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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

As virtudes e os perigos do mundo virtual. E a responsabilidade de quem está no futebol (por Duarte Gomes)

O antigo árbitro internacional reflete sobre o peso das redes sociais na sociedade e no lado positivo que ainda assim a tecnologia permite

Duarte Gomes

Gualter Fatia

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As redes sociais estão a destruir as bases da sociedade e a programar o cérebro dos cidadãos de uma forma que elimina o discurso civil e a cooperação, fomentando a desinformação e a mentira.

Gerimos as nossas vidas em torno de um sentido percecionado de perfeição porque somos recompensados com sinais de curto prazo — likes, polegares, corações — e misturamos isso com valor, com verdade.

Na realidade tudo isso é falso. É apenas uma popularidade momentânea que nos faz aumentar a vontade de querer mais, mas que depois deixa-nos vazios. Mais vazios do que estávamos antes, o que nos leva a viver de acordo com o raciocínio:

"O que é que eu preciso fazer para voltar a sentir o mesmo?”

A afirmação foi produzida, em tempos, por Chamath Palihapityia, investidor financeiro conhecido por ter sido o mais jovem vice-presidente da AOL e um dos primeiros executivos do Facebook (hoje é CEO da Global Capital e co-proprietário dos Golden State Warriors).

Devo confessar-vos que subscrevo parte da opinião.

O aparecimento maciço das redes sociais - Facebook, Instagram, Twitter, Snapchat, Pinterest, Tumblr, Reddit, Skype, LinkedIn, WhatsApp, etc, etc - criou um processo de substituição naquela que era, até então, a essência das relações entre as pessoas: o contacto olhos nos olhos, a cumplicidade dos gestos, o apelo dos sentidos. O aperto de mão.

Agora, mesmo lado a lado, escolhemos comunicar através de gifs, emojis ou smiles. Através de sms ou calls.

Falamos menos, clicamos mais.

Não conversamos nem saboreamos o que nos rodeia, tão ocupados que estamos a gravá-lo para a posteridade. Deixamos de estar nos sítios, apenas passamos por eles. O que importa é a partilha futura do momento, não o momento em si. É como se o presente só fosse real quando recordado no futuro.

São tempos estranhos estes, que nos tocam a todos (a uns mais do que outros, obviamente). É difícil para qualquer um não ser engolido nesta trend avassaladora.

Mas esta visão mais fatalista da realidade virtual não me vai impedir de ver o lado (extremamente) positivo que esse mundo também oferece: o fortalecimento de relações à distância (entre amigos e familiares que raramente se vêem, por exemplo), a comunicação instantânea com parceiros de negócio, a realização de sonhos pessoais e profissionais, o incremento da solidariedade e até a segurança física das pessoas (a difusão de informação partilhada em momentos de crise já salvou a vida de muitos milhares).

Descontando os rumores e fofocas banais, a propaganda camuflada, a desinformação perversa e algumas tiradas maníacas de quem anda perdido em si mesmo, há no mundo virtual e social - como em quase tudo na vida - perigos e oportunidades, mentiras e verdades. Vantagens e desvantagens.

No desporto em geral e no futebol em particular - aqui alvo fácil, pela preponderância que tem e emocionalidade que levanta - esta verdade é ainda mais verdadeira.

Mas nessa área em particular, parece-me que há alguma falta de regulação em muito do que se diz e escreve. Prolifera uma sensação permanente de impunidade, que é visível pela forma como se substitui suspeição por factos, dúvidas por certezas.

A ideia que dá é que qualquer pessoa pode esconder-se atrás de um teclado e inflamar a opinião de muitos, escrevendo tudo o que quer e bem lhe apetece, sem que isso corresponda à verdade. Pelo menos, a toda a verdade.

Quando a tirada absurda vem do adepto tolinho ou do ex-qualquer coisa ressabiado, ignora-se. Uns comentam, outros riem e a coisa morre antes de nascer.

O problema é quando a cacetada forte parte de quem fabrica opinião.

Agora que a época arrancou, nunca é demais repeti-lo: todos aqueles que, por inerência das suas funções, possam impactar na forma como os outros pensam (refiro-me a estruturas, departamentos de comunicação, canais oficiais, jornalistas, comentadores, especialistas e afins), têm o dever e a responsabilidade de pensar em cada palavra que dizem, em cada letra que escrevem. É um dever sim. E é uma responsabilidade também.

Parte do clima de terror que por vezes prolifera junto de alguns agentes desportivos acontece por força do que é dito e escrito levianamente.

Se estiverem a quente, mais nervosos ou acalorados, não falem. Não escrevam. Não digam nada. Durmam sobre o assunto, façam a digestão do processo emocional e no dia seguinte, sim... digam o que têm a dizer, com a noção que o estão a fazer para milhares ou milhões de pessoas.

A liberdade de expressão é um trunfo fundamental em qualquer Estado de Direito, mas termina quando colide/interfere claramente com a dos outros.

O futebol precisa de boa comunicação, de boas mensagens e, acima de tudo, de mensagens verdadeiras, imparciais e intelectualmente honestas. A subversão ou supressão deliberada de factos e a torção da verdade não podem servir. Nunca podem servir.

Os anos anteriores foram maus no uso que foi dado, por alguns (só por alguns) às redes, onlines e afins. Tenham paciência, mas sabem que é verdade.

Vamos fazer diferente esta época.