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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

As paragens de jogo não são nem nunca foram um problema apenas dos árbitros. São, sobretudo, um problema cultural

A busca pela sobrevivência (que é como quem diz, pelo pontinho), a simulação constante, a propensão fácil para o conflito, a demora eterna nas substituições, as lesões horríveis na cara depois de contactos físicos que aconteceram no peito ou nos braços, os recomeços de jogo feitos a passo de caracol, a provocação constantes ao adversário e a noção que a sanção, em campo, é escassa e/ou tardia, justificam muito do que de mau acontece nesta matéria, escreve Duarte Gomes

Duarte Gomes

Carlos Rodrigues/Getty

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Num dos muitos programas de interesse que podemos assistir na grelha do Canal 11, o Pedro Sousa ofereceu-nos um dado extremamente relevante para, pelo menos, pensarmos mais a sério nesta coisa das "excessivas paragens de jogo", tão criticadas na montra maior do futebol português: a primeira liga.

Este não é, diga-se, um tema novo.

Aliás, os que fazem a amabilidade de ler alguns dos artigos que aqui publico semanalmente, recordar-se-ão que há não muito tempo abordei este assunto com alguma profundidade.

Há, aparentemente, uma espécie de "regra consuetudinária" enraizada no povo (e não só), que é difícil de contrariar: de cada vez que se fala em tempo útil de jogo, pensamos logo em "árbitros, faltas e faltinhas". É automático.

Esse problema — realmente importante porque afeta sobremaneira a qualidade do espetáculo —, está associado a arbitragens demasiado defensivas de profissionais que apitam a medo, por tudo e por nada.

Parece-me importante desmontar este mito, porque a convicção — não estando totalmente errada — está bastante errada.

Os árbitros são sim uma peça importante neste xadrez..., mas serão o peão ou o rei?

De facto, um árbitro mais interventivo, menos propenso à aplicação da vantagem ou com maior sensibilidade aos contactos, pode contribuir para um jogo mais pausado. Para um jogo lento, com pouca fluidez e ritmo competitivo. Mas acreditem quando vos digo, os donos do apito estão longe de serem os únicos réus neste julgamento.

Se tivermos em conta uma investigação recente da "Portugal Football School" (FPF) sobre as causas que originam perdas de tempo no jogo, a maior é o recomeço após interrupções nos pontapés-livres. Depois aparece o processo de substituições, as pausas por lesão e respetivo transporte de jogadores, os pontapés de baliza, os lançamentos laterais e só no fim as paragens para consulta do videoárbitro.

Quer isso dizer que muito do "tempo morto" no futebol de alta competição tem uma causa tática/estratégica, que não é da exclusividade responsabilidade dos árbitros. Pelo contrário.

A tal reflexão conduzida pelo Pedro Sousa no 11 reforça essa ideia, com dados recentes muito objetivos:

Na semana passada, o jogo arbitrado pelo gaulês Willy Delajod (P. Ferreira/SC Braga) foram assinaladas 30 faltas, o que correspondeu ao recorde de infrações do francês esta época.Antes, no Lens/Lorient, tinha apitado 20 vezes e no PSG/Estrasburgo, 24.

Por outro lado, Luís Godinho — que por força do intercâmbio, dirigiu na mesma semana o Bordéus/Lens —, assinalou aí apenas 19 faltas.

Nas jornadas anteriores da Liga Portuguesa, o eborense tinha interrompido a partida 32 vezes (no Tondela/Portimonense), tantas como no Feirense/Farense e no Braga/Sporting.

Os números falam por si.

De facto, não é nem nunca foi um problema apenas dos árbitros. É, sobretudo, um problema cultural, assente na disposição tática de algumas equipas e na postura questionável de alguns jogadores.

A busca pela sobrevivência (que é como quem diz, pelo pontinho), a simulação constante, a propensão fácil para o conflito, a demora eterna nas substituições, as lesões horríveis na cara depois de contactos físicos que aconteceram no peito ou nos braços, os recomeços de jogo feitos a passo de caracol, a provocação constantes ao adversário e a noção que a sanção, em campo, é escassa e/ou tardia, justificam muito do que de mau acontece nesta matéria.

Tenham paciência, mas é verdade.

Este problema, como todos os outros na vida, resolve-se bem:

— Os árbitros têm que manter a firmeza e consistência na tentativa de intervirem o menos possível (e têm tentado, também aí os números mais recentes não mentem);

— Os jogadores têm que ser mais profissionais e menos teatrais;

— Os treinadores devem desempenhar papel positivo na passagem da escolha tática e da mensagem aos seus atletas;

— E até as leis de jogo devem evoluir no sentido de criarem regras claras que imprimam mais dinâmica ao jogo e que penalizem as condutas desviantes e as perdas de tempo ostensivas, deliberadas e desnecessárias.

Acham mesmo que haveria tanta simulação se o infrator fosse punido com cartão vermelho direto?

Esta coisa de nos escondermos eternamente na diabolização do árbitro ou na latinidade do futebol português só cola quando a estatística não desmonta outros monstros evidentes.

Está na hora de crescermos todos na direção certa.

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