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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Uma lição importante, esta que o futebol deu a meia dúzia de megalómanos egocêntricos, sem ética nem coluna vertebral

O ex-árbitro Duarte Gomes escreve sobre a tentativa falhada da Superliga e sobre os erros no futebol, utilizando o guarda-redes do Sporting, Adán, como exemplo

Duarte Gomes

Angel Martinez

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Mais uma semana cheia de emoções fortes, no que diz respeito ao futebol e a tudo o que o rodeia.

A notícia maior, pelo menos para mim, foi a confirmação da presença de uma equipa de arbitragem portuguesa no Campeonato da Europa e nos Jogos Olímpicos.

Há algum tempo que os nossos árbitros não marcavam presença em grandes torneios internacionais, razão pela qual este momento tem importância acrescida.

Sei que a memória seletiva do adepto comum não lhe permite entender na plenitude o que isto significa, mas posso garantir que é um feito especial. Há-que ter a humildade de o reconhecer, dando mérito a quem tem. A mão que aponta o erro deve ser a mesma que, na altura certa, tem a dignidade de aplaudir e elogiar. Artur Soares Dias e seus pares merecem, neste momento, todos os nossos aplausos e elogios.

Esperemos que árbitro, árbitros assistentes e videoárbitros agora nomeados desfrutem responsavelmente desse privilégio, honrando a sua camisola. Não estarão apenas a representar o sector, estarão também a representar o país e cada um de nós.

- A bombástica "Superliga Europeia" foi, afinal, o super-flop do século. O que despertou sob a forma de tsunami violento, sucumbiu horas depois como onda inofensiva em mar morto.

Uma lição importante, esta que o futebol deu a meia dúzia de megalómanos egocêntricos, sem ética nem coluna vertebral. Nunca se tratou, como tentaram vender, sobre o que era melhor para o jogo ou para os adeptos. Foi sempre sobre o que era melhor para eles e para os seus bolsos. Para a sua ganância desmedida. Desta vez, perderam. Da próxima, quem sabe...

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- Adán (que considero um dos melhores guarda-redes da nossa liga) teve momento menos feliz diante do Belenenses SAD. Foi o chamado "erro com influência" que, em boa verdade, acontece a qualquer um. Acontece a árbitros, jogadores e até treinadores. Acontece aos melhores (como foi literalmente o caso).

A lição aqui não é nova mas deve ser repetida as vezes que forem necessárias: ninguém falha de propósito. Ninguém erra deliberadamente. Estes lances acontecem a quem, sob pressão intensa, tem que tomar decisões em frações de segundo.

O problema é que muitos dos que agora aceitam aquele lapso como natural (foi lapso e foi natural sim), são os mesmos que dizem que, quando cometidos pelos árbitros, já não são naturais nem aceitáveis: são estratégicos, ostensivos ou premeditados. Por aí se percebe a intolerância direcionada, que resulta ou de clubite aguda ou de pura desonestidade intelectual. Na verdade, o jogo é assim mesmo. Sempre foi. Sempre será. O resto é areia para vender ao deserto.

- Há atualmente (e felizmente) muitos comentadores de arbitragem que, tal como eu, desempenham a sua função com base na sua experiência e know-how técnico. As pessoas não sabem todas as leis de jogo e precisam assiduamente de esclarecimentos, de pontos de vista bem fundamentados, de quem acrescente valor à sua interpretação.

O problema é quando uma pequena franja de ex-árbitros parece mais preocupada em comentar o trabalho dos "colegas" do que em fazer o seu próprio trabalho. É como se também fossem comentadores de comentadores. Não faz sentido, é eticamente muito feio e diz mais deles do que dos outros.

Esta nossa "profissão" é efémera e é bom que nunca nos esqueçamos disto. Não vai durar para sempre, porque nada na vida dura. E, em boa verdade, não tem assim tanta importância. Apenas a que lhe dão.

Comentar lances à posteriori é um pouco como chover no molhado: a água já caíu, não há nada a fazer. Connosco também é assim: quando opinamos, os jogos já terminaram, os golos já foram marcados e os pontos atribuídos. Nada do que dissermos ou escrevermos mudará isso.

O que nos move - e falo por mim - não é carimbar o lance em si, mas a vontade de o explicar à luz das regras e das recomendações que existem. Dessa explicação vem muitas vezes uma melhor compreensão da decisão, o que pode contribuir para um ambiente menos hostil. Nem sempre se atinge o objetivo (às vezes até se potencia o oposto), mas é nesse que devemos focar.

Quando alguns de nós (poucos, mas bem identificados) insistem em gastar a sua energia noutras variáveis, tudo isto fica subvertido.

Por muito ressabiamento pessoal que tenham, por muito que a distância social os angustie, por muita frustração profissional que sintam, há outras formas de exorcitar fantasmas. Atacar publicamente colegas de profissão não me parece que seja uma delas. Para isso, já chegam as críticas ferozes daqueles que, desiludidos, esperavam que a nossa opinião validasse a deles.

Levar com a pequenez de espírito desses ainda que vá que não vá, agora com olho gordo dos nossos, caramba...