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Mauro Xavier

Mauro Xavier

Diretor-Geral – Microsoft Europa Ocidental e sócio 25.768 do Benfica

Manual de instruções para uma transição

Que não fiquem dúvidas: esta direção do Benfica não pode por um momento pensar que lhe basta o formalismo legal para se legitimar. Não pode esconder-se atrás dela, escreve Mauro Xavier, diretor-geral – Microsoft Europa Ocidental e sócio 25.768 do Benfica. Ser líder não é uma herança que se recebe; é um direito que se conquista quando se ganha

Mauro Xavier

MIGUEL A. LOPES/LUSA

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E onde havia fumo surgiu, enfim, o fogo.

Durante demasiado tempo, ouvimos insinuações e suspeitas em torno de Luís Filipe Vieira; agora, temos factos e acusações – e se de insinuações fomos educados a não falar, aos factos não podemos fechar os olhos. A justiça fará o seu caminho e Vieira procurará provar a sua inocência como melhor entender, mas, independentemente disso, não mais poderá voltar a ser Presidente do Benfica. Não é compatível; não é aceitável.

Agora, ao abrigo dos estatutos e com total legitimidade e naturalidade, a direção do Benfica continua em funções e o seu vice-Presidente ascende a Presidente, mas se o Rui Costa e esta direção querem verdadeiramente o melhor para o Benfica, há um conjunto de ações que têm absolutamente de fazer nesta etapa de transição:

1. Convocar eleições num prazo máximo de seis meses. O Benfica tem de estar unido; neste momento, não está unido e nunca estará sem eleições que sufraguem um novo programa.

2. Preparar a próxima época e mantê-la totalmente estanque, impermeável à menor hipótese de contaminação pela situação diretiva do clube. Isto significa: criar condições para entrar no campeonato a liderar, garantir o acesso à Liga dos Campeões, colocar as modalidades na esteira do regresso ao êxito e concluir, com sucesso, o empréstimo obrigacionista, já que dele depende a estabilidade financeira do Benfica. Há muito trabalho a fazer neste defeso e início de temporada e é por isso que não se pode (ou não deve) querer convocar mais cedo eleições e, com elas, correr o mais que provável risco de paralisar tudo o que de urgente há a fazer.

3. Solicitar uma auditoria externa para que todos nós, família benfiquista, percebamos onde falhou a instituição Benfica, se é que houve alguma falha na instituição Benfica. E convidar a integrar a comissão que dirija esta auditoria os candidatos às últimas eleições, isto é: Rui Gomes da Silva e Noronha Lopes.

4. Apresentar um regulamento eleitoral no prazo máximo de 90 dias. O Benfica não o tem e não pode continuar a não o ter. Assim que termine a preparação da época desportiva, esta terá de ser a primeira prioridade de Rui Costa.

5. Assumir o compromisso – não só esta direção, mas quem quer se que se candidate às próximas eleições – de fazer obrigatoriamente uma revisão dos estatutos do clube nos 100 primeiros dias de mandato.

Uns já vão aos telejornais da noite aproveitar a detenção de Vieira para atacar Rui Costa e lançarem-se em campanha eleitoral. E pior: para criticar a equipa técnica, sem pensar que podem ter de vir a conviver com ela e sem que lhes preocupe, por um momento, se estão a desestabilizar a equipa e a divorciar dela os adeptos numa fase tão embrionária da época.

Outros vão-se deixar ficar na cínica posição de quem espera para ver no que isto vai dar e logo decidir o que fazer.

Da minha parte, quero deixar bem claro o meu apoio a Rui Costa. O Rui foi e é uma enorme figura do clube, mas nunca teve pela frente um desafio com a responsabilidade daquele que agora se lhe coloca. Torço por ele agora como torcia quando perfumava os relvados com a magia dos seus passes e a inteligência da sua visão de jogo. Quem me dera, quem nos dera, que ele seja também um 10 da liderança.

Porém, mais do que o Rui isoladamente, defendo uma solução conjunta com José Eduardo Moniz. A arte e a ciência; o homem do futebol e o gestor. São estes os vetores estruturantes para uma transição que coloque depressa o Benfica, de novo, no caminho do sucesso.

Mas que não fiquem dúvidas: esta direção não pode por um momento pensar que lhe basta o formalismo legal para se legitimar. Não pode esconder-se atrás dela. Rui Costa está onde deve estar como número 2 de um bilhete eleitoral votado há menos de um ano, mas tem de convocar eleições assim que esta temporada esteja preparada e lançada.

Ser líder não é uma herança que se recebe; é um direito que se conquista quando se ganha. E estou certo de que ninguém sabe disso melhor do que um campeão português, italiano, europeu e mundial.

Vamos, Rui. O povo benfiquista está de novo todo aos teus ombros.