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Um Fórmula 1 parado no trânsito: a análise às duas quedas do FC Porto

O FC Porto é intenso, rápido e feroz, mas quando os adversários lhe retiram o espaço... fica aos soluços, como um Fórmula 1 parado no trânsito. O analista de futebol Tiago Teixeira explica o que correu mal contra Belenenses e Paços de Ferreira

Tiago Teixeira, analista de futebol

Brahimi nem queria acreditar: o FC Porto foi mesmo derrotado pelo Belenenses, no Restelo (2-0)

MANUEL DE ALMEIDA/ lusa

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As dificuldades sentidas pelo FC Porto no Restelo não aconteceram por acaso. A equipa de Sérgio Conceição já vinha dando sinais de uma maior dificuldade em desmontar a organização defensiva dos adversários, principalmente nos jogos fora do Dragão.

Se nos focarmos mais nos últimos dois jogos fora - na Mata Real frente ao Paços de Ferreira (derrota por 1-0) e em Belém frente ao Belenenses (derrota por 2-0) - conseguimos identificar um padrão no que diz respeito às dificuldades sentidas a nível ofensivo.

O contexto encontrado pelo FC Porto foi relativamente parecido: dois adversários posicionados num bloco baixo e compacto na maior parte do jogo, a defender com muitos jogadores atrás da linha da bola e perto da sua grande área, e com o objetivo de explorar as transições rápidas para criar perigo.

Em ambos os jogos, o FC Porto começou a perder ainda na primeira parte, o que fez com que os adversários nunca tivessem de alterar a estratégia com que entraram em campo - e a pressa portista o em chegar ao golo fosse maior.

Esta "urgência" em chegar ao golo, fruto da desvantagem no marcador, agravou - e de que maneira - os problemas ofensivos que o FC Porto já vinha sentindo noutros jogos, onde só após o primeiro golo é que conseguiu criar com mais facilidade, dado o maior espaço de que dispôs para atacar.

A equipa de Sérgio Conceição é agora 2ª classificada, com 70 pontos, menos um do que o Benfica e mais cinco do que o Sporting

A equipa de Sérgio Conceição é agora 2ª classificada, com 70 pontos, menos um do que o Benfica e mais cinco do que o Sporting

MANUEL DE ALMEIDA/lusa

O excessivo uso do jogo exterior e a pressa em atacar

O FC Porto é uma equipa que se sente bastante confortável em campo quando o adversário lhe permite aproveitar o espaço, quer entre linhas, quer nas costas da linha defensiva.

É que os portistas são muito fortes a explorar os movimentos de rutura dos seus avançados, seja em transição ou em ataque organizado, quando a bola entra no espaço entre linhas (veja o exemplo no vídeo abaixo).

Porto profundidade

Brahimi - principalmente ele porque é o que tem mais qualidade em condução - posiciona-se no corredor central atrás da linha média adversária, Alex Telles oferece largura (e qualidade no cruzamento) no corredor lateral esquerdo e Marega/Soares/Aboubakar, todos com muita capacidade para explorar a profundidade, ficam perto dos centrais adversários, preparados para receber a bola já nas costas desses adversários.

Quando a bola entra nesse espaço entre a linha defensiva e a linha média adversária, o FC Porto sabe perfeitamente o que fazer e, como referido, tem os executantes indicados para que o faça com qualidade e rapidez. Mas isto só acontece se houver espaço para fazê-lo, tanto entre linhas como nas costas da linha defensiva adversária.

Ora, quando o adversário joga num bloco mais recuado e compacto, ou seja, sem permitir tanto espaço entre a sua linha defensiva e a linha média (coisa que aconteceu durante quase todo o jogo nos últimos dois jogos fora do Porto), é preciso ter mais jogadores com mais qualidade em espaços curtos (daqueles mais criativos e mais evoluídos tecnicamente), porque só assim a equipa vai ser capaz de conseguir criar mais e melhores espaços para atacar.

A falta de espaço na defesa do Belenenses, sempre fechado num 5-4-1, afetou o ataque portista Foto Manuel de Almeida/Lusa

A falta de espaço na defesa do Belenenses, sempre fechado num 5-4-1, afetou o ataque portista Foto Manuel de Almeida/Lusa

Foto Manuel de Almeida/Lusa

Claro que também se marcam golos que nascem nos corredores laterais, como, por exemplo, de cruzamentos para a área, e o FC Porto até o conseguiu várias vezes este ano, porque tem muita presença em zonas de finalização e há qualidade em quem cruza.

Mas, se isso não está a resultar, há que ter a capacidade de alterar o plano de jogo (tanto a nível individual como coletivamente), de modo a que a equipa arranje outro tipo de soluções para conseguir chegar ao golo.

Mas isso foi coisa que Sérgio Conceição não conseguiu nestes últimos jogos.

O que existiu foi sempre um FC Porto com demasiada pressa em querer chegar à frente e em colocar a bola na área.

Com o melhor marcador da equipa lesionado - Marega -, o FC Porto contou com Aboubakar, mas o avançado não conseguiu marcar frente ao Belenenses Foto Manuel de Almeida/Lusa

Com o melhor marcador da equipa lesionado - Marega -, o FC Porto contou com Aboubakar, mas o avançado não conseguiu marcar frente ao Belenenses Foto Manuel de Almeida/Lusa

Foto Manuel de Almeida/Lusa

Sem ter o espaço entre linhas e nas costas da linha defensiva adversária para explorar a profundidade (se o adversário não é obrigado a mudar a estratégia fruto do resultado, este espaço raramente vai aparecer, porque o adversário fica a fechar mais perto da sua área, como aconteceu com o Belenenses) através dos movimentos de rutura dos avançados como tanto gosta, a equipa de Sérgio Conceição foi sempre demasiado previsível no último terço.

O desgaste físico

Com o decorrer da época e consequente acumulação de jogos nas pernas (e cérebros) dos jogadores - já são 28 jornadas, mais os jogos europeus, mais os jogos das seleções -, também é natural que as equipas se apresentem menos disponíveis fisicamente e isso afete o rendimento coletivo.

No entanto, o impacto sentido está relacionado com o contexto e com o tipo de futebol que se quer praticar. Isto é, se for um futebol mais vertical, menos paciente, e que dependa mais da velocidade do que da inteligência, é natural que os menores índices físicos dos jogadores afetem mais a ideia de jogo. Como é o caso da equipa do FC Porto.

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    FC Porto

    Uma coisa é certa: mesmo que vença todos os seis jogos que faltam até ao fim do campeonato, o FC Porto não fará uma segunda volta tão boa como a primeira, no múmero de pontos conquistados. Será a segunda vez que tal acontece com Sérgio Conceição, embora a amostra não seja grande coisa, porque esta será apenas a terceira temporada que cumpre na totalidade, no mesmo clube