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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

O tempo útil de jogo na Liga portuguesa: os números demonstram uma realidade que nos devia fazer corar de vergonha

"O problema está à vista e o diagnóstico há muito que está feito. E agora? Mais do mesmo ou é desta que se dá um murro na mesa?", pergunta o ex-árbitro Duarte Gomes

Duarte Gomes

Catherine Ivill

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Ultimamente tem-se falado muito no baixo tempo útil de jogo na Liga NOS.

Os números demonstram uma realidade que nos devia fazer corar de vergonha: estamos na cauda da Europa, no que diz respeito a faltas assinaladas e ao número de minutos em que a bola efetivamente rola.

Para que se tenha uma ideia, nos primeiros quatro meses desta época, tínhamos 6 jogos no evitável "Top 8" dos que tiveram mais infrações... em toda a Europa. Um deles chegou às 48 faltas!

Não é coincidência, não é azar, nem é circunstancial. É estrutural. É o resultado de um padrão cultural distorcido na forma como se arbitra, joga, treina, comenta, analisa e aplaude o jogo em Portugal.

Eis alguns dados até à 21.ª jornada, recolhidos pelo Diogo Pombo num artigo de excelência, recentemente publicado na Tribuna Expresso:

- A média de tempo útil de jogo foi de 49'26". Quer isso dizer que não se jogou durante 40'34";

- O total de faltas assinaladas foi, em média, de 32,34 (quase 33 por jogo). Na Premier League esse número baixa para 22;

- Somos a liga com menos golos e passes por jogo, em relação às chamados "Big Five" (Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália e França);

- Temos mais jogos com 40 (ou mais) faltas do que têm todos os jogos dos "Big Five".

Contra factos não há argumentos. Responsáveis? Digam-me vocês. Eu acho que somos todos. É fácil dizer que a culpa está apenas na mão de quem apita, mas isso é tão redutor quanto insultuoso.

Querem a minha opinião?

Parte da culpa é, de facto, dos árbitros, por dirigirem jogos de forma ultra-defensiva, inconscientemente talhada para afastar o ruído de cima de si. Falta-lhes um escudo protetor firme, que os permita atuar de modo livre, corajoso e descomplexado;

É também de alguns jogadores, que tantas vezes contribuem para paragens sucessivas no jogo: simulam faltas que não existem, agarram-se à cara quando sofrem toques no peito, protestam permanentemente e entram em conflito com facilidade;

Também (alguns) treinadores têm a sua quota-parte de responsabilidade nesta matéria, porque não raras vezes recorrerem a táticas promotoras de contacto. Além disso, "instigam" a perdas de tempo sucessivas e criam pressão nefasta a partir dos bancos técnicos;

É ainda de (alguns) clubes, pela postura ora bélica ora vitimista como se posicionam, criando suspeitas sem fim e incentivando a climas hostis em torno das arbitragens. Era canalizar energias para melhorar relvados.

É de (alguma) imprensa, que opta pelo estilo "freestyle" conducente a audiências sem filtros, em detrimento da informação séria, ética e rigorosa. O equilíbrio entre a deontologia e a entrada de receitas é complicado, porque o que vende é o que destrói, não o que constrói. Opções.

Sergio Perez

Mas há mais. Também (alguns) adeptos são indiretamente culpados, por preferirem o clima de arruaça e bate-boca, de ofensa e ameaça, em vez de apreciarem o jogo pela positiva, de forma apenas apaixonada e construtiva. Esta coisa do "não apitem a tudo" só tem piada quando o golo marcado depois de um contacto supeito não é na "nossa baliza";

E, por último, dedo apontado a quem faz as leis de jogo, por tardar em arriscar mudanças que impunham menos paragens e mais tempo útil ao jogo. Há muitas soluções, basta ter coragem para testar aquilo que tantas outras modalidades já implementaram.

É tudo "cultural", que é como quem diz, estamos todos agarrados a esta forma feia de ver o jogo. Paramos demais e cobramos quando não paramos. Depois dizemos que é para não parar. "É o que eu quero, mas se calhar não é bem o que eu quero". Pois.

Decidam-se. E pensem nestes números a sério, porque ele são lesa-futebol. O problema está à vista e o diagnóstico há muito que está feito. E agora? Mais do mesmo ou é desta que se dá um murro na mesa?

Vejam lá isso, se faz favor.