Tribuna Expresso

Perfil

Opinião
Ana Bispo Ramires

Ana Bispo Ramires

Psicóloga de desporto e performance

Os 12 (ou infinitos) trabalhos de Rúben Amorim

A psicóloga de performance Ana Bispo Ramires escreve sobre o percurso de Rúben Amorim no Sporting e na Liga portuguesa, associando-o à cultura desportiva em Portugal

Ana Bispo Ramires

NurPhoto

Partilhar

O percurso de Ruben Amorim na Primeira Liga alimenta desde há muito as parangonas dos jornais. Dos primeiros passos dados no Sporting de Braga, onde começou a “dar os ares da sua graça”, evidenciando que não estaria a tentar “sobreviver” na liga mais competitiva em Portugal, mas sim com vontade de deixar o seu cunho e marca. Até aos dias de hoje, muitos tem sido os episódios e, em boa verdade, as “provas superadas”.

Do trajeto no Sporting de Braga, resultou a curiosidade e aposta do atual clube, o Sporting, que, reconhecendo um lote de características que poderia beneficiar o projeto desportivo do mesmo, acabou por investir num recém-chegado (treinador) à Liga profissional.

Da visibilidade à legitimidade

A entrada no “lote dos 3 grandes” clubes traz, invariavelmente, maior (não necessariamente melhor) visibilidade a quem por lá se aventura. Em boa verdade, haverá, muito possivelmente, muito poucas profissões/funções passíveis de tão intenso e dedicado escrutínio público (e consequente desgaste) – seja da parte de reconhecidos (e legítimos) especialistas, da parte de quem quer ser muito “visto” como especialista ou da massa de adeptos em geral.

De facto, esta função beneficia de um “selo de garantia” inferior a um simples “iogurte”, na medida em que as competências parecem precisar de “validação semanal”, caso contrário, passam com enorme rapidez à condição de “descartáveis” – a título de exemplo, há pouco menos de uma semana apontava-se o “descontrolo emocional” do SCP na imprensa e, há um par de horas, assinalava-se o “feito histórico” que poderá estar perto de se alcançar (ultrapassar as 29 jornadas sem perder, feito este detido por Fernando Vaz).

Uma verdadeira montanha russa.

CARLOS COSTA/Getty

Factualmente falando, o que é certo é que a legitimidade de, à data, ter alcançado 29 jornadas sem perder já não é passível de ser retirada a este profissional, por muito inflacionado que, intencionalmente ou não, possa vir a ser qualquer “desaire” que surja entretanto.

Factos são factos e a sua liderança está, em boa verdade, mais do que validada. Independentemente do escrutínio publico que lhe possa ser feito a cada jornada – por muito que o queiram transportar para um cenário similar ao de “Hércules”, precisando validar a sua competência a cada semana - e mesmo depois de ter visto a sua credibilidade questionada desde o início no que respeita à sua capacidade para conduzir uma equipa de Primeira Liga, o que assistimos semana após semana é o exercício claríssimo de uma liderança bem-sucedida.

Do desporto para a sociedade

Os “setbacks” (ou percalços) não são só inevitáveis como são, em boa verdade, desejáveis. Todo e qualquer líder sabe que são momentos, por excelência, de construção e consolidação pois, dominando as variáveis que impactam o desempenho de uma equipa (internas e externas à mesma), são oportunidades únicas de revitalização e re-energização para o que pode ser considerado uma “reta final” de um ciclo.

Um verdadeiro líder não os deseja, mas também não os teme... antes os instrumentaliza para levar a sua equipa para patamares superiores. E, possivelmente por essa razão, Amorim oportunamente terá comentado que “os adeptos precisam aprender a sofrer”... na realidade, mais concisamente, o que eles precisam mesmo é de “crescer”!

E, aqui, e quando falamos de “adeptos” podemos (e devemos) considerá-los sem cor ou emblema, pois é de facto uma necessidade que atravessa não só toda a cultura desportiva, mas mais lamentavelmente, todo o tecido da nossa sociedade.

Crescer implica saber dedicar-se por tempo prolongado, saber resistir à frustração que advém dos resultados imediatos que não desejamos (tolamente, pois transportam informação imprescindível ao salto para a consolidação de capacidade), saber tolerar a dor física e emocional e, aqui sim, massa associativa e sociedade em geral precisam aprender muito com quem, por opção e dedicação, escolheu ser o orgulho de muitos.

O desporto é e será sempre um terreno fantástico onde podemos observar e estudar a disfunção, função e excecionalidade do comportamento humano e, por essa mesma razão, antes de criticarmos quem por lá anda, mais certo seria tentar perceber o que aprender com ele e, ainda mais, nos congratularmos pela expressão de capacidade e inevitável notoriedade de mais um cidadão português.

A Psicologia da Performance encontra-se direcionada para a otimização das competências psico-emocionais dos sujeitos (tais como liderança, motivação, capacidade de superação, desenvolvimento de esforço em contexto de frustração, confiança, entre outras), com o intuito de elevar o seu desempenho (em contexto desportivo, académico, artístico ou empresarial), qualidade de vida e bem-estar.