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Opinião

Portugal, Andebol, Oriente - Os heróis dos mares

Todas as semanas, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Desta vez é com o antigo internacional de andebol Ricardo Andorinho

Ricardo Andorinho

Dean Mouhtaropoulos

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Em 1997 tive a honra e o prazer de viajar até ao Japão onde se realizou o 15.º Campeonato do Mundo de Andebol. A primeira vez, nesta grande competição de seniores, marca o atleta para toda a vida e a intensidade com que todos os momentos são vividos mostram-me, com o passar dos anos, que nem sempre o ato de levantar os troféus é o momento mais marcante da nossa história.

Que sorte, e que sorte, termos tido uma tremenda influência internacional na nossa escola de andebol. Podemos hoje falar de uma escola de andebol em Portugal, mas nem sempre foi assim. Os portugueses que se iniciaram nestes mares do andebol passaram por águas bem complexas e agitadas. Soubemos aprender com os grandes mestres do andebol internacional, abrimos o país à escola soviética, jugoslava, nórdica e espanhola, e soubemos implementar no tempo essas influências tão ricas que fazem do jogo de Portugal atual uma sinfonia de géneros musicais adaptáveis a todos os gostos.

A evolução do andebol em Portugal continua a ser muito rápida, incrementando a qualidade de um conjunto pequeno de jogadores que se tem mantido competitivo a um nível internacional de excelência. A liderança que faltou a Portugal durante alguns anos foi recuperada através dos treinadores portugueses, que também eles são pioneiros na aprendizagem deste desporto tão viciante, rápido e generoso, apesar do contacto físico característico.

Nos meus anos de atleta, tive a sorte, desde cedo, de jogar com os melhores portugueses. Foi Aleksander Donner que convocou alguns atletas mais jovens para esse tal mundial do Japão, e que assumiu deixar de fora da convocatória um dos melhores pontas esquerdos nacionais, o Álvaro Martins, que por acaso até jogava no ABC, equipa onde Donner era treinador. A oportunidade de jogar um Mundial aos 20 anos, ao lado dos meus ídolos de jovem, era uma satisfação sem igual. Portugal não tinha qualquer experiência neste tipo de competições.

No Mundial estavam as melhores 24 seleções do mundo. O facto de jogarmos o Mundial no Japão agitou de certa forma a organização da comitiva e as melhores práticas para viajarmos e competirmos. Tivemos uma enorme ajuda do professor José Cruz, da Universidade do Minho, na parte psicológica e na responsabilidade que sentíamos em representar o país ao mais alto nível. Ficámos em 19.º, mas aprendemos coletivamente a participar, e os anos que se seguiram mantiveram as expectativas bem altas e alguns resultados interessantes, com várias participações nas fases finais dos campeonatos da Europa e Mundo.

Agora os Jogos Olímpicos. Sem ter na primeira pessoa experiência dos Jogos (não sou olímpico), habituei-me a ouvir colegas falarem desta incrível experiência. Se esses relatos nos brindarem com metade do que se ouve, então vale mesmo muito a pena sentirmos, em equipa, que se conseguiu entrar neste lote de super-humanos.

Portugal conquistou o mundo do andebol e a atenção dos melhores. A fuga dos atletas para as melhores equipas europeias, os resultados das seleções e a participação das equipas portuguesas nas competições europeias têm conseguido manter a competitividade da nossa principal equipa masculina no mundo pequeno do andebol mundial, num contexto duríssimo para todos, em que perdemos o Alfredo Quintana, embora continue a defender sem estar mais entre nós.

Luís Frade é campeão da Europa de clubes com o Barcelona, Miguel Martins ruma até ao Pick Szeged, da Hungria, André Gomes jogará no MT Melsungen, da Alemanha, mas são os principais clubes portugueses que têm tido o mérito de se manterem competitivos apesar da Covid-19, das restrições competitivas e de treino, da diminuição das competições de jovens, tão importantes para os seniores, e a difícil gestão da agenda internacional, com um conjunto crescente de competições para os melhores dos melhores.

FRANCK FIFE/Getty

Nós sonhamos alto no andebol e a nossa seleção mostrou que não pode ser de outra forma. Se temos qualidade e ambição competitiva, sonhar é o que custa menos. Seguramente que a experiência e interação com as outras modalidades mudará para sempre a perspetiva competitiva destes atletas.

O primeiro jogo frente ao Egipto deixou clara a exigência da prova (a equipa do Egipto é espetacular e tem um treinador espanhol com o qual tive a honra de jogar no campeonato espanhol). Quatro minutos de fraco rendimento, 5 golos de diferença. O jogo do Bahrein foi duríssimo e não serviu para dar consistência e ambição suficientes à equipa, numa prova onde só estão os melhores, numas condições imprevisíveis. Vários foram os atletas que manifestaram stress competitivo acima do desejável, e este stress vem de dois anos de dificuldades competitivas, na logística, na saúde, na segurança e na confiança, tão importantes para se competir ao mais alto nível.

No jogo da Suécia tivemos poucos minutos competitivos que poderiam dar para discutir o resultado. No jogo da Dinamarca fica a mesma sensação. Não conseguimos consistência defensiva em períodos grandes do jogo. O início do jogo é paradigmático com vários golos da Dinamarca, entre os 8 e os 9 metros, sem qualquer oposição. O lateral direito da Dinamarca decidiu ofensivamente o jogo e a restante equipa esteve confortável quando a oportunidade apareceu. Ficou a sensação que não seria difícil termos outro resultado, dadas as oportunidades de que dispusemos.

A final contra o Japão é paradigmática da nossa participação. Não conseguimos estruturar o poderio defensivo e o talento de que dispomos. Não me lembro de termos parado três ataques organizados consecutivos do Japão. Qualquer equipa que não seja competitiva na defesa não pode confiar na ambição ofensiva de um atleta para assumir a responsabilidade em todos os momentos do jogo. É um desporto coletivo e por isso é importante manter a competitividade dos três ou quatro melhores influenciadores.

Esta seleção passou o cabo da boa esperança e conseguiu recuperar uma competitividade há muito perdida. Sonhámos com medalhas que não conseguimos, mas já construímos o mais importante. Termos uma seleção que se qualificou pela primeira vez para os Jogos Olímpicos e uma equipa que tem construído um trajeto incrível em termos internacionais. A experiência e a tranquilidade competitivas já chegarão naturalmente para que voltemos a vibrar e a celebrar vitórias.

Desejo a toda a Equipa Portugal, em particular aos jovens da primeira vez nesta competição, as maiores felicidades e realizações. As famílias dos nossos desportistas continuam a ser o maior e melhor pilar no desenvolvimento das carreiras na alta competição. As declarações públicas dos nossos triatletas e do nosso Jorge Fonseca (medalha de bronze) esclarecem os mais desatentos. O exemplo e a motivação do presidente do Comité Olímpico de Portugal, José Manuel Constantino, serão sempre sinónimo de esperança na obtenção de resultados, preparação para a execução, solidariedade olímpica e excelência das participações da Equipa Portugal.