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Paulo Garcia

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Se eu perguntasse a Luís Filipe Vieira quem gosta dele no Benfica, qual seria a resposta? Talvez numa entrevista isto seja esclarecido

Luís Filipe Vieira assume as responsabilidades do momento do Benfica. Mas quais são as responsabilidades que o presidente do Benfica assume? É responsável ou é culpado? Ninguém percebeu (por Paulo Garcia)

Paulo Garcia

NUNO FOX/LUSA

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O impacto das palavras de Luis Filipe Vieira (LFV) têm de ser medidas na proporção: primeiro, pela nação benfiquista que está ávida de perceber o que realmente se passa nesta espécie de definhamento quase compulsivo em que o seu clube mergulhou; segundo, pelo pouco espaço para "abrir o livro" que Vieira tem. Comecemos pelo que encerra a mais básica das razões: LFV sabe, como todos os presidentes dos grandes clubes sabem (provavelmente com exceção de um em Portugal), que é bom se ganhar.

A partir daqui o que estava em causa não era a entrevista, porque não existiu, mas a capacidade que o presidente do Benfica tinha, ou não, de justificar as falhas.

LFV assume as responsabilidades do momento do Benfica. Mas quais são as responsabilidades que o presidente do Benfica assume? É responsável ou é culpado? É que foi impercetível, ao longo da "passagem da mensagem", em quê. E era importante que se percebesse, até para dar alguma claridade ao discurso que em alguns momentos se confundiu entre a incoerência e a confusão. LFV culpa-se, mas logo a seguir, descarta qualquer responsabilidade. E fê-lo durante todo o discurso voltando a puxar por tudo o que fez de bom no Benfica. E realmente LFV fez muito pelo Benfica. O Benfica deve-lhe muito. O que fez dificilmente será apagado e não há nenhum benfiquista que não o reconheça se quiser ser justo.

O problema é que a vida é por vezes cruel e injusta.

Não é o passado que aqui está em causa, mas sim o presente e, mais importante ainda, o futuro. E nestes dois lados da história, fica por perceber do que é que LFV se considera responsável? Pelo que fez, pelo que faz ou pelo que no futuro vai fazer? É ele o culpado ou responsável pela surpreendente queda no abismo da época passada? O que é que aconteceu para o Benfica ter desaparecido do mapa do campeonato quando o tinha na mão de uma maneira tão inexplicável? Foi só no campo o colapso? O que é que se passou e o que é que se está a passar é que urge perceber. É essa autorresponsabilidade a que alude LFV? E falhou onde?

Continuemos na responsabilidade ou culpa (continua a não estar claro) do presidente. Escolheu Jorge Jesus (e muito bem, na minha modesta opinião) porque a nação benfiquista assim o pediu (?). Tem a certeza LFV que isto é mesmo assim? Ou foi ele que achou que mesmo que fosse contra tudo e contra todos, essa era a melhor opção para ele? A mesma nação benfiquista que não sabe o que quer e que já não queria Rui Vitória nem Bruno Lage. Então mas ele LFV queria-os? O que é que o levou a renovar o contrato com Lage poucos meses antes de o mandar embora? Não respondeu.

A mesma nação benfiquista que tanto lhe pede para apostar nos meninos do Seixal, como lhe pede para que ele se afaste deles para não ser acusado de comissionista? Pergunta: as grandes decisões, da sua responsabilidade, oscilam consoante o sentimento apaixonado dos adeptos? LFV rege-se pela pressão exterior? Todos os jogadores tiveram a concordância do actual treinador, diz LFV e claro que nem vale a pena pensar em algo de diferente. Passa pela cabeça de alguém que os que vieram não tivessem a sua concordância? O que o presidente do Benfica não responde, e era importante ouvi-lo para perceber, é outra coisa: os números altíssimos que o Benfica foi apresentando a Cavani deram ou não um sinal de abastança para o exterior que acabou por inflacionar o verdadeiro valor dos passes dos jogadores contratados? Perguntando de outra maneira: não está em causa se estes jogadores são bons porque o são seguramente; o que não se entende é se estes jogadores não foram propositadamente inflacionados (por quem os representa) e se valem o que o Benfica pagou por eles.

O Benfica tem um rico plantel ou um plantel rico? Formou uma grande equipa ou uma equipa cara? A gastar dinheiro deveriam ou não terem sido privilegiadas áreas do campo absolutamente fulcrais para a estabilidade da equipa? LFV não responde.

Como era importante ouvir o presidente do Benfica falar, explicar-se, sobre uma OPA que poucos entenderam mas que seguramente, LFV terá uma explicação plausível e mais esclarecedora. Que OPA foi aquela? Porque é que a CMVM a chumbou?

O nome do Benfica anda de há uns anos a esta parte sob o efeito de vários processos que envolvem o seu presidente e pessoas que o rodeiam. A justiça apurará de que lado está a razão e quão justas ou injustas foram as acusações. Mas tudo isto, enquanto o pau vai e vem, feriu o Benfica. Não chega dizer-se que nada se está a passar e que isto nada tem a ver com o clube. É o Benfica que está a servir de muro. É o Benfica que está a defender as muralhas da sua dignidade enquanto instituição honrada. São os seus adeptos que tentam da maneira que podem defender o clube que amam, sem perceberem realmente como o devem e podem fazer. Apenas sabem que o "seu" Benfica é sério e jamais cairá nas garras daquilo que não o é. Mas podem defendê-lo sem reservas?

O que deixa o Benfica ainda mais ferido é LFV nada falar sobre isto. A pergunta é: o presidente do Benfica tem essa consciência? LFV acredita mesmo que tudo isto, desde que foi tornado publico, deixou o Benfica imune? Não sabemos.

Para terminar as duas perguntas da noite e que ficaram sem resposta. A de Toni sobre o "ziguezaguear" de um projeto do qual LFV promete não se desviar um milímetro que seja. Não foi conclusivo na resposta LFV. E a expressão utilizada por Carlos Manuel na pergunta que deixou ao presidente do Benfica: "Quando penso no Benfica só me ocorre uma palavra "Mística". O que é que o senhor presidente pensa disto?". Uma pergunta que teve tanto de simples como de demolidora. Porque esta é a pergunta. A pergunta sem resposta, é tão esmagadora que me apetecia acrescentar a esta pergunta uma outra: - Se é verdade que a competência nem sempre pode e deve ser confundida com amor clubístico, era importante perceber, se há paixão pelo Benfica entre alguns dos mais competentes dirigentes (e outros que já lá estiveram e saíram há pouco tempo) ou se o Benfica serve, apenas, como modo profissional de vida o que não tem nada de desonesto, atenção.

Um clube da dimensão e do peso do Benfica não pode viver de um presidente que recorrentemente apela à pena como arma de ataque para se defender. Há muito que LFV não tem tempo para a família que dele tanto precisa, já foi assaltado duas vezes, é ofendido quase diariamente, enfim...obviamente isto tem de ser reprovado. Mas ao tornar públicas as situações - e está longe de ser a primeira vez que o faz, o que é questionável -, LFV corre o risco se continuar com o tom dramático se coloque a interrogação de o que é que o leva a aceitar tudo isso e continuar. LFV terá muita dificuldade em dizer que o faz apenas por amor. Ninguém o entenderia dessa forma.

E se LFV percebe o que é que leva alguns dos seus principais detratores e inimigos ao longo dos anos, a serem, neste momento, os seus braços direitos e parceiros governamentais. Onde é que moram aqueles que um dia acreditaram que o seu projeto era realmente o melhor e o defenderam galhardamente na praça publica. LFV não merece que o considerem hoje, o "mau da fita" para tudo. Merece ser respeitado pelo que fez. Mas mais do que o que possa fazer hoje ou no futuro, pode passar ao lado da história que ele próprio ajudou a construir. Está a ser visto à lupa pelo presente. E esse é o perigo que LFV corre sem perceber. Até porque para que o percebesse, teria de ter à sua volta, quem dele goste. Se eu perguntasse a LFV se ele sabe, quem dentro do clube, hoje, o defende de forma apaixonada e sincera, qual seria a resposta? Talvez numa entrevista tudo isto ajude a esclarecer. São 117 anos de história de um grande clube.