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Opinião
Ana Bispo Ramires

Ana Bispo Ramires

Psicóloga de desporto e performance

Fibra Olímpica: Fatores discriminantes de sucesso

O “lado sombra” da vida dos atletas muito frequentemente não se encontra acessível ao domínio público, mas de forma determinante condiciona o desempenho desportivo dos atletas

Ana Bispo Ramires

Patrick B. Kraemer/EPA

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A simples participação num evento olímpico deveria ser, por si só, (e verdadeiramente) um fator de discriminação positiva face às competências postas em prática nos anos que antecederam à qualificação para um evento desta envergadura.

De facto, aqui encontram-se os “os melhores dos melhores” ou, em boa verdade, aqueles que de forma mais consistente conseguiram traduzir o seu potencial em ações e comportamentos concretos, não só em momentos competitivos, mas também em todo o lado invisível que sabemos que acentua a possibilidade de performances de elevado nível.

O treino invisível

Este tipo de “lado sombra” da vida dos atletas, muito frequentemente não se encontra acessível ao domínio público, mas de forma determinante condiciona o desempenho desportivo dos atletas.

Curiosamente, não diz respeito diretamente a fatores relacionados com o processo desportivo, mas diz-nos a literatura que condiciona e muito a possibilidade de uma prestação desportiva de excelência.

Neste âmbito, emergem um conjunto de “competências de vida” que ajudam o atleta a organizar todo um quotidiano que deve servir, em primeira instância, as necessidades que o processo desportivo exige.

Planeamento, organização, capacidade de projetar uma carreira a curto/médio/longo/prazo, capacidade de trabalhar em equipa (mesmo nas modalidades ditas “individuais” que de “individual” tem só o nome e a forma de competir, uma vez que também aqui é extraordinariamente importante a capacidade de trabalhar em equipa com treinadores, colegas, equipas médicas e todo o staff de apoio à modalidade), de compromisso e, não menos importante, de estabelecer um correto equilíbrio entre as áreas de vida desportiva Vs. não desportiva (família, amigos, escola,...), são competências verdadeiramente discriminantes e que, lamentavelmente, ainda não temos por habito introduzir no processo de psico-educação dos nossos atletas (uns têm, outros “vão tendo”, e outros nem sabem do que se trata por nunca terem sido expostos a este tipo de aprendizagem – aliás, nem eles, nem ninguém... pelo menos, sob a forma de uma aprendizagem sistematizada e planeada).

De entre tantas que poderiam ser destacadas, a disciplina e/ou determinação são inequivocamente indispensáveis à criação de um estilo de vida (articulação entre diferentes áreas, higiene de sono e planeamento alimentar, por exemplo) verdadeiramente motor de uma qualidade de Saúde (física e mental) e desempenho ao nível da excelência.

Sean M. Haffey/Getty

Olímpic@s

Num recente estudo referente aos atletas britânicos medalhados no Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016 (Hardy et al, 2017*), algumas características distintivas foram encontradas neste tipo de população, tais como:

• a experiência de um evento de vida (estrutural) negativo associado a um evento de vida muito positivo relacionado com o desporto;

• a experiência de um ponto de viragem na carreira que reforçou a motivação e o foco para o seu desporto;

• a necessidade de sucesso;

• obsessividade e/ou perfeccionismo no que diz respeito ao treino e desempenho;

• um certo egoísmo na prossecução dos seus objetivos desportivos;

• duplo enfoque tanto na mestria como no resultado;

• o uso de atitudes contrafóbicas e/ou preparação total (por vezes, excessiva) para manter níveis mais elevados de desempenho sob pressão; e

• a importância do desporto sobre outros aspetos da vida.

Contudo, características desta natureza, apesar de potenciarem a possibilidade de sucesso desportivo, revelam também estar iminentemente associadas à possibilidade de instalação de quadros de ausência de saúde mental, muito em particular se, a este cocktail juntarmos determinados fatores de risco, como sejam:

• o foco exclusivo no resultado

• o assumir das expectativas dos outros como se fossem as suas (ex: querer ser campeão)

• a existência de crenças e valores conscientes e/ou inconscientes

• a existência de rigidez estrutural (personalidade)

• a propensão para um perfeccionismo não saudável

• o conflito entre o estilo de vida Vs. as necessidades impostas pelo processo desportivo

De que “fibra” queremos ser?

A inevitabilidade associada ao conhecimento que possuímos hoje em dia, fruto de décadas de produção científica, no que respeita não só aos fatores discriminantes de sucesso, mas também aos fatores que potenciam os indicadores de Saúde Mental enquanto verdadeira alavanca de um sucesso que não se pretende imediatista mas a médio-longo prazo, para preservação das qualidades da Saúde dos nossos atletas, empurra-nos necessariamente para uma realidade distinta nos próximos anos.

O processo desportivo precisa, por isso, do plano micro (do individuo) ao macro (das mais altas instâncias desportivas) ser repensado (e, em boa verdade, questionado anualmente dada a velocidade com que o nosso quotidiano tem mudado) com o propósito último de desenhar processos a médio-longo prazo onde a qualidade da Saúde Mental possa ser colocada no epicentro da questão do próprio processo de excelência desportiva – afinal, se o tão desejado “estado de Flow”, sob o qual se conquistam os melhores desempenhos e as almejadas medalhas olímpicas, se carateriza pela imersão num enorme estado de ENTUSIASMO, precisamos de facto considerar o TREINO dos AFETOS POSITIVOS como uma alavanca determinante de um percurso desportivo... que se deseja Olímpico.

*Great british medalists: Psychosocial biographies of Super-Elite and Elite athletes from Olympic sports. 10.1016/bs.pbr.2017.03.004.Great british medalists: Psychosocial biographies of Super-Elite and Elite athletes from Olympic sports. 10.1016/bs.pbr.2017.03.004.