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Ana Bispo Ramires

Ana Bispo Ramires

Psicóloga de desporto e performance

Psicologia e desporto: uma narrativa possível para o Euro 2020

A psicóloga Ana Bispo Ramires fala sobre situações de trauma e de pressão que se viveram durante o Euro 2020, colocando o foco na seleção da Dinamarca e em Portugal

Ana Bispo Ramires

Friedemann Vogel / POOL/EPA

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O evento desportivo que neste momento se destaca na sociedade tem-nos oferecido duras e complexas evidências do contributo das ciências comportamentais para a elevação (ou não) do desempenho humano.

Sabemos, em boa verdade, que por vezes demasiado tarde se reconhece o lado “científico” da Psicologia, confundindo a “arte de bem falar” com a ação sustentada em princípios validados cientificamente.

Torna-se, por isso, “apetecível” destacar dois dos episódios deste evento:

Domar o indomável: quando a dor se transforma em ação

Muito já se escreveu sobre o jogo entre a Dinamarca e a Finlândia: do choque coletivo que a equipa sofreu quando viu um dos seus atletas entrar em paragem cardio-respiratória, do comportamento verdadeiramente exemplar e de uma elevação e empatia extraordinárias que a equipa evidenciou ao proteger o seu colega da insistente atenção dos media (que, mais tarde, viriam a desculpar-se deste comportamento eticamente pouco aceitável) e, com contornos de alguma bizarria, da forma como o jogo não foi interrompido, sendo pedido aos atletas que, após um interminável período de assistência (onde um dos cenários mais prováveis teria sido o falecimento do colega), se voltasse a ligar o cronometro do jogo... como se o “cronometro emocional” nada importasse (tanto, tanto caminho para ainda se percorrer na área da Saúde Mental dos Atletas e da proteção dos seus direitos humanos – este seria certamente, outro artigo a ser escrito).

Os jogadores da Dinamarca e paramédicos a circundarem Christian Eriksen, durante as manobras de reanimação feitas no estádio Parken, em Copenhaga, após o jogador cair inanimado durante o Dinamarca-Finlândia

Os jogadores da Dinamarca e paramédicos a circundarem Christian Eriksen, durante as manobras de reanimação feitas no estádio Parken, em Copenhaga, após o jogador cair inanimado durante o Dinamarca-Finlândia

Lars Ronbog/Getty

De tudo isto já se falou, mas faltou dar visibilidade a uma nota importante:

Da seriedade com que a equipa médica encarou o potencial traumático deste evento e da celeridade com que convocou uma equipa de psicólogos (especialistas em trauma) que tem acompanhado a equipa desde a primeira noite do incidente, por forma a criar um contexto de segurança emocional, ajudando os atletas a dar um sentido e uma missão a um evento que tanto tem de caótico como de transformador.

De facto, as situações de potencial trauma comportam um sem número de possibilidades de transformação que, se bem orientadas, podem alavancar o comportamento das pessoas (dos atletas neste caso), para patamares que até as próprias poderiam desconhecer – claramente um caso de intervenção bem sucedida (basta olhar para o diferencial com que tem terminado os seus jogos até a data), que faz despertar alguma curiosidade para observar o percurso desta seleção.

O fardo de quem já foi e a leveza de quem quer ser

Os efeitos da pressão positiva encontram-se desde há muito documentados na investigação científica na área da Psicologia do Desporto.

Quem “ousa” sair do “anonimato” garantindo um título que lhe confere credibilidade, legitimidade e grandiosidade, cedo ou tarde tende a vivenciar os efeitos colaterais do sucesso alcançado.

De facto, quando uma equipa (ou um atleta) alcança um patamar de maior visibilidade (isto é, com reconhecimento internacional), de quem nada se esperava passasse a esperar (quase) tudo – até os estados de humor de uma nação.

Este tipo de fenómenos comporta, em muitos momentos, uma outra dimensão – quando os próprios atletas tomam como suas as expectativas que os outros depositam em si – e, aqui, tudo se começa a complicar.

O percurso da seleção portuguesa, campeã em título, pode muito bem ter sido mais um capítulo deste tipo de fenómeno - uma seleção inequivocamente diferenciada, seja pelo talento individual, seja pela consistência de equipa que, face a equipas “aparentemente” transponíveis, demasiado tarde conseguiu transformar o seu potencial em comportamentos de sucesso.

Um passado de enorme sucesso (como, por exemplo, a vitória na edição anterior do Euro e na Taça das Nações) tem o potencial de trazer consigo uma “armadilha psicológica” (e um enorme fardo...) que se pode traduzir na perceção interna de ter que validar este estatuto a cada competição (muitas vezes, a cada ação) – quem ousou se destacar, ocupa agora o lugar que todos desejam e, estes, muito frequentemente protegidos pelo fenómeno de “nada ter a provar”, frequentemente se libertam da pressão da ansiedade e se alimentam da motivação que surge na oportunidade de, num embate (jogo), poder destronar quem agora “lá mora”.

SOMOS COMPORTAMENTO

Além da estratégia, da tática, do planeamento e de tantas outras ferramentas cognitivas – somos as ações que mobilizamos e, estas, alimentam-se de emoções.

Como tão bem refere Damásio “O início de tudo foi a emoção” e enquanto negligenciarmos as áreas da ciência que a estudam (neurociências, psicologia) e não as trouxermos do “laboratório” para o quotidiano dos nossos contextos de desempenho (escola, empresas, desporto), dificilmente conseguiremos operar modificações sustentadas no tempo e no espaço.