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Tenham calma e deixem a bola também para os mais pequenos

Esses pequenos foram Óliver, Corona e Otávio. O primeiro voltou a pensar e a facilitar a vida da bola, o segundo foi o driblador de serviço e marcador de um golo e o terceiro voltou a atirar uma bomba para dentro da baliza. Juntos, ajudaram o FC Porto a ganhar (4-1) ao Lokomotiv de Moscovo quando os grandes (Herrera e Marega) já tinham feito a sua parte numa noite fria e chuvosa, que deixa os dragões a apenas um ponto da qualificação para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões

Diogo Pombo

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Não faço ideia, nem a mais pequena, do que Sérgio Conceição entende por condicionamento quando nos recorda, já que ninguém lhe pergunta, que o mexicano mais aportuguesado que há a futebolar por cá, Hector Herrera, tem estado condicionado. Porque há incontáveis “conjuntos de condições” ou “circunstâncias”, definições com que o dicionário pouco ajuda, como estar a pensar no que fazer, mais logo, para o jantar, na constipação de do filho mais novo, ou num mais usualmente provável problema físico.

Dizendo o treinador que o jogador está condicionado, é deduzível que a parte que calça as chuteiras tem um incómodo qualquer muscular e, portanto, não pode dar a sua quota-parte de bom trato de bola, intensa reação à perda e facilidade de remate como quem quem inspira e expira. Ou, claro, tudo poderia ser um cortejo público de Sérgio à arte do bluff.

E foi-o, no momento em que o Herrera de olhos esbugalhados e orelhas esticadas pisou o relvado como o terceiro médio do FC Porto europeísta, que antes de abusar da mobilidade das suas peças em torno da bola, à lei de dois ou três toques, já o mexicano estava a forçar o 1-0 na área. Corona tabelou com Marega, dois passes a forçar o maliano nas costas de russos, de onde ele cruzou para trás, para onde o mexicano esperava.

(Ou talvez não o tenha sido, na medida em que o treinador, no final, deu conta de como o mexicano "praticamente" não treinara, devido a um problema no joelho. Mas, adiante.)

Nem dois minutos havia, nem o jogo ainda tinha tipologia, ou tendências. Já ganhavam os dragões, cada vez mais habituados ao pivô que têm em Óliver, a facilitar tabelas, tirar a bola de zonas de pressão dos russos e a levantá-la para quem esteja descoberto. Seja só com Danilo ou estejam os dois com companhia acrescida no meio campo, o FC Porto é mais ditador da bola e ganha visão para aproveitar o espaço com o espanhol.

Facto que a equipa forçou sobre o Lokomotiv, tentando mais de 300 passes, para lá do dobro das tentativas russas, variando entre dar metros a Marega com bolas na profundidade e os pedidos a Jesús Corona para fixar um ou dois adversários e ludibriá-los com dribles de pés leves. Era estranho constatar que o extremo que mais adversários ultrapassava era o mexicano, como o foi ver a equipa, às tantas, a abrandar.

Com tanta bola, tamanha facilidade em jogar de forma apoiada, na relva, até aos últimos 30 metros do campo, os dragões pareciam desconcentrar-se quando a equipa tinha a bola. Não se posicionavam juntos e próximos, para o caso de a perderem. E quando a começaram a perder mais vezes, o canhoto e o destro da descendência Miranchuk remataram, à vez, à entrada da área.

As bolas, ajeitadas em arco, rasaram cada um dos postes da baliza de Iker Casillas, agasalhado contra a noite fria e chuvosa com um casaco de gola alta, que espreitava por baixo da camisola de jogo. Mas, aos sustos, o FC Porto respondeu com o mesmo argumento, recuperando uma bola a meio campo e, perante uma linha da defesa russa tão distante da própria área, deu corda a Marega. O bluff mexicano de Conceição desarmou um adversário a meio campo e colheu a bola para lançar o maliano na profundidade e o seu terceiro golo na Champions passou por entre as pernas abertas do guarda-redes Guilherme.

MIGUEL RIOPA

O Lokomotiv buracoso sem bola, locomovido a maior parte do tempo a gasóleo, a equipa morosa a levar o jogo até aos mais talentosos Miranchuk e Manuel Fernandes, resolveu, no balneário, voltar a acelerar.

Aproximou as linhas, aumentou o ritmo e fez um dos gémeos e o português pedirem passes mais ao centro, nas costas de Danilo. Os russos cresceram, as suas jogadas já iam até à área portistas, amarelavam Militão como já tinha pintado Felipe. Ganhavam chegada à baliza de Casillas e ganhavam cantos. Um deles soltou Farfán, o peruano de 1,78 metros que se livrou da marcação atabalhoada dos dragões e cabeceou o golo que desconfortou o FC Porto.

Obrigou a equipa a reagir, a retornar à constância, mesmo que não muito ameaçadora, da primeira parte, controlando a partir da bola e partindo da visão e da cabeça de Óliver, que muito tem jogado por Conceição o ver mais intenso e veloz. Os dragões voltaram a ter mais segundos nas jogadas e a ameaçarem a baliza mais vezes, para lá da esporádica vez em que Herrera cabeceou uma bola à barra, no meio dos 15 minutos em que o Lokomotiv reclamou a partida.

Tendo, de novo, mais iniciativa, mais bola e mais territória com ela nos pés, o FC Porto esticou as jogadas até à área dos russos e, perdendo a posse, podia pressionar logo ali. Esse aperto obrigou Guilherme a bater uma bola, a pressa tramou o guarda-redes, a tentativa não passou do meio campo e foi direta a Óliver, cujo peito e o pé direito dividiram a receção e o passe a rasgar (sim, em dois toques) para encontrar, lá longe, a corrida de Corona.

A bola encontrou o inspirado, agora constante e já regular mexicano, que rematou o 3-1, depois de ficar do lado bom de uma raridade: foi Brahimi substituído e não ele, preferência de Sérgio Conceição onde também houve a noção de que era pelo lado do argelino que o Lokomotiv fazia uso de Farfán.

A sua quase inédita constância e eficácia maior nos dribles que penteiam a bola antes de uma mudança de direção, mais o golo, alimentaram o que de melhor o FC Porto fez. Além da gestão do espaço e do tempo para o procurar, através de passes para deixar alguém em melhor posição de Óliver. E, também, da bomba rebentada por Otávio na fronteira da área, após um canto atabalhoado e com um ressalto, que fez um 4-1 no final de um jogo que já pesava toneladas devido à chuva, ao campo alagado e um subsequente futebol mais à base do chutão.

Eles, os mais baixos em altura que o FC Porto teve em campo (a par de Maxi, esse na defesa), juntaram-se a Herrera para estabilizaram a equipa à medida que teve de reagir a uma instabilidade forçada pelo Lokomotiv, mas, também, quase auto-provocada pela desorganização em que se desleixava, com a bola, para (não) precaver os momentos em que a perdesse.

Estabilizados, os dragões ficam a um ponto da qualificação para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões e, se ele estiver dentro de uma vitória contra o Schalke 04, virá com a liderança garantida do grupo.