “fadiga pandémica”, que se instala naturalmente pelo arrastamento temporal desta experiência (que se encontra a ser globalmente documentada, nas mais diferentes disciplinas científicas e nos diferentes setores das sociedades).

Se fizéssemos um corte transversal nas diferentes Organizações, podemos se calhar entender que a ausência de Literacia Emocional (com forte expressão na nossa capacidade de regulação emocional e de nos mantermos “focados e firmes” em contextos de adversidade), na realidade pré-existente à condição de pandemia, mas agora amplificada e notoriamente visível porque se faz notar na qualidade (ou falta dela) das decisões tomadas, transformou-se agora, também ela numa espécie de “vírus” que não nos permite mobilizar as ações e a vontade (determinação), no sentido de uma resolução eficiente deste episódio que tem tanto de “crítico” como de oportuno para de uma vez por todas darmos relevância ao que, de facto, podemos controlar com um nível de eficiência (nem sempre fácil), maior: o nosso comportamento.

Desporto: A caminho de Tóquio (que aprendizagens para a Sociedade em geral?)

A pouco menos de 150 dias deste grande evento desportivo, o quotidiano de qualquer atleta permanece inalterável, na imprevisibilidade que agora o caracteriza:

- Treinar ao mais alto nível, gerir lesões, cansaço, energia – estar pronto, ou seja, “fazer figas” para que, de entre tantas provas de qualificação que vão sendo canceladas, uma não o seja e possam, enfim, colocar em prática um trabalho desenvolvido em condições inimagináveis para muitos de nós – desenvolver esforço, sacrifício, tolerar a dor, a incerteza e a ansiedade que também se instalam (são humanos, é verdade), enquanto aguardam “a oportunidade” que muitas vezes teima em não surgir.

Importa entender que, tal como a restante sociedade, a carreira dos atletas acabou por ser naturalmente impactada nas mais diversas esferas: na alteração abrupta da sua rotina diária de trabalho (não, não o podem fazer em teletrabalho...), na perceção de risco de doença/vida (sua ou de familiares), na alteração disruptiva das suas dinâmicas familiares (sim, é verdade... muitos têm filhos e famílias às quais repentinamente tiveram que dar muito mais suporte), na perceção de poderem assegurar a sua sobrevivência económica (uma vez que muitos complementam o seu retorno financeiro com os prémios que alcançam nas competições que agora não existem) e no luto efetivo de familiares que não tenham sobrevivido à doença durante a pandemia ou em virtude da mesma (por padecer de outras patologias que viram o seu apoio diminuído).

O que nos diferencia dos “Top Performers”?

A exposição precoce a um contexto de aprendizagem planeada, onde o esforço desenvolvido num longo processo de treino de resistência à frustração (porque os resultados não surgem de um dia para o outro...) culmina na aquisição de uma dada competência desejada (“temperada” pela adrenalina libertada no momento em que percebemos que alcançamos o que desejamos), vai modulando algumas características pessoais, mas também possibilitando o treino de um conjunto de competências que, invariavelmente, dotam estas pessoas com as ferramentas necessárias para o sucesso (no Desporto, na Vida e/ou Empresas), como sejam, a título de exemplo:

- Maior controlo sobre as fontes de stress e ansiedade;

- Maior capacidade de foco e de bloqueio de distrações;

- Maior capacidade em desenvolver esforço sem perceção de retorno a curto prazo;

- Maior capacidade em definir objetivos e concretizá-los;

- E, por isto tudo, maior propensão em relacionar-se com a adversidade em “modo de desafio”, que é o que muitos atletas estão a fazer neste momento.

Em resumo:

Vivendo o mesmo contexto que os cidadãos “comuns”, tendo passado pela mesma onda de respostas emocionais que toda a sociedade passou (e passa), na realidade souberam adaptar-se com mais eficácia e eficiência, refocando no desejo e vontade de representar Portugal e, por isso, retornando mais rapidamente a indicadores elevados de performance.

Como?

Em boa verdade e, depois do “choque” inicial:

1) Avaliaram a situação (os recursos, as possibilidades, aquilo que de facto poderiam controlar), definiram um plano e agiram (estabeleceram rotinas claras de otimização);

2) Identificaram as fontes de adversidade, reforçaram competências pessoais e alicerces de grupo/tribo, pilares fundamentais de uma capacidade aumentada de adaptação e resiliência;

3) Aumentaram a perceção de “competitividade” em treino, permitindo ao seu cérebro experienciar múltiplas situações onde foi/é possível ensaiar o controlo voluntário do hemisfério direito (sob o qual se executam performances de excelência);

4) Reforçaram as experiências de intensidade e entusiasmo resultante das pequenas conquistas no treino (=trabalho) do quotidiano, potenciando também a sua ativação em contextos de competição e elevada pressão;

5) Aproveitaram a falta de estímulo competitivo (a “cereja” que muitas vezes nos dispersa), para intensificar as aprendizagens do quotidiano, reforçar o conhecimento sobre as suas emoções, a sua regulação e uma ainda maior capacidade de mobilizar a sua vontade;

6) E, ainda mais exemplarmente, envolveram-se com a Comunidade, partilhando com os seus seguidores nas redes sociais as formas que encontraram para se superar!

É mesmo “isto” que, na realidade, os diferencia de todos os outros: Estabelecem objetivos, saem da sua zona de conforto e desdobram as suas ações em comportamentos com significado e direção.

E se, nos diferentes segmentos da Sociedade, tivéssemos sido capazes de fazer o mesmo? Como podemos, ainda, reagir? Transformar, tal como os atletas, a adversidade numa oportunidade?

Redobra, desde já, a preocupação com o atual panorama (da inexistência) do desporto de formação, fazendo antecipar que, da parte de quem decide, existe um desconhecimento profundo acerca das implicações que uma paragem de quase duas épocas desportivas, com a natural redução drástica de praticantes, vai ter não só no tecido desportivo (e na representação da “marca” Portugal no estrangeiro, com todas as implicações económicas que daí advém) mas também na nossa sociedade, quando as gerações agora afetadas assumirem o seu papel na mesma – só aí poderemos avaliar que competências trazem e que impacto terá no nosso futuro, sendo que, desde já, se adivinha um “prognóstico bastante reservado” – até porque, quando os indivíduos adoecem, as Sociedades também o fazem.