Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Opinião

Chuva de golos molha-parvos

Bruno Vieira Amaral sobre o Benfica-Sporting: "Confundir, a esta altura do campeonato (literalmente), muitos golos com emoção e irresponsabilidade com qualidade técnica, é ignorar propositadamente o facto central de toda a narrativa: o dérbi do último sábado decorreu num relaxado ambiente pós-coital"

Bruno Vieira Amaral

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Partilhar

“Eletrizante!”; “Derby de loucos!”; “Espectacular!”; “Melhor dérbi dos últimos anos!” Isto foi o que li nos jornais. Permitam-me acrescentar: “Enfadonho!”; “Tédio!”; “Acabem com isto depressa!”; “Bocejooooooo…” Confundir, a esta altura do campeonato (literalmente), muitos golos com emoção e irresponsabilidade com qualidade técnica, é ignorar propositadamente o facto central de toda a narrativa: o dérbi do último sábado decorreu num relaxado ambiente pós-coital.

É verdade que toda a gente gosta de ganhar ao grande rival, que um Benfica-Sporting continua a ser o jogo dos jogos em Portugal, que o Benfica ainda estava na luta pelo segundo lugar, que o Sporting entrava com o objetivo de manter a invencibilidade e que os melhores marcadores de ambas as equipas estavam (e continuam) na luta pela Bota de Prata (é assim que se chama? Nos tempos antigos era.) Mas isto é discurso de quem vende o jogo, por exemplo, o canal de televisão que o transmite: “Não conta para grande coisa, mas ainda há muitos motivos de interesse.” Não havia, sejamos honestos. Os motivos de interesse eram absolutamente desinteressantes perante a realidade insofismável: o Sporting entrou na Luz como campeão.

Dirão os benfiquistas: “Pois, mas no ano do 7-1 o Benfica também foi campeão e os sportinguistas ainda falam nisso.” Falam e fazem muito bem porque o 7-1 aconteceu em dezembro, muito antes de se saber quem seria o campeão. Agora, mesmo que o Benfica tivesse ganhado pelos proverbiais 15-0, nenhum adepto guardaria o triunfo no coração. Imaginemos que, na história de Guilherme Tell, a maçã era colocada em cima da cabeça de um espantalho e não do filho do herói suíço. Muito simplesmente, não teríamos história, não teríamos drama, não teríamos emoção. O sumo da lenda não está na maçã. Está no risco.

Ao falarem sobre o dérbi naqueles termos eufóricos que referi no início, os jornalistas comportam-se como o tipo que chega ao pé de um amigo e lhe diz: “Nem imaginas a loucura que foi ontem. Varremos sete grades de cerveja… só que éramos trinta. Ah, e era cerveja sem álcool. Bem, mas foi uma loucura. Ficámos todos malucos. É que, sabes, o álcool não é tudo na vida. Há muitos motivos de interesse”, etc. Uma pessoa deve poupar os adjetivos para os jogos que contam.

Espectacular foi o dérbi do falhanço de Bryan Ruiz. Eletrizante, impróprio para cardíacos, o que quiserem. Já este jogo, apesar dos sete golos (ui, sete golos, meu Deus, equipas a jogarem para o espectáculo, um hino ao futebol, poesia em movimento, chuva de golos molha-parvos, coiso e tal), é o tipo de jogo especialmente recomendado para cardíacos. A exemplo de certas manteigas e óleos, devia trazer um daqueles autocolantes da Sociedade Portuguesa de Cardiologia: “Este jogo pode ser consumido por espectadores com graves problemas cardíacos porque não faz mal a ninguém.”

Como estava de viagem, fui acompanhando o resultado pela internet. Quando espreitei pela primeira vez já estava 3-0. Efeito? Zero. Nada. Olha que bom. Acordaram agora. O Seferovic marcou um? Ainda bem para ele. O Pizzi e o Cebolinha entendem-se às mil maravilhas? Para o que lhes havia de dar nesta altura. Um penálti assinalado a favor do Benfica? Realmente. Esta rapaziada. Enfim. Não nego a petite joie de quebrar a invencibilidade do Sporting, mas é o prazer ressentido do desmancha-prazeres que, ainda por cima, tem consciência de que o adversário já gozou o maior de todos os prazeres. Se o Estádio da Luz já foi salão de festas, desta vez foi a cama desarrumada onde o Sporting acordou, relaxado e preguiçoso, após os festejos nupciais.