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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Se eu jogar à sueca e esconder os trunfos, estou a enganar os meus adversários. Duarte Gomes dá conselhos para o início do campeonato

O antigo árbitro internacional pede bom senso e inteligência emocional a jogadores, treinadores e a todos os agentes que fazem parte do jogo. E que ganhem com verdade. A liga começa esta sexta-feira com o Sporting - Vizela

Duarte Gomes

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Duas notas em destaque para a crónica de hoje. A primeira mais generalista e introspetiva:

A - Como bem sabemos, o futebol - cujo campeonato principal arranca hoje - é, antes de tudo, um jogo. Um jogo importante mas um jogo que, como todos os outros, tem regras. Regras que devem ser cumpridas.

Pensem comigo: se eu jogar à sueca e esconder os trunfos, estou a enganar os meus adversários. Posso até ganhar, mas ganharei sempre de forma leviana. De forma errada.

Com as damas, os dados, o gamão ou qualquer outro jogo, é exatamente a mesma coisa: se eu for trapaceiro, posso até vencer mas essa será sempre uma vitória suja, viciada. Mesmo que só eu saiba, mesmo que mais ninguém se aperceba.

A ideia subjacente a este raciocínio é simples: por trás de cada vitória tem que haver um princípio inerente de verdade.

Jogadores e treinadores devem ambicionar a vitória e lutar por ela, mas de forma justa e correta. Sem malandrice nem chico-espertice.
O objetivo não é enganar o árbitro. É não se enganar a si próprios.

Pensem nisso, sim?

B - A segunda nota é contributiva. Gostava de recordar jogadores e treinadores que há situações de jogo que resultam em sanções que parecem-me desnecessárias. Momentos de tensão mal geridos (ou por precipitação ou por emocionalidade a mais), que levam o árbitro a exibir cartões ou a punir infrações que, aos olhos de quem está cá fora, aparentam ser evitáveis.

Tendo isso em conta, ficam algumas dicas:

1 - Lembrem-se que, ao celebrar um golo, não podem cobrir a cara com a camisola nem despi-la, ficando de tronco nu. A "alegria" momentânea é punida com amarelo e se for o segundo, com expulsão. Prejudicam a vossa equipa e, provavelmente, a vossa continuidade no jogo. Vale a pena?

2 - Nunca saiam de uma barreira defensiva antes da execução do pontapé-livre. A advertência é quase sempre garantida e a repetição do pontapé também. Controlem o impulso, esperem até à última. Evitem o cartão.

3 - Nunca peçam, com gestos, um cartão para o adversário nem façam o sinal de TV (para que o árbitro recorra ao VAR). Se for entendido que o fazem de forma excessiva, verão o cartão amarelo. É desnecessário, prejudicial e não vai mudar nada do que o árbitro tenciona fazer. Calma e cabecinha fria.

4 - Podem falar com o árbitro, mas não discordem com aparato (demasiados gestos, pontapear a bola para longe, barafustar, discutir, etc). Esta é uma daquelas situações em que a vossa derrota é absoluta: a advertência é garantida, a decisão final não muda, serão penalizados para o resto do jogo e ficarão irritados. Para quê? Serviu de alguma coisa, para além do desabafo pontual? Inteligência emocional, sim?

5 - Aos treinadores nos bancos técnicos pede-se controlo emocional. Evitem sair (em excesso) da vossa área técnica. Evitem protestos notórios e exuberantes sobre decisões que não concordam. Não façam sinais a pedir recurso às imagens TV. Tudo isso pode resultar em cartão amarelo (ou até vermelho). Terão que sair da zona de comando, o que vos vai perturbar, vai perturbar quem fica e vai penalizar fortemente a vossa equipa. O futebol não é uma missa e as emoções são para serem libertadas. O que se apenas é mais sensatez e equilíbrio, em proveito próprio. Percebam qual é a linha do árbitro que têm pela frente e não a ultrapassem.

6 - De resto, o que se pede a todos os agentes desportivos (aos árbitros também) é o tal bom senso de quem está no centro de um espectáculo intenso e muito escrutinado.

Cada equipa de arbitragem tem a sua forma de aplicar a lei e de ler o jogo. De estar em campo. Há árbitros mais dialogantes, há outros mais interventivos. Há os mais diplomáticos e também os mais restritivos. Lá dentro, transportam aquilo que são enquanto pessoas, o que é perfeitamente normal. Acontece o mesmo com jogadores e treinadores.

Por isso, leiam bem quem têm pela frente. Sejam sempre educados e inteligentes, nem que seja estrategicamente. Usem mais a cabeça e menos o coração. Tenham bom senso.

Hoje todos os jogos da primeira liga têm VAR e qualquer lance nas costas dos árbitros pode ser visto nos ecrãs. Aliás, é mesmo visto nos ecrãs. Não facilitem. Canalizem a vossa atenção para as variáveis que dominam, para o vosso trabalho e deixem o trabalho dos outros para os outros.

Lembrem-se: ganhem bem, ganhem com verdade e terão o respeito de todos, até dos derrotados.

Boa época.