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João Rodrigues

João Rodrigues

Presidente Comissão Atletas Olímpicos

O desporto faz do mundo a nossa casa

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve João Rodrigues, velejador olímpico, participante em sete edições dos Jogos e presidente da Comissão de Atletas Olímpicos

João Rodrigues

OLIVIER MORIN/Getty

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Serei um “Diplomata de fato de treino?” - foi essa a pergunta que aflorou a minha mente quando me convidaram para moderar um painel sobre este tema, no âmbito da Conferência “Can sport diplomacy contribute to building a stronger Europe in the world?”, sob a égide da Presidência Portuguesa do Conselho da Europa.

Para nós, atletas, aquele momento foi extremamente importante e simbólico. Porquê? Basicamente, por duas razões.

Em primeiro lugar, pela pergunta em si que foi o tema desta conferência. Só o facto da pergunta ser feita, no contexto que descrevi, em que tal é discutido e debatido, é um enorme passo no sentido da consciencialização, para além da esfera do desporto em particular, da importância que o desporto pode e deve ter nas sociedades modernas.

Nós, atletas, sentimo-lo vezes sem conta durante as nossas carreiras, quando participamos em eventos à escala global, com particular ênfase nos Jogos Olímpicos, o poder que o desporto tem de mudar o mundo. Acreditamos que para melhor!

Não é só a adrenalina da competição propriamente dita. São todos aqueles milagres que só o desporto consegue proporcionar. E como nos emociona!

Em relação à segunda razão, creio que terei de desenvolver um pouco mais. Permita-me o leitor contar uma pequena história. Em 2019, a Comissão de Atletas (CA) Olímpicos do Comité Olímpico Internacional (COI), organizou o seu Fórum Anual, em Lausanne, Suíça, na sede do COI. Mas, desta feita, convidou todos as Comissões de Atletas Olímpicos de todo o mundo para estarem presentes. E patrocinou essa presença! Como o trabalho dos atletas Olímpicos que compõem as diversas CA é integralmente voluntário e sem renumeração, a CA do COI financiou as viagens e estadia dos 206 atletas lá presentes. Incluindo a minha.

No discurso de boas-vindas, o Presidente do COI, atleta Olímpico, Thomas Bach, afirmou, e passo a citar: “Vocês estão no coração do Movimento Olímpico!” Mas depois acrescentou: “Na realidade, vocês são o coração do Movimento Olímpico!”

Olhando para o painel que tive o privilégio e a honra de moderar, estas palavras não poderiam fazer mais sentido! Como oradores, fizeram parte do painel Emma Tehro, membro da Comissão de Atletas Olímpicos do COI, atleta Olímpica finlandesa e medalhada duas vezes em Hóquei sobre o gelo; Laurence Fischer, Campeã do Mundo e da Europa de Karaté e nada mais nada menos que a atual Embaixadora para o Desporto, no seio da estrutura do Ministério dos Negócios de França; Leila Marques, Vice-Presidente do Comité Paralímpico de Portugal, atleta Paralímpica e Chefe de Missão aos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020; Belone Moreira, um dos heróis da seleção nacional de Andebol, que conseguiu o feito de qualificar Portugal para os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. E, por último, mas não menos importante, Paulo Frischknecht, atleta Olímpico da natação e atual Presidente da Fundação do Desporto de Portugal. Juntos, estiveram num painel para debater, ao mais alto nível, o papel do desporto no contexto Europeu.

Mas estes formidáveis atletas não estavam ali apenas pelos seus méritos desportivos. Paralelamente, desenvolveram competências que lhes permitem participar ativamente, de uma forma clara e concisa, neste ou em qualquer outro debate. Mas, sem sombra de dúvida, também ali estavam porque compreenderam que o seu papel na sociedade não poderia esgotar-se no plano desportivo.

Ainda me lembro da primeira vez que entrei num estádio Olímpico. Foi em 1992, nos Jogos Olímpicos de Barcelona, na cerimónia de abertura. De repente, um miúdo vindo de uma minúscula ilha plantada a meio do Oceano Atlântico via-se entre milhares de atletas de todo o planeta, de diferentes culturas, com pensamentos distintos, outras religiões, línguas indecifráveis, todos diferentes, todos unidos sobre os mesmos princípios: amizade (ainda hoje, alguns dos meus melhores amigos atravessaram cinco ciclos Olímpicos competindo ao mais alto nível e, ainda assim, a nossa amizade nunca foi sequer beliscada), respeito (pelos adversários, pelos árbitros, pelos treinadores, pelo público e, acima de tudo, por si mesmos) e excelência (todos em busca de explorarem o potencial do ser humano, seja do ponto de vista físico, mental ou mesmo ético). Juntos num evento que promove a paz, a cooperação e a compreensão entre povos. Precisamente os mesmos ideais que estiveram na fundação da União Europeia!

24 anos depois, na cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio 2016, compreendi finalmente de que forma o desporto havia mudado a minha vida. Dera-me, acima de tudo, uma vida com significado. E fizera do mundo a minha casa, sem barreiras, sem preconceitos.

Isso faz de mim um “Diplomata de fato de treino”? Lamento desiludir, mas não. Creio que nunca vesti um fato de treino. No meu caso, eventualmente fará mais sentido a denominação “Diplomata de calções de banho”!