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Como não gostar de um 2-1, eis a questão

Sérgio Conceição poderá não apreciar o 2-1 com que ganhou ao Rio Ave, resultado contrário ao seu gosto numérico, vindo de um jogo descontrolado, emotivo e nem sempre bem jogado, com bola, pelo FC Porto, mas dentro da qualidade de que mais gostará: vencer, coisa que faz há 15 jogos seguidos e que não fazia desde 1984/85

Diogo Pombo

MIGUEL RIOPA

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Sérgio Conceição terá razão em muito do que diz e teve-a, toda, quando debitou o que é numérico e factual, tornando-o redundante e lapalissante. Parafraseando-o, lembrou que impedir a bola de entrar na própria baliza é o único caminho que, andado, garante um resultado que dê pontos sem, necessariamente, obrigar a que os golos entrem no alvo do outro lado do campo.

É uma banalidade, óbvia como sabermos, feita temporada e meia com ele no FC Porto, que é um treinador com uma visão organizada, vertical, coesa e intensa do futebol, antes de querer a equipa a fornecer um espetáculo ou um vaivém de coisas positivas para quem assiste de fora - como um 4-3, um 5-2 ou um 3-2.

A aversão justão, tão aceitável como outra qualquer, à também lapalissada que é lembrar que bastará sempre marcar mais golos do que os se deixem entrar, precisa, contudo, que a equipa jogue para ela. Não que deixe os jogadores mais afastados da bola, de frente para o jogo e em superioridade numérica, embora igualmente longe da própria baliza, desconcentrados e desprevenidos para o momento em que a equipa perderá a bola.

Esse momento adiável, embora sempre inevitável, é quase imperdoável quando acontece após um lançamento lateral sem pressão, que piorou a tomada de decisão de Corona. O mexicano decidiu tentar um passe longo com Alex Telles e Maxi subidos no campo, saiu torto e rasteiro, para os pés de Tarantini. Ele avistou Gelson Dala a atacar a imensidão de espaço livre e, com dois passes, o Rio Ave foi do português ao angolano e, depois, a um brasileiro.

Vinícius arrancou para a profundidade, fugiu a Militão, desviou-se de Casillas e marcou no tipo de cocktail de transição vertiginosa com ataque à profundidade que Sérgio Conceição tanto gosta. Esta, porém, expôs a forma descuidada como a sua equipa se precavê para as perdas de bola que lhe custara sete golos sofridos nos últimos quatro jogos. Um terço do sofrimento da época.

O FC Porto, no coletivo, continuou a sofrer com os espaços que o Rio Ave bem tapava ao centro, fechando as linhas para os médios e forçando os centrais a olharem para longe. Filipe e Militão não contrariavam e batiam longo, muito para Soares, que tentava resgatar bolas para quem perto dele estivesse. Eram tentativas aos solavancos, criadores de ressaltos e segundas bolas, viam-se muitas faltas.

A bola era chutada, levantada e dividida, até era mais controlada por Schmidt, Tarantini e Coentrão, quando encontrou Brahimi e o argelino se multiplicou por três. Porque Brahimi desequilibrou ao fintar dois jogadores no centro do campo, Brahimi criou, por isso, uma jogada que forçou as dúvidas no adversário, e Brahimi finalizou depois de dar em Corona para cruzar e Soares desviar a bola na sua direção.

Os cinco minutos que separaram os golos não deixaram o FC Porto desesperar, nem o Rio Ave assentar a sua vontade em jogar de trás, pela relva. A equipa, na teoria, mais intensa e avassalador tornou-se tal coisa, começou a ter os médios a participar mais na posse de bola e a respeitar a forma como Marega se mexia.

Marega, a locomotiva de músculos e arranques explosivos, que apontava sempre as diagonais para o espaço coberto por Nélson Monte, central do lado esquerdo da defesa adversário que era o mais verde, tenro e parco em físico para aguentar o maliano.

À segunda bola que os fez competir pelo espaço, Marega livrou-se de Monte com o corpo e uma rotação, aproveitou a linha de baliza à qual o guarda-redes, Leo Jardim, plantado ficou, e marcou o décimo golo da carreira ao Rio Ave.

FERNANDO VELUDO/LUSA

O FC Porto cresceu, acelerou e encostou os médios contrários à linha defesa. A cabeça furtiva de Danilo e um remate rasteiro, ao poste, de Corona, aproveitaram um Rio Ave que foi murchado desde a lesão que lhe roubou Gelson Dala. A equipa perdeu um de dois (o outro era Gabrielzinho) velocistas cujas corridas em rutura abriam espaço e davam tempo para Vinícius ter a bola e aplicar-lhe a sua potência.

Mesmo interrompido pelo intervalo, os dragões mantiveram o crescimento, não tanto atacante, mais quererem controlar da bola e o ritmo.

Só continuavam a não provocar dúvidas no adversário ao centro. Herrera, muitas vezes na mesma linha de Danilo, pedia diante dos médios do Rio Ave e não os obrigava a rodar a cabeça no momento defensivo. Tão pouco Soares, fixado entre os centrais, ou Marega, que respeitava a sua tentação e natureza de querer bolas no espaço e para a frente.

As sequências de passe, triângulos para soltar alguém com a bola e mini-jogadas com tino apareciam nas alas. De Brahimi viu-se a raridade de um cruzamento feito de pé esquerdo para Corona, atacando o primeiro poste, rematar em suspensão. De Maxi apareceu um passe rasteiro e atrasado, para Óliver receber à beira da área e disparar às mãos do guarda-redes.

Mas nem com o médio espanhol o FC Porto controlou, quanto mais dominou. Porque a sua pressão na saída de bola - à qual o Rio Ave se manteve fiel, na relva, com passes curtos - era mais individual do que coletiva. Os imponentes Felipe e Militão nunca foram capazes de se imporem sobre Vinícius, ganhador de quase todos os duelos que teve, pelo físico, pela força e capacidade de rodar com a bola, com alguém nas costas.

Os centrais despachavam as bolas que reivindicavam, a custo, as bancadas eram barulhentas e o barulho espicaçou, ainda mais, Maxi Pereira e Fábio Coentrão, que se foram picando, mesmo que o descolorado canhoto, na segunda parte, andasse muito mais pelo meio, onde deu vida ao Rio Ave, passou a procurar a bola e a filtrar jogo entrelinhas.

Ele e Vinícius criaram oportunidades e mantiveram a equipa ameaçadora. Tarantini teve uma delas a salivar nos pés, a um metro da baliza, mas a ponta da chuteira de Alex Telles desviou o cruzamento rasteiro vindo de um dos ex-Real Madrid em campo.

Tanta emoção, grito, protesto, berro, ruído e futebol incontrolável por ser tão levado para longe da relva acabou por expulsar Coentrão, quase no fim - e por contribuir, creio, para o nível de descontrolo que vai contra tudo aquilo que Sérgio Conceição dissera, redundantemente: “Gosto de ganhar 1-0 e não por 4-3. O não sofrer é o único resultado que permite pontos. Ponto. Gosto de ganhar 1-0 e não por 4-3. É muito importante a consistência defensiva.”

Sérgio Conceição poderá não apreciar este 2-1, mais tímido, contrário ao seu gosto numérico, mas dentro da qualidade de que mais gostará. Vencer, coisa que o FC Porto faz há 15 jogos seguidos e que o deixa passar o Natal e o ano na liderança do campeonato.