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Duarte Gomes

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Ex-árbitro de futebol

E se os clubes tivessem um código deontológico? Basta que exista vontade institucional (por Duarte Gomes)

O ex-árbitro Duarte Gomes aproveita a reta final da época para dizer que está na altura de haver mais reflexão - ação concreta - no futebol português

Duarte Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Os clubes têm neste interregno oportunidade de ouro para tomarem um conjunto de medidas que vão além da defesa (legítima e compreensível) dos seus interesses.

Estou a pensar em algo tão simples (e exequível) como a criação de um código deontológico. Uma espécie de compromisso de honra que vincule ética e moralmente as sociedades desportivas naquela que deve ser a conduta a terem já a partir da próxima época.

Pode parecer irrelevante... mas não é.

Há algo que não podemos negar: esta é uma indústria muito, muito complexa. Uma indústria que envolve milhares de pessoas, de diferentes origens e nações. De diferentes cores, credos e religiões. Com diferentes egos e ambições.

Há, em cada época, muitos objetivos em jogo. Objetivos que podem determinar a sobrevivência ou falência desportiva e financeira das instituições. Os resultados, que são a meta maior, alcançam-se através de muitas variáveis, em que umas controlam-se... e outras não. E é preciso ter estofo para lidar com isso.

Há também muito dinheiro em jogo e isso acarreta risco alto. Não há estabilidade profissional, porque tudo depende de vitórias e derrotas. De sucesso e insucesso. De boas ou más épocas.

É muito com base nessa premissa que se renovam ou rescindem contratos. Que se mantêm ou despedem pessoas. Que há recandidaturas ou fim de mandatos.

Depois há o envolvimento emocional, que é excessivo e tantas vezes irracional. E ainda há a dependência relativa de muitas outras indústrias como a imprensa, a hotelaria, restauração e tantas, tantas outras.

Há, por fim, o tal amor à camisola, o brio profissional, o apelo constante do adepto, que tanto aplaude como critica, que tanto defende como insulta.

Não é fácil. Não é fácil de todo.

Mas é por ser assim, tão exigente e desafiante, que é ainda mais importante saber estar. Ser superior. Ser grande.

O tal "código deontológico" não seria mais do que o elencar de alguns princípios que vinculariam os agentes desportivos a um conjunto de práticas positivas e de valorização do jogo e de toda a indústria.

Exemplos? Tantos:

- Criticar, denunciar e exercer o direito à indignação e ao recurso hierárquico? Sim. Claro que sim. Mas de modo próprio e no local certo.

- Dizer mal do adversário, da competição, do árbitro ou do presidente rival? Não, claro que não.

- Promover direta ou indiretamente condutas desviantes, seja através de comunicações oficiais, seja através de vias oficiosas, informais ou indiretas? Não, nunca. De modo algum.

- Atacar os adversários de forma recorrente e para lá do contexto desportivo? Não. Obviamente que não.

- Contribuir, com palavras e atos, para valorizar o bom nome da competição? Sim. Sempre que possível, em todas as oportunidades.

- Abster-se de condutas e declarações desordeiras, irresponsáveis e incendiárias? Sim, obrigatoriamente.

Há, como se percebe pela amostra, um mar de ideias boas para criar compromissos sérios e honestos. Para criar coisas boas. Basta que exista vontade institucional e capacidade de cumprir com a palavra, porque palavra dada vale mais do do contrato assinados. Ou não?

Fica o repto.

Pensem nisso e surpreendam-nos.