Tribuna Expresso

Perfil

FC Porto

Pouca parra, pouca uva, pouco futebol e um pouco de Hernâni

Um jogo mais campal do que propriamente jogado terminou com um 1-0, verdade seja escrita, para a equipa que mais o quis jogar. Tanto desesperava por o ganhar que os efusivos festejos fizeram faísca entre Sérgio Conceição e Idris, ou alguém, do Boavista, e o treinador do FC Porto acabou expulso e exaltado

Diogo Pombo

JOSÉ COELHO/LUSA

Partilhar

Há jogos em concreto, em estádios específicos, entre certas equipas, que antes de serem jogados já percecionamos como é provável que o sejam. Não tenho dados científicos sobre isto, tão pouco julgo que os haja. Não sei se Jaime Pacheco andou a espalhar o seu voodoo e o de Petit, Mário Silva, Martelinho, Paulo Turra ou Rui Óscar, bons jogadores que campeões foram, mas que, à sua maneira, eram rijos, duros e tipos de evitar quando as coisas ficavam agrestes em campo.

Não sei se é um remanescente desses tempos, em que o Boavista arrastava o jogo para a lama, especialmente, quando no Bessa entrava o FC Porto, mas tenho a ideia que vemos mais vezes isto a acontecer, do que o contrário: os centrais de um lado e do outro a baterem bolas longas, os laterais a imitá-los, muita pressão e contra-pressão intensas entre os médios, incontáveis faltas para ‘matar’ os efeitos de bolas perdidas.

E o tempo útil de jogo com o estômago colado às costas, paupérrimo em coisas que, de facto, se aproveitam para lá de faltas ao ritmo de uma a cada dois minutos e de lançamentos laterais para a área, em balão, a qualquer oportunidade.

Este Boavista-FC Porto começou por ser como tantíssimos Boavistas-FC Portos foram.

A equipa de xadrez encostava-se aos médios portistas, não os deixava receber e virar, apertava o segundo ou terceiro passe. Era agressiva e intensa na pressão - e faltosa caso vissem estar iminente que Danilo, Herrera ou Óliver tocassem na bola de frente para a baliza. Eram bravos sobre a bola e fiéis a usá-la rapida e verticalmente, com transições que lançassem Rochinha ou Mateus contra Corona (de novo improvisado a lateral) e Alex Telles, muitas vezes deixados sem coberturas.

No desorganizado caos de choques de corpos e bolas chutadas para a frente, o Boavista, durante muito tempo, foi a equipa que chegou mais vezes à área da outra. Eram muitos cruzamentos, muitos que só falhavam no último, muitos ataques demasiado precipitados na rapidez para decidir melhor no fim da jogada, mas chegava.

O FC Porto, incapaz de jogar pela relva e de associar os médios, demorou a arranjar forma dar a volta ao adversário, já que nem por fora o conseguia: raro era uma jogada chegar a Brahimi e Otávio, do outro lado, era atraído pelo íman do centro do campo para abrir espaços a Corona. Nada resultava.

Só quando passou a ser intenso e pressionantes nos poucos sinais de pressão - passses entre os centrais, do central para o lateral e médios a receberem de costas, no próprio campo - é que logrou responder no próprio jogo dos anfitriões. O FC Porto ganhou metros, bolas, duelos e ataques rápidos nas recuperações. Brahimi, por duas vezes nos últimos 10 minutos pré-intervalo, a quase marcou.

A primeira parte não se livraria, porém, das 14 faltas (dez do Boavista), pouco tempo útil de jogo, muitas bolas no ar e até interrupções para tirar tochas do campo. A bancada portista atrasaria o recomeço, o capitão Herrera teve de pedir à multidão de adeptos para se acalmar.

JOSE COELHO/LUSA

A segunda parte foi bem-vinda porque fez bem ao jogo. O FC Porto já conseguiu usar Danilo ou Óliver, entre os centrais, para dividir a pressão alheia e sair da área com três jogadores e a bola. A primeira linha do Boavista recuou uns 10 ou 15 metros, deu mais espaço, houve mais passes, mais futebol pensado em vez de forçado.

Otávio e Óliver partiam mais vezes em desmarcações de rutura, para a área. Herrera rematava na área. Marega fazia-o por várias vezes, com pés destro e a cabeça, um quê trapalhão no Bessa como as más línguas o resumem. A testa de Felipe não acertou com a bola na baliza, num canto que o encontro sozinho na pequena área. Um fora de jogo achou Herrera em outro canto, tornando irrelevante o golo que marcou na recarga a uma parada de Helton.

E foram várias e muitas as defesas do guarda-redes do Boavista, auxílio mais valioso enquanto o FC Porto espremeu o jogo às suas tentativas e não se chegava ao derradeiro quarto de hora. Aí tudo desmoronou, de novo, para os estilhaços das faltas, das queixas, das paragens, das entradas duras cada vez que alguém ultrapassasse outrem.

Apenas Soares, aos 90’, teve uma oportunidade que desperdiçou.

Talvez essa falha, cinco minutos depois, no últimos dos descontos, o tenha feito passar a bola que sobrou de um corte feito de raspão por Gonçalo Cardoso (miúdo de 18 anos que acabou o jogo desfeito em lágrimas), para Adrián rematar e Helton, de novo, parar com estilo. Mas houve uma recarga e houve pouco utilizado Hernâni a rematá-la a dois metros da linha.

Um jogo mais campal do que propriamente jogado terminou com um 1-0, verdade seja escrita, para a equipa que mais o quis jogar. Tanto desesperava por o ganhar que os efusivos festejos fizeram faísca entre Sérgio Conceição e Idris, ou alguém, do Boavista, e o treinador do FC Porto acabou expulso e exaltado.

Tão pouco de bom e de espetacular houve em campo que não ajudou a libertar os ânimos que explodiram no golo. Os números enganam e muitas vezes são difusos, mas, nestes casos, acertam: 36 faltas, sete cartões, 61 perdas de bola, 44 disputas de bola aéreas e só aos 55 minutos houve um jogador a chegar aos 20 passes bem feitos.

Houve pouco jogo e pouco futebol no meio de tanta luta.