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João Paulo Bessa

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Comissão Treinadores COP

Saúde e desporto: uma necessidade, não o objetivo

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve João Paulo Bessa, da Comissão de Treinadores do COP

João Paulo Bessa

Noam Galai

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Em resposta parlamentar pela não existência de comparticipação do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) ao Desporto, o ministro do Planeamento, Nelson de Souza, respondeu: “O Desporto enquanto elemento promotor e método de prevenção de uma melhor saúde dos portugueses tem uma abertura de financiar a actividade física e desportiva no âmbito da componente C1 da Saúde […]. As actividades desportivas, enquanto tal, formalmente e pelo tipo de apoios que elas necessitam, são sobretudo de emergência para relançar as suas actividades, não cabem no âmbito do PRR", demonstrando, pelo uso do lugar-comum da relação directa Desporto-Saúde, a habitual confusão com actividade ou exercício físicos que podem, naturalmente, envolver jogos e que representam o domínio que, devendo ser generalizado a toda a população, permite constituir a harmonia físico-mental que aumenta as resistências e até a resiliência à doença. Mas Desporto e actividades físicas não são a mesma coisa, nem têm os mesmos objectivos.

Ao contrário do que foi afirmado, o Desporto — que tem o seu domínio na esfera das Federações Desportivas enquanto Associações de Utilidade Pública Desportiva — não tem como objectivo promover a saúde, mas sim a obrigação de garantir que os seus integrantes estão sujeitos ao seu controlo — e daí, por exemplo, a existência de exames médicos de avaliação.

Garantia que deve ser uma constante. Porque o Desporto, pelas suas exigências no campo do rendimento e da superação, é para quem tem saúde. E, dentro destes que têm as condições físicas e mentais para o praticar, o Desporto — incluindo-se aqui o Desporto Adaptado — é ainda e apenas para os que o querem praticar. Não é portanto para todos: é, repito, para aqueles que o podem e querem praticar. Para todos é, isso sim porque pode ser sempre adequado ao estado de cada um, a actividade e/ou o exercício físicos que constituem, como é do conhecimento generalizado, um elemento, repito, de inegável importância no desenvolvimento da saúde física e mental da generalidade das pessoas.

Tratando-se de uma actividade que tem por objectivo o rendimento e a superação — estamos no domínio da excelência — o Desporto promove, para além do entretenimento que o seu espectáculo proporciona, um conjunto de conhecimentos que se traduzem em vantagens sociais e com aplicação ainda no tecido organizativo e empresarial. Como, por exemplo, com o desenvolvimento do espírito de equipa, reconhecendo a diferença mas evitando a divergência, com a prática da inclusão — no Desporto pouco importa a cor ou a religião — ou com o estabelecimento dos princípios meritocráticos da escolha, criando oportunidades, independentemente da sua origem, para todos os que se inserem no poder-e-querer.

São também evidentes as condições de inovação científica proporcionadas pelo Desporto, quer pelo melhor e ampliado conhecimento do corpo humano, quer pelas resultantes aplicações práticas como sejam, também, por exemplo, a evolução da alimentação e suplementos alimentares, das componentes do vestuário ou do calçado, das componentes de automóveis, motas ou bicicletas, das tecnologias de comunicação e tratamento de dados ou da abertura de novas perspectivas às engenharias e arquitecturas. Enfim, um mundo de relações e aplicações que desmistificam a ideia, errada mas muito recorrente na iliteracia vigente, de que o Desporto não passa de um entretém de fim-de-semana.

O Desporto representa à evidência um óbvio valor social e como tal deve ser apoiado financeiramente por dinheiros quer resultantes da sua actividade quer por dinheiros públicos que permitam, para mais nesta emergência pandémica, garantir — considerando que é crescente a importância no desenvolvimento do domínio económico através do cada vez maior número de empregos que fomenta e de necessidades que desenvolve — a sua continuidade na formação daqueles que substituirão os atletas de hoje, não fazendo, portanto, qualquer sentido considerar que não “cabem no âmbito” do Plano de Recuperação e Resiliência como parece ser a portuguesa visão oficial. Situação que, aliás, não corresponde ao entendimento de outros países europeus…

O Desporto não é um pária social e nós, membros activos da sua comunidade, não podemos deixar que seja tratado como tal. Seja por quem for.