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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Duarte Gomes dá os parabéns a Dona Dolores, pede mais uma estátua para Ronaldo e analisa os (muitos) lances duvidosos do Portugal - Irlanda

O antigo árbitro internacional também ficou impressionado com mais uma noite de glória de Cristiano Ronaldo, mas não tanto com a arbitragem de Matej Jug no encontro entre a seleção nacional e a República da Irlanda

Duarte Gomes

Stephen McCarthy/Getty

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Cristiano Ronaldo voltou a mostrar porque razão é o maior finalizador da atualidade.

Provavelmente o maior da história do futebol (considerem, para esse efeito, a excelência das ligas onde já atuou, a qualidade dos adversários que defrontou e a eficácia que mantém ao longo dos anos).

O craque português mantém-se imperturbável na forma como resolve. Como resolve tudo, em qualquer circunstância, de qualquer lado e de qualquer maneira.

E resolve mais e melhor quando a coisa está preta. Quando a equipa, os colegas e todos nós precisamos mais dele. Resolve até quando o cronómetro não ajuda e a crença começa a desvanecer.

Claro que a idade é outra e são muitas épocas consecutivas de alta competição, treinos, viagens, jogos e, sobre si e os seus, um mediatismo quase patológico, mas caramba... nem assim vacila.

Nem assim deixa ser monstruosamente letal.

Nem assim deixa de surpreender. Geralmente, fa-lo melhor quando começamos a desconfiar que não voltará a ser o mesmo. Mas é.

Esconde-se aqui, assusta ali, mostra-se acolá... e depois aparece.

É um orgulho poder desfrutar desta maravilha humana, acreditem. Como madeirense (permitam-me a vaidade provinciana) a honra é maior. Somos tão poucos na representação nacional e, mesmo assim, tivemos a capacidade de fabricar, naquele cantinho à beira-mar plantado, o melhor dos melhores.

Parabéns, Dona Dolores. Parabéns, Madeira. Parabéns, Portugal.

No jogo de quarta-feira as coisas andaram tremidas. Mas quando a estirpe agoirenta de alguns já anunciava o apocalipse, a coisa resolveu-se à cabeçada (ou melhor, às cabeçadas)*.

*Fui só eu que reparei que, no segundo golo, ele parou no ar à espera da redondinha?

Dizia, o jogo foi mesmo tramado.

Os irlandeses fizeram o partidaço das suas vidas, com muita capacidade de sofrimento, atrevimento qb, crença, sorte e, claro, um "bocadinho" de tempo perdido.

Lutaram com as armas que tinham e que não tinham, tal como David lutou contra Golias. Tal como qualquer clube pequeno lutaria com um rival de peso.

Fizeram muito, fizeram bem e estão de parabéns por isso.

Entretanto, não sei se repararam... mas o Portugal/Rep. Irlanda teve outra particularidade:

- Uns "200 ou 300" lances esquisitos nas áreas. Fui só eu que vi?

O pontapé de penálti assinalado sobre Bruno Fernandes... bem... digere-se, embora aquela intervenção do VAR tenha sido das coisas mais feias da época.

Stephen McCarthy/Getty

Mas houve (muito) mais:

- O endiabrado do Connolly (que cai fácil, diga-se de passagem) fez das suas e por duas vezes.

Na primeira atravessou-se à frente de João Cancelo e esperou pelo contacto. Malandro.

Mas na segunda, bem, na segunda a coisa cheirou a esturro, porque o "nosso" Palhinha pôs-se a jeito.

É certo que o remate acrobático de pé direito pressupunha desequilíbrio e queda imediata, mas aquele "encostar" do português no adversário (na verdade, pareceu abalroamento) podia ter tido leitura diferente. O árbitro esloveno achou que a queda estava iniciada e que a abordagem seria, por isso, irrelevante, mas eu lembro-me sempre do que um dia nos disse Pierluigi Collina a propósito deste tipo de lances:

- "Imagina que estás num penhasco, preparado para jogares-te. Quando inicias a queda, alguém empurra-te. Pergunta: foste tu que caíste sozinho ou, na prática, foste empurrado?".

A questão é simples: a consequência anula a ação?

Mas houve mais.

O VAR, que trabalhou muito, também andou a escrutinar possível mão na área de um jogador da Irlanda (houve mas legal) e dois possíveis penáltis que deixaram-me muitas (mas mesmo muitas) dúvidas.

Aconteceram os dois sobre André Silva, já na reta final do encontro. As imagens não ajudaram em nenhum, mas o feeling estava lá todo.

No meio de tanta peripécia e de uma arbitragem insegura, um trunfo de sonho de Portugal, com a chancela do "goat".

Estátua (mais uma) já!