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Opinião
Ana Bispo Ramires

Ana Bispo Ramires

Psicóloga de desporto e performance

O assédio não prescreve... e, aparentemente, a ignorância também não

A psicóloga Ana Bispo Ramires (em parceria com Assunção Neto, psicóloga clínica especialista em trauma) escreve sobre o tema do assédio sexual, que "pode levar à destruição do 'eu' em vários níveis"

Ana Bispo Ramires

JUNG YEON-JE

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Nas últimas semanas as redes sociais foram inundadas com um conjunto de comentários que em nada abonam acerca da literacia emocional e, muito francamente, diferenciação cognitiva dos portugueses que por lá se “expressam” – desta feita, a propósito de um testemunho da atriz Sofia Arruda no programa “Alta Definição” da SIC.

Em boa verdade, intelectualmente falando, este programa acabou por prestar um “serviço à comunidade”, ao dar voz ao testemunho de uma situação de potencial assédio sexual, no caso, no contexto da performance artística.

À Sofia, seguiu-se a Catarina Furtado (igualmente “agraciada” com um conjunto de comentários de natureza muito “erudita”...) e um conjunto de outras atrizes, sendo que, a última “bomba”, surgiu pelo testemunho de Leonor Poeiras acerca do seu psicanalista.

Já se esperaria um agigantar de comentários idiotas (tal como se tem vindo a confirmar) por parte de quem, em muitas fases da sua vida, foi optando por “emburrecer” em diferentes “estágios” em contextos de ódio e escárnio sediados das redes sociais, em vez de tornar o seu raciocínio mais claro e diferenciado através da educação (entenda-se: educação cognitiva e emocional, daquela que, felizmente, muitas famílias ainda teimam em passar) e, por essa razão, entendemos poder serem pertinentes alguns esclarecimentos:

O que nos diz a Ciência?

O trauma é, por definição, insuportável e intolerável (Bessel van der Kolk, 2014). Quanto mais insuportável é a dor física ou psicológica causada pelo trauma, maior é a probabilidade de dissociar.

STOP.

Dissociar? Vamos lá explicar melhor para ver se tornamos mais claro o que, de facto, uma vítima de trauma (no enquadramento deste texto, assédio) pode vivenciar...

Na fase aguda, ou seja, enquanto está a ocorrer o trauma, não sentir a dor (física ou psicológica) permite funcionar de forma automática, como por exemplo quando uma pessoa não sente a dor de uma ferida muito grande até que chegue o socorro. Quando temos um grande trauma temos uma grande dissociação – ou seja, defensivamente, para “sobreviver” à perceção de ameaça/ameaça real, distanciamo-nos do que está a acontecer-nos de forma automática – ou seja, involuntária e inconscientemente.

Esta dissociação funciona como se a pessoa não pudesse sentir as emoções no corpo, não sentir o corpo significa não sentir sofrimento - as vítimas ficam tão transtornadas que quando o trauma lhes surge no pensamento o seu cérebro tenta a todo o custo apagar essa experiência na sua cabeça, fazendo de conta que nada se passou.

“Fazendo de conta que nada se passou” – Hummmm.... será que começa a ficar um pouco mais claro, para os “especialistas” que habitam nas redes sociais, que um dos principais mecanismos de defesa do ser humano é tentar esquecer (o que faz muitas vezes com muito êxito) e, por essa mesma razão, frequentemente só recorda a situação em causa anos mais tarde? (ops... pois é, às vezes, já num prazo “legalmente” prescrito, mas com uma violência psicológica e dor impossíveis de prescrever?!)

Então e como é que o Assédio se pode transformar em Trauma?

Em boa verdade, e pelo atrás exposto, a capacidade de reconhecer e atribuir um significado a uma situação de relação laboral ou social como abusiva é muito difícil. Estas relações revestem-se de um jogo de poder por parte do abusador e de necessidade por parte da vítima.

A vergonha e medo da exposição pública (que, como pudemos constatar nos últimos dias, não é fruto de uma “imaginação fantasiosa”, mas da crua realidade do julgamento público em que muitas vítimas se veem expostas – resultando, muitas vezes, num segundo trauma) pode levar à destruição do “eu” em vários níveis (íntimo, familiar, social, laboral), conduzindo a uma “morte psicológica”, à destruição de uma parte de si, a “parte boa”. Neste contexto a dissociação surge como mecanismo de defesa para suportar o insuportável (Xella & Belo, 2015).

Mesmo quando são pessoas de sucesso profissional nunca se sentem bem consigo próprias e estão sempre em busca do caminho para sair do trauma, mesmo que isso não seja feito de forma consciente. O próprio sucesso e autoexigência estão muitas vezes relacionados com esta busca (sendo que, neste contexto, os “experts” de internet já só querem saber do tamanho do carro, da casa, ou da conta bancária, uma vez que não fazem a mínima ideia da realidade de quem quer que seja – muito frequentemente, nem da própria).

Muito tempo depois de uma experiência traumática terminar (o assédio é uma experiência particularmente intensa e muitas vezes de longa duração) ela pode ser reativada a partir do menor sinal de perigo ou de contacto com situações que lembrem o trauma. Isto pode acontecer em qualquer altura e mesmo depois de muitos anos. Por exemplo quando é necessário proteger um filho ou quando alguém vem falar de uma experiência semelhante.

Muito frequentemente as vítimas apenas ressignificam este tipo de comportamentos como “abuso” nessa altura (entenda-se, anos mais tarde, quando acedem novamente à informação podem conseguir já identificá-la como uma situação onde o abuso ocorreu).

No contexto do assédio, muitas vezes a vítima conta quando se sente apoiada, compreendida, quando precisa de defender alguém, quando já não tem nada a perder ou quando se sente resiliente o suficiente para poder aguentar o que imagina que pode acontecer após a revelação.

Ou seja, quando se sentem robustas o suficiente para testemunhar, antecipando a chorrilhada de disparates que irão ter que ouvir e processar internamente.

O que fazer? Como se podem então comportar as pessoas para, na realidade, não evidenciarem esta espécie de analfabetismo (cognitivo e emocional) digno das praças públicas da idade média?

Vamos tentar deixar algumas orientações:

1. Mais do que 30 minutos diários de redes sociais (de forma repetida), pode evidenciar alguma necessidade de “anestesia” ou dificuldade em lidar com o aborrecimento – compre uma bicicleta ou vá andar, a sua saúde mental e física agradecem (tal como a despesa pública na área da saúde, quando daqui a uns anos começar a necessitar de mais exames e cuidados médicos, fruto de uma vida sedentária... nas redes sociais);

2. Se sentir um impulso incontrolável de comentar a vida dos outros de forma depreciativa, talvez esteja com alguma dificuldade em controlar determinado tipo de impulsos como a raiva – se não se sentir curioso(a) o suficiente para ir tentar perceber porquê e resolver em si próprio esta raiva, a primeira sugestão também se aplica – faça exercício, mas de forma vigorosa;

3. Por último, e num exercício claro de proteção da sua própria imagem, antes de vociferar comentários ignorantes acerca de que tema for, procure educar-se acerca do mesmo – ou seja, menos horas a espreitar a vida dos outros e mais horas a preencher a sua, o que será fantástico!

Nota final

O Assédio não tem idade, género, raça ou religião – É, antes, um tema de DIREITOS HUMANOS que deve, por isso, ser levado a termo com uma enorme seriedade, criando canais seguros de queixa e de investigação para que a verdade possa ser apurada, no sentido de se imputar a responsabilidade a quem de direito no tempo certo.

Calar as potenciais vítimas não é a solução que se pretende numa Sociedade que se quer ver respeitada, mas destacar/valorizar e agradecer a quem contra tudo e contra todos avança como seu testemunho já o é!

O assédio existe em toda e qualquer organização (académica, desportiva, empresarial, religiosa,...) e é, por isto mesmo, da responsabilidade de todos nós dar-lhe visibilidade e solução.

O presente artigo foi redigido em articulação com Assunção Neto, Psicóloga Clínica especialista em Trauma (Psicoterapeuta EMDR – Practicioner pela Associação EMDR-Portugal e EMDR