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A feira popular de Óliver

O terceiro jogo seguido a titular do médio pequeno, passador, intenso e recuperador de bolas coincidiu com a primeira vez que o Feirense sofreu mais do que um golo, esta época. O FC Porto ganhou (2-0), igualou o Braga na liderança do campeonato e teve, por fim, o regresso do futebol de Óliver Torres

Diogo Pombo

MIGUEL RIOPA

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Havia duas coisas, em particular, que mereciam ser encaradas com algum cuidado.

A primeira era o Feirense, o pequeno clube de Santa Maria da Feira, cidade humilde nas origens onde está a humilde equipa no orçamento, nas aspirações, no estádio (tem o relvado mais pequeno da primeira liga) e nos nomes dos jogadores que tem. O Feirense, porém, mais do que um clube que vive acima das suas possibilidades, será o que, em Portugal, mais faz render as possibilidades que tem.

Chegou à oitava jornada do campeonato que, em agosto, chegou a ter hipótese de liderar, com três golos sofridos. Um de penálti, outro de bola corrida e um originado por uma bola parada fora da área. Apenas um trio de consequências. E o Barcelona (12), o Paris Saint-Germain (seis), o Borussia Dortmund (10) e a Juventus (sete), líderes de quatro das cinco unânimes melhores ligas europeias, mais batidos do que o Feirense. Apenas o Manchester City o igualava nas três bolas sofridas.

Uma impermeabilidade real, algo difícil de entender quando os números mostram que o Feirense é a quinta equipa que menos tempo de vida com a tem, no campeonato; a segunda que mais passes falha; e longe está de ser a que mais desarmes (10º) faz ou a que menos remates à sua baliza deixa os outros fazerem (9º). É preciso vê-la jogar.

Porque o Feirense tem os jogadores distribuídos ordeiramente, em campo, próximos para se compensarem, dobrarem ou resgatarem uns aos outros. Mantém duas linhas próximas, em que sempre que alguém sai na pressão, outros dois recuam, aproximam-se e previnem passes verticais, que os tirem da jogada. Fecha espaços por dentro e obrigam o adversário, neste caso o FC Porto, a ir por fora e pelo caminho mais longo para a baliza - onde doseia o esforço e escolhe ser agressivo em linhas de passe concretas, para Brahimi, Corona e Soares.

E a segunda coisa era Óliver Torres.

O médio espanhol a quem é inato o jeito para existir em função da bola, quem mais jeito tem para a passar e quem é dono de maior critério com ela. Ele era titular pela terceira vez esta época e voltava a sê-lo, no campeonato, nove meses depois, por fim posto à frente de Herrera e Sérgio Oliveira e não atrás. Estava sim atrás, no campo, a pedir a bola e a tocá-la, pô-la nos pés dos outros, pedi-la de volta para a dar a outrem, a dar ritmo à circulação e às jogadas.

Com ele o FC Porto era melhor, mais dinâmico, com mais andamento e mais rápido a trocar a bola para tentar que os atinados jogadores do Feirense, pelo tino de Nuno Manta Santos, se deslocassem na sua organização defensiva. Vistas as coisas, percebia-se o porquê de eles serem, também, a terceira equipa que mais jogadas corta, por jogo, no campeonato - pouco se desconcentram, raramente deixam espaço nas costas, têm as coberturas perto, são rápidos a reagir.

MIGUEL RIOPA

Só quando a cabeça de Felipe marca num livre batido curto para surpreender, já depois de um golo de Danilo, igualmente vindo de uma bola parada, ser anulado, é que os dragões desmontam o Feirense. Há o remate de Brahimi à barra e o de Marega, galopante na profundidade, que é desviado pelo guarda-redes Caio Secco.

E antes e durante tudo isso, havia Óliver, a impor o jogo portista e a contrariar - foi quem mais desarmes (três) conseguiu até ao intervalo - a simplicidade com que o Feirense explorava as chances que tinha. Uma bomba de Edson Farias arrancou de Casillas a parada da noite e uma acrobacia de Edinho rasou o poste da baliza.

A forma simples, prática, a necessitar de poucos passes e sucinta de ir avançando em campo do Feirense cresceria na segunda parte. Tiago Silva tinha mais jogo nos pés e bolas para lançar Edson Farias no espaço. Nem Soares, nem Marega, lhe apertavam o espaço e obrigavam Óliver ou Danilo a sair na pressão e arriscar deixar espaço para o outro cobrir. Era instável, arriscado e impossibilitador de o FC Porto ter um domínio estável do jogo.

Saiu Corona para entrar Herrera, mas a troca de mexicanos para dar um terceiro médio à equipa não estabilizou as coisas em definitivo. O Feirense tentava recuperar bolas mais à frente no campo, esticava os jogadores para ter a equipa a pressionar junto à área portista. Casillas, Felipe e Militão tinham que bater bolas mais longas, mais vezes. As jogadas fugiam aos pés de Óliver e pediam mais de Danilo, nas segundas bolas.

Apenas quando elevou o ritmo na reação a essas bolas e mais agressivo se tornou, nos últimos 10 minutos, é que o FC Porto voltou a ser perigoso. Fabricou quatro oportunidades, descomplicando, com cada par de pés a não dar mais do que três toques na bola. Marega acertou no momento em que Soares, Herrera e Adrián López falhariam para o jogo acabar com um 2-0.

Foi a primeira vez que o Feirense sofreu dois golos - e a segunda em que Óliver Torres jogou todos os minutos de uma partida de futebol esta temporada.

O espanhol, facilitador mor de jogo, simplificador do passe e da vida dos outros, acabou como o jogador (além defesas) com mais passes feitos (49), que mais tocou na bola (71) e quem mais bolas recuperou. Foram 11 e um deles originou o segundo golo do FC Porto.

É um número que reflete a intensidade e a reação à perda que, sem sabermos como Óliver é e se comporta nos treinos, pareciam ser os motivos que tanto afastaram o médio da equipa titular. Como?