Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Opinião
Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Sobre as críticas a Fernando Santos, Duarte Gomes lembra que “não pode valer ironia provinciana, ridicularização e chacina pública”

O antigo árbitro internacional diz que "a crítica, a opinião que discorda ou a análise técnica que censura a tática são importantes e inevitáveis numa democracia", mas discorda do "tom, forma e até algum do conteúdo que se tem visto, lido e ouvido" sobre o trabalho de Fernando Santos à frente da Seleção Nacional, depois de Portugal falhar o apuramento direto para o Mundial de 2022

Duarte Gomes

Matthias Hangst/Getty

Partilhar

O selecionador nacional tem 67 anos.

Como tantos que amam este mundo, dedicou toda a sua vida ao futebol.

Começou a jogar ainda miúdo e, enquanto atleta, foi campeão nacional pelo Estoril em 1975.

Depois mudou de carreira, mas sem nunca descurar a importância dos estudos. É dos poucos da sua geração que tirou um curso superior e licenciou-se.

É treinador há mais de 30 anos.

Nessa função, esteve em vários clubes portugueses, incluindo FC Porto, Sporting CP e SL Benfica. É um dos poucos treinadores nacionais que dirigiu as três equipas mais representativas do país.

A norte foi campeão, conquistando o penta para os azuis e brancos (1998/99).

Pelo meio ganhou ainda duas Taças de Portugal consecutivas (em 1999/00 e em 2000/01) e duas Supertaças Cândido Oliveira também seguidas (1999 e 2000).

Resumo: cinco títulos pelo FC Porto em três épocas de trabalho.

Viajou para a Grécia onde, no seu primeiro ano, foi vice-campeão pelo AEK (com os mesmos pontos do campeão).

Venceu depois uma Taça helénica (2001-02).

Treinou ainda dois outros grandes clubes gregos: Panathinaikos primeiro e PAOK depois. Outro feito muito raro naquelas bandas.

Mais tarde, viu a Federação Grega de Futebol reconhecer a sua capacidade, convidando-o para selecionador nacional, função que exerceu de 2010 a 2014.

Comandou a seleção da Grécia em 49 jogos. Somou apenas 6 derrotas.

Qualificou os gregos para duas grandes competições internacionais: o Euro 2012 (chegou até aos quartos de final) e o Mundial de 2014 (caíu no desempate por pontapés de penálti, nos oitavos de final).

Pelo seu valor, competência e resultados - vou repetir esta parte: pelo seu valor, competência e resultados -, foi eleito quatro vezes (4X) como o melhor treinador do campeonato grego:

- Em 2001/02, 2004/05, 2008/09 e 2009/10.

Além disso, foi considerado o "Treinador da Década" na Grécia, prémio que venceu tendo em conta o período 2000/2010.

Em 2016 e 2019, foi eleito pela IFFHS como o "Melhor Treinador de Seleções do Mundo".

E esta também me parece uma parte importante para repetir:

- Fernando Santos foi eleito por duas vezes (2X) o melhor treinador de seleções do planeta! A última dessas condecorações foi há 2 anos!

Ainda em 2016, obteve outras distinções de revelo:

- A medalha de Ouro do concelho de Arganil;

- O título de Treinador de Futebol do Ano em Portugal;

- O prémio de Melhor Treinador da Europa;

- O prémio de Melhor Treinador do Mundo, atribuído pela conceituada Global Soccer Awards;

Já em 2017, recebeu o "Globo de Ouro" como Melhor Treinador do país.

Ainda nesse ano, foi considerado pela FIFA como um dos três melhores treinadores do mundo.

De novo? A FIFA considerou-o, há quatro anos, como um dos três melhores treinadores do mundo!

Fernando Santos está no comando da seleção portuguesa desde 2014 (substituiu Paulo Bento). Em sete anos no cargo, conseguiu para Portugal o que nunca nenhum outro selecionador conseguira para o nosso país:

- Ser Campeão da Europa (em 2016) e vencer outra competição internacional (Liga das Nações da UEFA - 2019).

O valor desportivo desses feitos foi imensurável. O retorno a outros níveis - da nossa autoestima enquanto povo à vertente financeira - nem vale a pena mencionar.

Talvez por isso, foi condecorado pelo Presidente da República com a Ordem de Mérito - Grande Oficial, num tributo que visou "distinguir actos ou serviços meritórios que revelem abnegação em favor da coletividade, praticados no exercício de quaisquer funções, públicas ou privadas."

Este é, à data de hoje, o currículo deste homem.

Fernando Santos é um profissional que merece respeito.

A crítica, a opinião que discorda ou a análise técnica que censura a tática são importantes e inevitáveis numa democracia. São imprescindíveis em qualquer função mais ou menos exposta.

Mas o tom, a forma e até algum do conteúdo que se tem visto, lido e ouvido, nos últimos dias, sobre a qualidade do seu trabalho, dão vergonha alheia.

Nenhuma pessoa merece passar por isto, depois de dar tanto a um povo, a um país, a uma nação.

Tenham paciência, mas não pode valer tudo. Não pode valer ironia provinciana, ridicularização e chacina pública.

Fernando Santos já fez mais do que o suficiente para merecer, de todos nós, admiração, elegância e gratidão.

Gratidão!

Fique ou saia, ganhe ou perca, apure ou não Portugal para o mundial.

Fica a opinião desinteressada de quem não confunde direito à crítica com atentado à reputação e integridade profissional.