Tribuna Expresso

Perfil

Opinião
José Gomes Pereira

José Gomes Pereira

Diretor Medicina Desportiva COP

Uns Jogos Olímpicos bem diferentes

Todas as semanas, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Desta vez é José Gomes Pereira, o diretor de medicina do Comité Olímpico de Portugal que escreve como todos os atletas internacionais e equipas de apoio serão submetidos a protocolos de testagem rigorosos, além de que "deverão permanecer em bolhas e evitar contactos com os locais e é claro que não existirão exceções"

José Gomes Pereira

Takashi Aoyama/Getty

Partilhar

Os Jogos Olímpicos constituem a competição desportiva de maior prestígio mundial. Nela participam mais de 200 países.

Os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, depois de adiados por um ano, vão mesmo em frente. Como é sabido, enfrentaram sérias complicações devido à pandemia. Tal facto não impedirá a ocorrência de uma realidade inequívoca consubstanciada no facto de, durante duas semanas, cerca de 11.000 atletas poderem exibir, em condições de segurança, a excelência atlética do planeta.

De facto, a situação pandémica no Japão não se constituiu como obstáculo intransponível. Os Jogos iniciar-se-ão no dia 23 de julho e terminarão a 8 de agosto, mesmo que a cidade esteja sob estado de emergência. O mesmo se verifica para os Jogos Paralímpicos, que decorrerão entre 24 de agosto e 5 de setembro.

Qual a situação Covid 19 no Japão?

Sabe-se que o número de casos é relativamente baixo, mas uma nova onda de infecções teve início em abril passado e algumas áreas enfrentaram fortes restrições.

O Japão só começou a vacinar as pessoas em fevereiro, relativamente tarde. Até agora, apenas cerca de 5% da população japonesa está totalmente vacinada.

Neste contexto, que medidas estão em vigor para estes Jogos Olímpicos?

Atletas internacionais e equipas de apoio serão submetidos a protocolos de testagem rigorosos, antes da partida e na chegada ao Japão, e também durante o evento. Não se vislumbra que tenham necessariamente que ficar em quarentena, mas deverão permanecer em bolhas e evitar contactos com os locais e é claro que não existirão exceções para os atletas e equipas de apoio. Algumas destas decisões poderão ser alvo de reconsideração.

Apesar da vacinação não ser obrigatória, o Comité Olímpico Internacional (COI) espera que cerca de 80% dos participantes sejam portadores da vacinação concluída.

Uma pesquisa recente de um dos principais jornais do Japão estima que cerca de 80% da população se manifestou a favor do adiamento ou cancelamento dos Jogos Olímpicos. Esta situação também foi suportada pelas instituições representantes da comunidade médica japonesa.

No entanto, nenhum país com representatividade através de delegações numerosas se manifestou contra os Jogos, apesar de se terem emitido alguns alertas, caso dos EUA.

Será que a hipótese de cancelamento consubstanciava alguma viabilidade?

Sim, no plano meramente hipotético. De acordo com a história dos Jogos Olímpicos, só em circunstâncias limite e excecionais, como ocorreu no período das guerras mundiais, o cancelamento teve lugar. Por outro lado, sabe-se que o regime contratual entre o COI e a cidade-sede de Tóquio deixa claro que apenas o COI pode cancelar o evento.

O COI não poupou esforços no sentido de se criarem as condições para uns Jogos em segurança. Tal facto está bem patente nos conteúdos das três edições dos playbooks, já do conhecimento publico.

Serão uns Jogos Olímpicos como os outros?

Não, serão bem diferentes.

Os atletas terão condições para atingir as suas melhores prestações?

Estamos em crer que sim, desde que se consciencializem do que vão encontrar neste Jogos e saibam lidar com as condições particulares decorrentes dos procedimentos a adoptar.

Serão espetaculares?

Seguramente menos do que outras edições anteriores.

O verdadeiro atleta é aquele que vence as adversidades e vale o que a situação exige. Este Jogos ficarão indubitavelmente na História, pelos motivos que conhecemos, mas seria desejável que o ficassem também pelo brilho que os atletas, mercê das suas prestações, lhes poderão emprestar.