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Maria José Farinha

Maria José Farinha

Chefe de gabinete do COP

Tóquio 2020: os Jogos Olímpicos da flexibilização

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve Maria José Farinha, chefe de gabinete do COP

Maria José Farinha

Kim Kyung Hoon

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Em 1964, os Jogos Olímpicos (JO) chegaram, pela primeira vez, à Ásia.

Tóquio recebeu os JO da XVIII Olimpíada, que tiveram início com uma homenagem às vítimas das bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki. 5151 atletas, em representação de 93 países, disputaram 163 provas no maior evento desportivo mundial, que premiou o processo de reconstrução do Japão, devastado na sequência da II Guerra Mundial.

Foram gastos três biliões de dólares e o mundo surpreendeu-se com uma extraordinária inovação, nomeadamente ao nível da cronometragem, e com infraestruturas criadas de raiz para a realização dos eventos desportivos.

Portugal participou com uma delegação composta por 20 atletas, em sete modalidades. 49 anos depois, Tóquio foi eleita a cidade que albergaria os JO de 2020.

A 7 de setembro de 2013, na 125.ª sessão do Comité Olímpico Internacional (COI), realizada em Buenos Aires, a capital nipónica ganhava a Istambul a organização dos JO da XXXII Olimpíada, os Jogos que, pela primeira vez na história, viriam a ser adiados e sujeitos a inúmeras restrições.

Uma das restrições mais impactantes é a ausência de público estrangeiro. A fim de se garantir um ambiente mais seguro para todos os participantes, não será possível viajar para o Japão para assistir aos JO, o que significa que nas bancadas não haverá adeptos, turistas, familiares de atletas, patrocinadores ou convidados vindos dos quatro cantos do mundo.

Apenas poderão deslocar-se dignitários, membros da família olímpica, membros das comitivas que desempenhem funções associadas à logística das delegações e elementos da comunicação social. No entanto, também estas pessoas terão limitações de circulação e de ação.

Por um lado, para além das regras de segurança e de distanciamento físico inerentes à transmissão da covid-19 e da testagem frequente, terão de preencher um plano de ação diário, com a indicação dos locais de competição onde irão estar e das pessoas com quem irão contactar durante o período de estadia no Japão.

Por outro lado, só poderão circular entre os locais de competição e os hotéis, não poderão usar transportes públicos, não terão acesso à Aldeia Olímpica e para assistirem às competições precisarão de marcar previamente os seus lugares, através de uma “app” disponibilizada para o efeito. Além disso, para apoiarem os atletas terão de bater palmas, pois gritar ou cantar estará fora de questão.

Estes serão, certamente, uns JO diferentes, marcados pela capacidade de flexibilização e de adaptação. Serão também uns JO onde, muito provavelmente, o habitual “change pin” não terá espaço para acontecer. Quem já esteve nestes ambientes sabe o quão frequente é ver colecionadores, mais ou menos amadores, trocar emblemas dos vários Comités. Mais do que uma paixão para muitos adeptos do desporto essas trocas são um ritual. Um ritual que ficará adiado para Paris.

Estes serão também uns JO onde o planeamento e a paciência do povo japonês serão testados ao limite. A cultura de consideração pelo outro, característica de quem vive no País do Sol Nascente, estará mais afinada do que nunca e tudo será feito para proteger quem viajar até Tóquio.

O maior evento multidesportivo mundial é também uma festa. Que esta festa, que contará com cerca de 11 000 atletas, consiga alcançar o objetivo proposto pelo Comité Organizador, de celebrar o triunfo da humanidade sobre o vírus.