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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Duarte Gomes conta-nos uma verdade lapalissiana: não há Maradonas na arbitragem

O ex-árbitro lembra que o futebol não é um jogo matematicamente mensurável. O que torna impossível objetivar todas as variáveis que acontecem nas quatro linhas. O futebol é um jogo demasiado humano. Tudo o que nele acontece - da decisão do árbitro à opção do treinador - é, acima de tudo, pessoal

Duarte Gomes

Laurence Griffiths/Getty

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Digo muitas vezes e repetirei as que forem necessárias: não há Maradonas na arbitragem.

Esta verdade lapalissiana resulta do facto do futebol não ser um jogo matematicamente mensurável.

Há nele uma forte componente humana - não se esqueçam que estão vinte e dois jogadores e quatro árbitros em campo -, o que torna impossível objetivar todas as variáveis que acontecem nas quatro linhas.

Na verdade, todos percebemos isso se nos posicionarmos à distância certa, mas essa convicção racional parece durar apenas até ao primeiro lance controverso. Até àquela decisão mais polémica, que penaliza uns ou desagrada a outros.

Aí acontece o que chamo de "efeito super-herói": o eu de cada um - compreensivo e tolerante - dá lugar a uma espécie de alter ego, onde emerge o outro eu, o indignado, ríspido e insultuoso.

"O Futebol Explicado no Relvado", livro que na quinta-feira tive o privilégio de lançar na presença de muitos amigos e de profissionais que prezo e admiro, tenta de algum modo sensibilizar as pessoas para essa realidade.

Claro que contém explicações técnicas e até conselhos práticos sobre a forma como devem ser decididas situações mais sensíveis, mas subjacente a elas está a tentativa em mostrar que no futebol há momentos que são literalmente impossíveis de carimbar.

Por muito que isso custe a aceitar, essa é que é a realidade.

Como sabemos, a indústria que hoje move o desporto que todos gostamos é enorme, envolve valores pornográficos e dá trabalho a milhões de pessoas. A verdade que produz devia ser mais factual, mais clara e objetiva. Estamos de acordo.

Julian Finney - UEFA

Mas num jogo assim, tão humano e terreno, isso não é possível. E como não é possível, a uma única forma de o manter forte e capaz é respeitá-lo, sem nunca deixar de procurar que ele seja mais transparente e verdadeiro.

O futebol pode ter árbitros competentes, jogadores de exceção, treinadores de topo e dirigentes qualificados. Se por detrás de cada um deles não estiver uma pessoa de bem, um homem íntegro ou um ser humano sério, jamais será um jogo justo.

Neste jogo, a competência técnica é fundamental, mas a dimensão humana é transcendente.

Essa dimensão é muitas vezes testada na ressaca de uma má derrota, em momentos de maior pressão ou perante a consequência tantas vezes injusta de um resultado menos conseguido. É aí que vemos de que calibre são feitos aqueles que são o rosto maior da indústria.

Um livro com explicação de regras ou de lances mais complicados nunca fará sentido se a única regra que as pessoas procuram é a da vitória a todo o custo.

Temos que caminhar aos poucos mas em passos firmes, para a construção de um ambiente mais tolerante, mais elevado e com maior respeito entre todos os que estão nesta atividade.

O que acontece em campo é estritamente desportivo e deve ser sempre avaliado e escrutinado nessa perspectiva. O que acontece cá fora é e será sempre pessoal, por muito que seja escrito ou falado no desempenho da função.

Como escrevi no início desta crónica, o futebol é um jogo demasiado humano. Tudo o que nele acontece - da decisão do árbitro à opção do treinador - é, acima de tudo, pessoal.

São as pessoas que têm que ser boas para que os profissionais sejam de exceção.

Tudo o resto... é bola.

Só bola.