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Opinião
Cláudia Minderico

Cláudia Minderico

Nutricionista do Comité Olímpico de Portugal

Nos Jogos Olímpicos, comer também é um prazer

Cláudia Minderico, responsável pela nutrição da direção de medicina do Comité Olímpico de Portugal, escreve sobre a logística que envolve a as cerca de 60.000 refeições que serão servidas, por dia, na Aldeia Olímpica e a alimentação dos atletas que vão estar nos Jogos de Tóquio, cada um com um plano energético individual

Cláudia Minderico

Bloomberg

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Durante os Jogos Olímpicos são servidas na Aldeia Olímpica cerca de 60.000 refeições por dia. Não há serviço de refeições nas diversas instalações onde os atletas ficam alojados, na Aldeia Olímpica apenas existe uma única zona de restauração.

A maioria das refeições servidas são referidas habitualmente como “internacionais”, mas o número de refeições vegetarianas e sem glúten (com espaços próprios de oferta no espaço da restauração) tem vindo a aumentar nas últimas edições dos Jogos Olímpicos.

Na Aldeia Olímpica existe o Food Hall, o local de restauração para refeições quentes, onde os atletas se podem sentar para comer, e o Grab & Go, um espaço de refeições prontas para levar.

A alimentação nos Jogos Olímpicos envolve uma logística de apresentação e confeção de alimentos que é uma operação muito complexa, uma vez que tem por missão oferecer alimentos provenientes de todo o mundo, de forma a satisfazer as diferentes necessidades dos atletas oriundos dos vários continentes, e fornecer uma resposta adequada à necessária disponibilização de alimentos que fazem parte da dieta alimentar com a qual os atletas estão familiarizados.

É através deste ecletismo dos hábitos alimentares de cada um dos eleitos que ganharam a pulso o seu lugar de direito nos mais importantes Jogos da Humanidade que a organização consegue nutrir o seu entusiasmo para participarem nos Jogos com os quais sonharam, e para os quais se prepararam durante quatro ou mais anos, tentando reduzir o natural nervosismo por representarem o seu país na(s) prova(s) para que foram apurados, ou pelo treino anterior à competição e durante a competição propriamente dita.

Cada atleta dispõe de um plano energético individual adequado à sua modalidade, e a cada um dos momentos em causa e, por isso, a alimentação pode ser tão diferente, principalmente nas modalidades com categorias de peso. A alimentação tem um impacto tremendo nos sensores do prazer (visualização, aroma, sabor, textura…), no humor e boa disposição (produção de neurotransmissores), na qualidade do sono (latência de sono e quantidade do mesmo), e na segurança das rotinas alimentares, que proporcionam o rendimento máximo, e que mantém os atletas no pico da forma desejada.

Todavia, a Aldeia Olímpica é também um espaço de descontração, convívio e socialização como devem ser todos os momentos inerentes à alimentação, ao estar à mesa… A concentração/o treino mental fazem-se no quarto e no local da prova em momentos intimistas, em que não existe nada mais, exceto o momento da competição.

Por questões óbvias, estes Jogos serão muito diferentes no que se refere ao convívio e às deslocações, que decorrerão com regras de segurança muito estritas. Mas no espaço da restauração, as refeições nunca deixarão de ser um momento de convívio entre os atletas, de descontração para os que se encontrem em simultâneo nesta área, pois a alimentação é e sempre será um ato social e de prazer.

E é este prazer do convívio à mesa, este hedonismo da alimentação, que nos leva ao sábio Confúcio:

“todos os homens se nutrem, mas poucos sabem distinguir os sabores”