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Opinião
Ana Bispo Ramires

Ana Bispo Ramires

Psicóloga de desporto e performance

A extrema exigência emocional dos Jogos de Tóquio 2020

Todas as semanas, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Desta vez com a psicóloga Ana Bispo Ramires

Ana Bispo Ramires

Maddie Meyer/Getty

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Cerca de 1800 dias se passaram desde o último evento, mais 365 dias do que o expectável, o imaginado... e o desejável.

Os 92 atletas que se encontram a representar Portugal terão, muito possivelmente, vivenciado mais de 10 000 horas de treino, centenas de sessões de fisioterapia, dezenas de consultas das mais variadas especialidades, muitas alegrias e também frustrações (por vezes demasiadas), muitas lesões que precisaram ser recuperadas e objetivos renegociados (desportivos e pessoais – um casamento, o projeto de um filho ou um curso que se adiam).

Esta é não só a realidade individual de cada um dos atletas que representa Portugal, mas de tantos outros que acabaram por não ver os seus esforços recompensados e que, possivelmente ao dia de hoje, preparam-se já para Paris 2024 – afinal, há pouco tempo a perder, até porque o próximo ciclo terá somente 3 anos.

Conjuntura emocional

Nunca antes se terá experimentado uma conjuntura semelhante, talvez alguma proximidade com a vivida nos jogos pós-guerra, dada a extrema exigência emocional que as duas últimas épocas desportivas trouxeram.

Mas os desafios não se esgotam por aí, senão vejamos:

· Atletas que se estreiam (mais de metade) e anseiam pela sua primeira experiência olímpica, carregados de sonhos e expectativas que planeiam fazer cumprir nos próximos dias;

· Atletas que, antagonicamente, imaginaram poderem ser estes os Jogos que selariam a sua carreira e que, inesperadamente, tiveram que estender os seus esforços (a resiliência de um corpo já muito “castigado”) por mais 12 meses, relegando para segundo plano os projetos pessoais que ansiavam iniciar no Verão de 2020 (como, por exemplo, o sonho muitas vezes adiado de iniciar uma família);

· A clara noção de que a experiência vivenciada pelos seus predecessores, no que respeita ao maior festival multidisciplinar do desporto (onde nos mesmos espaços se cruzaram os melhores de todas as nações e de diferentes modalidades), agora mais se assemelha a uma espécie de “gaiola dourada”, onde todos os passos são monitorizados e a disciplina é a competência mais solicitada no cumprimento estrito de todas as recomendações especificamente criadas para o controlo do Covid 19;

· E, entre muitas outras que poderiam destacar, a incerteza de como o País (e o povo) e a organização anfitriã conseguirá, de facto, fazer com que a sensação de segurança e de acolhimento, supere (e perdure perante) o medo e receio instalados pela contínua constatação de novos casos, muito frequentemente assinalados em equipas com quem dividem o mesmo edifício residencial.

Superação e resiliência

Mas estão a ser, sem dúvida, também os Jogos que validam, acima de tudo, a (quase infinita) capacidade de superação e resiliência do ser humano.

Do plano mais micro (a vivência do próprio atleta), ao papel de treinadores, clubes, federações e do próprio Comité Olímpico de Portugal, todos (sem exceção – sendo claramente de destacar o papel das famílias de todos aqueles que integram a Missão de Portugal, enorme pilar de suporte emocional) foram “desafiados” a romper com o anteriormente estabelecido e encontrar formas de manter o propósito de representar Portugal naquele que ainda é o evento mais desejado e esperado por todos.

As barreiras e dificuldades foram avaliadas e novos planos (novas formas!) se traçaram – esta é, de resto, a “história” e desafio do desporto ao mais alto nível e, por essa mesma razão, um enorme exemplo para toda a sociedade:

“Como posso hoje, independentemente da adversidade que me rodeia, evoluir um pouco mais em relação ao dia de ontem? Onde devo colocar a minha atenção, os meus esforços e a minha ação?”

Indubitavelmente, na única coisa que controlamos, que são as nossas escolhas que se traduzem no comportamento que exibimos a cada momento – e este é o principal foco de toda a Missão:

“Como podemos, a cada momento, reinventar o nosso esforço, o nosso foco, dotando as nossas ações com uma cada vez maior força e determinação?”

Os 92 atletas que escolheram durante mais de 1800 dias (uma vida, na verdade...) representar Portugal, dedicando a sua existência a uma busca incessante de excelência (e todos aqueles que, fazendo-o, precisaram redirecionar os seus esforços para Paris 2024), merecem por isso o maior destaque e respeito de uma nação que, independentemente dos resultados que alcançarem, os deve parabenizar não só pelo esforço, mas acima de tudo pelo exemplo que transportam para o quotidiano de todos os portugueses.