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Pesadelos azuis e ressentimentos helvéticos

Bruno Vieira Amaral recorda confrontos antigos de Portugal com a Itália e com a Suíça, duas equipas que na última quarta-feira se encontraram em Roma. E diz não desejar que Portugal acabe a defrontar a Itália neste Euro2020. Já a Suíça....

Bruno Vieira Amaral

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Como benfiquista, durante anos tive pesadelos com equipas italianas. Milan, Roma, Juventus, Parma, Milan, Fiorentina é uma litania bem conhecida de quem sofreu os anos 90 a torcer pelo Benfica. Ravanelli, Sensini ou Baggio eram nomes que nos atormentavam e povoavam os nossos pesadelos, Freddy Krugers de calções e camisolas com os patrocínios dos gelados Motta ou dos iogurtes Danone. Quando calhava uma equipa italiana ao Benfica nos sorteios da UEFA, o desfecho era conhecido de antemão: viagem turística à Bella Italia e “a la maison”, como se diz em bom italiano.

Com a seleção as coisas não melhoravam. Em 1987, defrontámos duas vezes a Itália no apuramento para o Euro do ano seguinte. Resultado? Duas derrotas, uma no Estádio Nacional com um golo do nome mais belo de sempre de um jogador de futebol, Alessandro Altobelli, e a outra em Milão, esta mais pesada, três golos sem resposta da autoria de lendas como Vialli, Giannini e de um homem de outro planeta, De Agostini. Sejamos honestos: perder com esta Itália era uma honra, sobretudo quando estávamos a ressacar de Saltillo e uma das grandes figuras dessa seleção de secundários era Jorge Plácido (que fique aqui registado que Plácido era do meu bairro).

Mas o problema não eram os secundários, como se viu poucos anos depois no grupo de apuramento para o mundial de 94. Essa foi a primeira equipa em que predominavam os jogadores da chamada Geração de Ouro e era orientada pelo então respeitadíssimo Carlos Queiroz, vindo de duas vitórias consecutivas em mundiais de juniores. Apanhámos outra vez a Itália. Resultado? Mais duas derrotas no saco. Uma nas Antas por três a um (golos dos dois Baggios, Roberto e Dino, e de Casiraghi) e outra, novamente em Milão, e com Dino Baggio a marcar o único golo. Foi após essa derrota, que confirmou a nossa eliminação, que o professor Queiroz proferiu as suas imortais declarações sobre a federação portuguesa, vassouradas e porcarias.

Outra curiosidade é que em ambas as fases de qualificação, além da Itália, tivemos a companhia da Suíça (e também de Malta, já agora). E se em 87 ficámos à frente dos helvéticos, no apuramento para o mundial dos Estados Unidos, a Suíça acabou em segundo, atrás da Itália, e ocupou a vaga que julgávamos estar-nos destinada. E se perder com a Itália era um hábito, uma tradição e uma honra, já ser ultrapassado pelos suíços era um ultraje.

Portanto, ontem, ao ver o jogo entre italianos e suíços, fui transportado para esses tempos longínquos. Na altura, com ou sem razão, olhávamos para os suíços como uns toscos a quem tínhamos a obrigação não apenas de ganhar mas de humilhar, vingando assim os nossos compatriotas emigrados nesse país e que também eles eram muitas vezes desconsiderados pelos seus anfitriões (lembro aqui um cartoon publicado num jornal suíço em 1996, quando Artur Jorge orientava, com resultados pouco animadores, a seleção helvética, em que se dizia que os portugueses só davam para as obras ou para as limpezas).

Mas não só conseguimos a proeza de ficar atrás da Suíça como ainda tivemos de levar com a sobranceria daquela rapaziada, que fazia pouco dos portuguesinhos que tratavam muito bem a bolinha mas que depois não faziam malzinho a ninguém. Stéphane Chapuisat, Adrian Knup (sobretudo este) e Allain Sutter, foram nomes que decorei com a firme intenção de me vingar deles. O ressentimento estendia-se ao treinador, Roy Hodgson, que também produziu declarações do género “sim, os portugueses têm talento mas não fazem mal a uma mosca e nós vamos de certeza ao mundial”. E foram.

Hoje, quando sinto vontade de criticar a qualidade de jogo da nossa seleção, penso nestes tempos em que os suíços (os suíços, por amor de Deus!) nos olhavam de cima para baixo em questões futebolísticas e gosto que nos vejam agora, campeões da Europa e, jogando bem ou mal, com ou sem gerações de ouro, a ganhar e a ser, em qualquer ocasião, um osso duríssimo de roer. Gostava que nos cruzássemos com eles. Já com esta Itália, a jogar o que joga, dispensava reencontros. Temo que nos aplicassem um daqueles velhos corretivos. E desta vez nem sequer com a atenuante de um nome tão belo como Alessandro Altobelli.

  • Locatelli foi de mota e esta Itália é um avião
    Euro 2020

    Manuel Locatelli marcou dois dos três golos com que a Itália bateu facilmente a Suíça, num encontro em que carimbou desde já o apuramento para a fase a eliminar, além de ter mostrado que pode ir longe neste Euro. Com uma linha média a funcionar na perfeição, faltou apenas aos italianos alguma eficácia no último passe - já o são, mas quando isso sair bem, serão ainda mais temíveis