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Só com suor o FC Porto agarrou o anticiclone

Vitória difícil dos campeões nacionais por 2-1 frente ao Santa Clara, que no seu estilo de transições rápidas foi causando muitos problemas a um FC Porto numa noite de inspiração intermitente. A reviravolta operada por golos de Soares e Marega permite que os dragões continuem nesse lugar ameno chamado "liderança do campeonato"

Lídia Paralta Gomes

EDUARDO COSTA/LUSA

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Às vezes simplesmente não dá para meter o vestido de gala. E aí há que se fazer pela vida. Há que meter as jardineiras e sacar do canivete suíço, há que ir ao ginásio em vez de ir às danças de salão. Importante mesmo, e é disso que os campeões são feitos, é estar preparado para que tal aconteça.

Não sei bem se o FC Porto estava preparado para tantas dificuldades em São Miguel, depois de algumas belas exibições e vitórias concludentes, tanto dentro como fora de portas, com futebol por vezes arrasador. Percebeu-se cedo que sabia os pontos fortes do Santa Clara, da facilidade com que a equipa de João Henriques transita para o ataque, da qualidade de gente como o iraquiano Rashid. Mas talvez não estivesse à espera de um jogo tão imprevisível, como o tempo nos Açores. E como quase nunca conseguiu impôr na plenitude a sua ideia de jogo, o FC Porto precisou, como há muito não precisava, de suar, de sofrer, até ultrapassar o mau tempo e chegar ao anticiclone que lhe dá mais uma semana de temperatura amena no topo da liga.

Sérgio Conceição sabia das mais-valias do Santa Clara e talvez a esta hora, apesar da vitória por 2-1, esteja algo arrependido de ter voltado a apostar em Corona na lateral-direita e, talvez até, em Óliver no meio-campo. Porque cedo se percebeu que o Santa Clara-FC Porto seria um jogo mais de luta e competitividade do que de futebol bonito - e isto não quer dizer que este sábado tenhamos assistido a um jogo desinteressante nos Açores, bem pelo contrário.

Foi talvez por isso que ao intervalo os pezinhos delicados do espanhol deram lugar ao pulmão de Otávio, numa altura em que o jogo estava empatado 1-1. O FC Porto não entrou mal, é certo, e logo aos 4 minutos Soares teve nos pés o primeiro golo, mas quem marcou foi mesmo o Santa Clara. Os açorianos ameaçaram aos 26’, num contra-ataque que acabou com Militão a varrer na linha um remate de Patrick e aos 38’ marcaram mesmo, obra de uma bela jogada de equipa, com Zé Manuel a responder bem a cruzamento de Chrien.

Era um bom momento do Santa Clara, mas o FC Porto empataria antes do intervalo: Serginho ainda afastou um remate a meia altura de Óliver, mas a bola sobrou para Marega que cruzou para a cabeça de Soares.

EDUARDO COSTA

O segundo tempo não seria muito diferente do primeiro: jogo dividido, intenso, com nenhuma equipa a conseguir dominar ou controlar. A diferença esteve apenas na competência. Numa das únicas ocasiões claras de golo que teve, Marega marcou, aos 56 minutos, aproveitando uma defesa incompleta do guarda-redes do Santa Clara a remate de Soares.

E a partir daí, houve mais Santa Clara que FC Porto. Porque os açorianos nunca quiseram perder o jogo e, com o aparecimento de Rashid, um pouco adormecido na 1.ª parte, foi crescendo. Sempre no seu jogo rápido de progressão, muitas vezes só as faltas travaram os jogadores da casa. E quando não era uma falta, era Casillas. O espanhol tirou o golo a Fernando aos 60’ e oito minutos depois salvou à última um remate de Bruno Lamas num livre direto lateral que ia enganando toda a gente. Para fazer o hat-trick de defesas capitais, aos 84’ ainda agarrou com segurança uma bola perigosa, desviada já dentro da área.

Foi já com uma série de jogadores de características mais guerreiras, como Sérgio Oliveira ou Maxi Pereira, que o FC Porto viu o apito final do encontro e respirou fundo. Porque há muito que Sérgio Conceição não tinha de roer as unhas e jogar de forma pragmática para amarrar um resultado. Mérito, muito mérito para o Santa Clara, sem medo de partir para a área e a aproveitar as suas armas e o terreno pesado.

Vitória importante para os dragões, não bonita, mas de uma competitividade que também faz parte de todas as equipas que lutam por títulos.