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Jesús, que susto

Nunca uma equipa fora da primeira liga marcara dois golos no Estádio do Dragão e, durante muito tempo, foi preocupante. Mas o FC Porto livrou-se da lentidão e apatia na segunda parte e até superou um erro de Sérgio Oliveira para ganhar (4-2) ao Varzim na Taça da Liga, com uma jogada majestosamente dribladora de Corona pelo meio

Diogo Pombo

JOSE COELHO/LUSA

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Os ditos e badalados grandes têm uma visão muito particular da Taça da Liga e do propósito que lhes serve. A terceira taça na hierarquia das troféus cá do burgo sofre com a idade, o estatuto e a importância que não tem, sendo hábito, portanto, que carece do melhor que as equipas, com preocupações noutros sítios, guardam para esses lugares. Estando esta taça, ainda, na fase em que se agrupam equipas de primeira e segunda para forçar alguma competitividade, isto sempre mais provável.

O “isto” é vermos Sérgio Conceição a não repetir um titular do jogo anterior, a escolher muitos jogadores que pouco, muito pouco ou quase nada têm aparecido e a juntá-los com Otávio e Sérgio Oliveira, dois tipos bem habituados a constarem entre os onze melhores, ou a serem o 12º e o 13º do resvés das preferências. Até o treinador reputado de exigente e duro terá palpado a ferrugem antes de a ver.

O FC Porto que forçosamente mascarou na data de todas as máscaras e disfarces, ainda para mais em noite fria, molhada e ventosa, em vésperas de feriado, esvaziaram de ânimo um estádio vazio de gente com tanta lentidão na bola, ritmo pachorrento das jogadas e estranha ausência de risco em tentar passes que obrigassem os adversários a arriscar - um corte, uma antecipação, uma decisão de ir na pressão ou ficar na contenção.

Os centrais Chidozie e Mbemba tinham o seguro como única arma. Sérgio Oliveira pedia-lhes as bolas que não queriam arriscar, virava-se e via toda a gente longe, avessa ao jogo; Bazoer escondia-se atrás dos médios do Varzim, perto dos pouco móveis avançados; Jorge e João Pedro eram laterais que até as sombras de Alex Telles e Maxi conseguiriam acompanhar.

Os esporádicos esforços intensos de Adrián e, sobretudo, Hernâni, perdiam-se no meio e da equipa atraiçoada por estas apatias - e entre as duas linhas fechadas do Varzim, paciente a esperar pelos seus roubos de bola e curto, rápido e rasteiro a sair de lugares apertados. Estrela destruía e construía na mesma dose eficaz e a bola nunca saía chateada dos pés que a pretendiam tratar bem até chegar aos simples, constantes e técnicos de Jonathan Toro.

O estiloso hondurenho que a colocou no ângulo superior da baliza, rematando na fronteira da área, após o Varzim pressionar lá à frente, recuperar bola e estar no lado afortunado de um ou dois ressaltos. O FC Porto ganhava-lhe na posse e no tempo passado em campo contrário, mas só tinha um duplo remate (na oportunidade e na recarga) de Hernâni, até à meia hora.

José Coelho/Lusa

E, depois, mais do que a receção enganadora e técnica de Bazoer, rodopiando sobre um defesa e saindo para o lado menos natural e expectável, não teve. Mas à rotação a um toque seguiu-se um remate com o segundo, de trivela. Um golo bastante bom do holandês quando o seu jogo estava a ser tudo menos isso.

O dele e o dos restantes dragões, a quem a convivência com Conceição, no balneário, terá aproximado da versão intensa, viciada na verticalidade e a sobrepôr-se ao adversário por via do maior número de rotações por minuto com que faz as coisas. Obrigou-a, se não por palavras, pela decisões de ter Jesús Corona e Hernâni como os laterais. Com jogadores confiantes na bola, sem medo de esticarem as posições para levarem marcações e darem espaço à equipa, o FC Porto cresceu com a intensidade.

As linhas do Varzim confundiram-se umas nas outras, os poveiros espremeram-se na própria área e a produção dos dragões aumentou nos remates de Sérgio Oliveira, Otávio, André Pereira e Soares, cada um com a sua oportunidade para marcar. A correr não lograram o que a bola parada num canto gerou: um cruzamento para a cabeça do avançado brasileiro o colocar na baliza.

O desbloqueio do imbróglio parecia feito, estava-o, não fosse o bloqueio na cabeça de Sérgio Oliveira, mandatou o seu pé direito a atrasar um passe na direção de Vaná. Saiu torto e curto para Haman a alcançar, ficar com o ressalto e empatar, de novo, a partida. No final, o português teria direito a um discurso personalizado de Sérgio Conceição, logo no relvado.

Talvez porque o segundo em que o seu foco e descontração se foram obrigaram a equipa a acelerar, outra vez, forçar a urgência e arriscar tudo. Adrián precipitou-se sobre um adversário na área, driblou para a linha a picou a bola na fronteira. Voou sobre a baliza e foi desviada para a própria baliza por Payne, com Soares a chateá-lo nas costas. Depois, o embalo desorientou três jogares do Varzim a meias com as fintas engenhosas de Corona. O mexicano enganou todos com sucessivos pentes sobre a bola até cruzar para André Pereira fechar o 4-2.

O FC Porto acabou a controlar a bola como quem se diverte, já com Óliver a mandar num estilo em que mais pode ordenar. Perdendo, os dragões poderiam não sobreviver para lá da fase de grupos da Taça da Liga. Ganhando, ficam a um empate da fase final - e cientes de que rodar tanto, com tamanha apatia inicial, não será boa ideia.