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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Não haverá milagres. Os jogos arbitrados por portugueses, franceses ou somalis continuarão a ter erros, polémicas e críticas descabidas

Na sua crónica semanal, Duarte Gomes escreve sobre o programa de troca de árbitros internacionais que, este fim de semana, trará o francês Willy Delajod para apitar o Paços de Ferreira-Sp. Braga. O antigo árbitro português, contudo, lamenta que tal não vai corrigir a "parcialidade emocional e o vazio cultural daqueles que julgam" os homens do apito "cá de fora"

Duarte Gomes

Willy Delajod, árbitro francês, durante um jogo da Ligue 1

Sylvain Lefevre/Getty

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O intercâmbio de árbitros

Dezassete anos depois da ideia ter sido sugerida pela primeira vez, o programa de intercâmbio de árbitros vai mesmo concretizar-se na próxima jornada. Willy Delajod, internacional francês de 28 anos, viajará até ao norte para dirigir o FC P. Ferreira-SC Braga do próximo sábado.

No sentido inverso — algo menos mediatizado, o que não deixa de ser surpreendente — Luís Godinho e Bruno Esteves (VAR) estarão no Bordéus-Lens (domingo, às 14H).

Este é um momento pioneiro, que deve ficar registado como um marco importante na história da arbitragem portuguesa.

Apesar de vários ensaios feitos em épocas anteriores (árbitros portugueses já dirigiram dezenas de jogos de ligas estrangeiras, como a saudita, grega ou ucraniana), a verdade é que o programa de intercâmbio nunca antes tinha sido concretizado nestes moldes: com troca de árbitros direta, na mesma jornada e na sequência de acordo firmado entre federações nacionais (no caso, FPF e FFF).A resistência à mudança é normal e, muitas vezes, levanta questões relevantes que só o tempo encarrega-se de esclarecer:

— "Será que estas iniciativas desvalorizam a qualidade e competência dos nossos árbitros? Será que são um subterfúgio para poupá-los à exposição de jogos mais acalorados? Será que o mundo do futebol (de jogadores a adeptos) aceitará com agrado a mudança pontual de paradigma?"

Tendo em conta a forma como a ideia foi pensada, elaborada e explicada, estou certo que não há motivo para alarme. Pelo contrário.

O espírito subjacente a este protocolo assenta em duas ideias nobres: formação e desenvolvimento. Árbitros mais jovens ou em início de carreira internacional têm aqui a oportunidade de adquirirem mais experiência e conhecerem outras realidades competitivas.

Para eles, será mais uma nomeação internacional, mas para um jogo diferente (de uma liga doméstica), não para uma qualquer partida da UEFA.

Será, na verdade, um win-win: o jogo será a sério, terá lugar noutro contexto desportivo e cultural e sem a pressão nefasta da pré-avaliacão pública (em função de erros cometidos em jogos anteriores).

Para os clubes tudo certo também, porque o que basta apenas é que apareça um árbitro oficialmente nomeado para exercer a sua função.

Uma equipa profissional não pode nem deve perder tempo com variáveis que não controla. Que não dependem de si. A questão da barreira comunicacional também é falsa. A língua oficial do futebol é universal e o inglês é falado em todo o lado.Também o árbitro sente necessidade de falar com os jogadores (mais do que eles com ele), mas quando não o consegue pelo idioma, consegue-o através do olhar, dos gestos ou do som do apito.

Não será determinante no intercâmbio, como nunca foi em nenhuma eliminatória europeia. Tudo se ultrapassa com facilidade e sem esforço, desde que cada um dos agentes desportivos envolvidos foque nos seus direitos e deveres. Nos seus objetivos.

Quanto aos riscos de utilizar esta parceria para fins "perversos", penso que são quase nulos.

Se a ideia fosse nomear árbitros estrangeiros para jogos decisivos ou mediáticos, seria a verdade invertida dos fins que aqui se pretende alcançar. Mas não é. O que se pretende mesmo é uma troca de funções baseada em pressupostos positivos, didáticos e construtivos.

Uma troca que, ressalve-se, não faz nem fará milagres.

Os jogos arbitrados por portugueses, franceses ou somalis continuarão a ter erros, polémicas e críticas descabidas. O problema não está apenas nos humanos que têm a difícil missão de acertar em campo. Está sobretudo na parcialidade emocional e vazio cultural daqueles que os julgam cá de fora.