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Opinião
Ana Bispo Ramires

Ana Bispo Ramires

Psicóloga de desporto e performance

Dor psicológica e superação: o desporto nacional

"€65 milhões não resolvem problemas (por vezes, até agigantam assimetrias) e podem, em boa verdade, distrair-nos apenas do tema verdadeiramente central que é o reconhecimento inequívoco da importância da atividade física e do desporto nas sociedades modernas", escreve a psicóloga de desporto e performance Ana Bispo Ramires

Ana Bispo Ramires

Alexandre Dimou

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“Se me tivessem dito há um mês que ia ser campeã da Europa eu não ia acreditar, mas consegui passo a passo passar todos os entraves (...) quando percebi que ganhei a emoção foi muita (...) não disse a ninguém porque estava psicologicamente em baixo, mas acreditei sempre que havia possibilidade de voltar, mas havia vários entraves no caminho e a recuperação não estava a ser fácil. Eu também não sabia como ia recuperar pós-Covid (...) Fiz a competição toda nem a pensar nas minhas adversárias, mas a pensar em conseguir superar-me a mim mesma e felizmente foi um dia muito feliz para mim."
- Patrícia Mamona, campeã da Europa triplo salto – Jornal da Noite, SIC, 10 março 2021

A carreira de um atleta de excelência faz-se, desde sempre, com uma enorme determinação, capacidade de resistência à frustração e, em larga medida, a capacidade de gerir eficientemente diferentes tipo de dor – física e psicoemocional.

O testemunho de Patrícia Mamona, imediatamente a seguir à conquista do título europeu em triplo salto no passado fim de semana é, por assim dizer, apenas um pequeno levantar do “véu” que permite que o cidadão mais desatento possa “tocar” levemente esta realidade.

Quer este título (igualmente alcançado por outros dois atletas no mesmo evento, em diferentes disciplinas, Pichardo e Dongmo), quer o enorme feito alcançado pela seleção nacional portuguesa de Andebol que acaba de garantir uma inédita qualificação olímpica, ganham ainda maior relevância se considerarmos o contexto em que estes têm feito a sua preparação – na verdade o mesmo em que toda a sociedade se encontra, ou seja, num arrastado e doloroso período de pandemia que alterou disruptivamente o quotidiano de todos que, em extremo, está a levar muitos dos “nossos”.

TIAGO MIRANDA

Uma vez mais, contrariando todas as dificuldades, os atletas portugueses (como, de resto, em muitas outras ocasiões) resgatam a auto-estima e confiança de todos nós mostrando até, como em momentos de tão grande dificuldade (e onde se chega até a questionar um pouco de tudo) se mantêm ainda assim os esforços e, com isso, a aproximação ao resultado pretendido (como foi o caso também dos atletas Francisco Belo e Pedro e Diogo Costa, que também recentemente alcançaram a qualificação olímpica).

E, uma vez mais se assiste a uma onda gigante de congratulações, nomeadamente por diferentes figuras públicas (e de Estado) que, como tem sido demasiado frequente, se aproximam do desporto quando ele traz visibilidade e não quando ele necessita de decisão política – uma decisão que deveria ter sido célere e eficiente, protegendo aqueles que tanto contribuem (agora e no futuro) para a “marca Portugal”.

E sim, muito recentemente foi, por fim, aprovado um conjunto de medidas (na ordem dos 65 milhões de euros) que visa capacitar o agora moribundo sector desportivo em Portugal – podemos respirar, então de alívio?

Não é seguro.

Não é seguro porque não basta disponibilizar recursos, importa sim encarar o segmento da atividade física, exercício e desporto como vetores estratégicos não só da formação de jovens atletas, mas também da promoção de Saúde Física e Mental – os pilares afinal de uma Sociedade que se quer diferenciada, evoluída e produtiva.

Importa considerar que também este setor merece a criação de uma verdadeira “task force” de especialistas de diferentes disciplinas que possam, estrategicamente, ser um catalisador da distribuição dos meios e, em igual medida, “mentores” no aconselhamento do uso mais eficiente dos mesmos, prevenindo o mais provável cenário de saírem um conjunto de medidas avulso destes apoios, sem consequência alguma a médio-longo prazo face as reais necessidades do desporto nacional.

O setor deve ser encarado com igual seriedade com que se encara o setor da Saúde e/ou Educação, ou não fosse ele um fortíssimo aliado do possível sucesso dos dois primeiros.

É preciso manter presente que uma qualificação olímpica, tal como a que a Seleção de Andebol nos acaba de oferecer (especialmente como a que este grupo conquistou, num cenário de enorme dor emocional exemplarmente transposto para uma missão – impossível, certamente considerada por muitos – de grupo) não se conquista num torneio de qualificação olímpica.

Conquista-se sim com mais de uma década de trabalho executado por toda uma estrutura que, à semelhança de muitas estruturas no contexto do Desporto Nacional, trabalhará certamente com recursos abaixo das suas necessidades e com a boa-vontade, empenho e paixão de todos aqueles que, permanecendo invisíveis, possibilitaram o crescimento destes Atletas desde Jovens.

65 milhões de euros não resolvem problemas (por vezes, até agigantam assimetrias) e podem, em boa verdade, distrair-nos apenas do tema verdadeiramente central que é o reconhecimento inequívoco da importância da atividade física e do desporto nas sociedades modernas – o contínuo desconhecimento desta realidade, traduzido numa inércia e falta de medidas com repercussões a médio longo prazo, apenas reforçará um título que, lamentavelmente, também já é nosso: o de uma profunda ignorância neste segmento que só poderá ser colmatada com a integração da Ciência nos circuitos de decisão superior.

A Psicologia da Performance encontra-se direcionada para a otimização das competências psico-emocionais dos sujeitos (tais como liderança, motivação, capacidade de superação, desenvolvimento de esforço em contexto de frustração, confiança, entre outras), com o intuito de elevar o seu desempenho (em contexto desportivo, académico, artístico ou empresarial), qualidade de vida e bem-estar.