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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Os mais e os menos da tecnologia no futebol - e como a Premier League está a flexibilizar leis supostamente universais (por Duarte Gomes)

O antigo árbitro internacional fala do lado menos positivo da linha tecnológica do fora de jogo e da videoarbitragem e de como em Inglaterra já há uma interpretação diferente das situações de offside e de faltas na área, mais flexível em relação à lei

Duarte Gomes

IAN KINGTON

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O futebol é o desporto mais popular do planeta e há vários fatores que o justificam. Um deles é a evolução galopante da tecnologia nos últimos anos.

É preciso que nos lembremos todos de como era o jogo antes para chegarmos a esta conclusão.

Há não muito tempo (na geração dos nossos pais e avós), o interior das bolas eram preenchidos com bexiga de boi e o exterior cosido à mão. Ficavam pesadas e irregulares. As botas tinham pontas de metal e pregos de sustentação. Eram um pesadelo nos pés dos jogadores e uma ameaça real para as rótulas e tendões dos adversários. O terreno de jogo, os balneários e as bancadas eram qualquer coisa de mau, muito mau.

Hoje nada é assim e isso deve-se aos novos tempos.

Os relvados são tratados com fertilizantes agrícolas e herbicidas (para serem verdes, firmes e uniformes), as redes são feitas com fio de nylon e as bolas são mais leves e duradouras graças, por exemplo, ao seu revestimento de poliuretano e ao poliestireno.

Nada é como era.

Atualmente as equipas técnicas preparam e executam os seus treinos (e jogos) com recurso a ferramentas de ponta, que lhes garantem melhores resultados a todos os níveis. Os jogadores são monitorizados com aparelhos de medição e usam equipamentos de última geração. E os árbitros têm bandeirolas com sinal-bip, auriculares para comunicarem, relógios que indicam se a bola entrou na baliza e um VAR que os ajuda a tomar melhores decisões.

É outro mundo, que tem contribuído muito (muito mesmo) para a melhoria substancial do jogo - hoje mais rápido e dinâmico - e para uma assombrosa evolução de todos os seus intervenientes.

Mas não há bela sem senão. Veja-se, por exemplo, a linha tecnológica do fora de jogo ou a vídeoarbitragem.

Alex Grimm

De cada vez que um golo é validado (ou anulado) por 2 ou 3 cms, paira no ar a eterna dúvida:

- "Será que a linha estava bem calibrada? Será que o VAR fez o que lhe competia? Será justo punir um jogador por calçar um número acima do adversário?".

Justo, justo não será e infalível, infalível também não... mas estes são os danos colaterais do recurso a estes instrumentos.

A partir do momento em que o "futebol" propôs, aceitou e introduziu a tecnologia como meio de apoio à decisão, seria expectável que algumas situações pudessem funcionar de forma "perversa", tal o rigor que introduziram no jogo. Um rigor matemático, milimétrico e quase doentio, que destrói por completo a essência de um desporto dinâmico, disputado por homens, a velocidade estonteante.

O problema, neste caso, nem é a máquina.

É a regra em si. Se um jogador jogar a bola, estando adiantado 1 ou 2 centímetros... ele está fora de jogo por 1 ou 2 centímetros. Goste-se ou não. A lei é clara e, neste caso, muito objetiva.

Outro exemplo em que a tecnologia pode ferir a verdade desportiva é o que se refere ao escrutínio de alguns lances nas áreas.

Muitas vezes, as imagens televisivas mostram contactos que parecem mesmo empurrões ou agarrões... mas não são. São apenas uma ilusão de infração. Uma realidade percecionada, que é diferente da real. Por vezes, surge o oposto: a ação parece legal, mas se calhar não foi.

Por força desta análise mais laboratorial e técnica que fazemos dos lances (e já todos caímos nesse erro), marcaram-se muito mais foras de jogo e penáltis desde que a vídeoarbitragem está ao serviço do futebol.

É factual e está comprovado.

É como é. Há momentos em que as imagens retratam fielmente o que aconteceu e há outros em que ficam aquém (ou além) do que realmente se passou.

A tecnologia só não ajuda quando desajuda.

Talvez seja por finalmente ter percebido isso que a Premier League (sempre muito à frente no que diz respeito a "flexibilizar" leis supostamente universais) decidiu que a interpretação de "offsides" e faltas nas áreas passaram a ser diferentes esta época:

- De cada vez que as linhas que determinam um fora de jogo (são duas, como sabem) coincidam ou se sobreponham ligeiramente... é para deixar seguir. Não há punição para o avançado.

- De cada vez que um contacto defesa/avançado (na área) não seja claro ou promova a ideia de que o atacante facilitou na queda... é para deixar seguir. Não há penálti.

A primeira "mata" qualquer fora de jogo real até 5cms. Até a linha utilizada engrossou para evitar narizes compridos ou unhas por cortar; a segunda fará com que os defesas arrisquem mais na abordagem e os avançados simulem menos, porque o árbitro só apontará para a marca dos 11m se a falta for por demais evidente.

Por lá já perceberam os prós e contras da nova ferramenta. E nós estamos a chegar lá também.

Tudo isto é relativamente novo e tem que passar por este processo, em que a prática ensina e a experiência torna-se boa conselheira.

Levará o tempo a crescer, mas quando estiver bem oleada, o futebol será um lugar ainda melhor.