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Mais vale um Aves na mão do que pontos a voar

O FC Porto preferiu controlar a destruir e tal coisa não lhe está nas células. No final, acabou por resultar - um golo de Éder Militão aos 25' valeu os três pontos - mas na 2.ª parte os campeões nacionais viram o Desp. Aves quase sempre perto da baliza de Casillas

Lídia Paralta Gomes

MIGUEL RIOPA/Getty

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Há jogos que desafiam algumas lógicas da estatística, dos números, de todas essas coisas contáveis que fazem parte do futebol mas, sabemos nós, não são o futebol. O Desp. Aves-FC Porto é um bom exemplo.

Olhemos então para algumas das tais coisas contáveis. O FC Porto teve 54% de posse de bola. O FC Porto viu dois golos invalidados ainda na 1.ª parte e Beunardeau, o guarda-redes francês do Aves, ainda salvou mais dois golos feitos.

Ainda assim, e apesar de todo este aparente domínio, a vitória do FC Porto por 1-0 não peca por defeito: é justa, porque o Desp. Aves-FC Porto não foi um bom jogo de futebol e os jogos de futebol fraquinhos não merecem mais do que um 1-0 no marcador.

Frente a uma Desp. Aves que ainda na última semana travou o Benfica na Taça da Liga, jogando mais do que o Benfica, sendo perigoso no contra-ataque e tendo mais oportunidades que os encarnados, Sérgio Conceição parece ter jogado pelo seguro. De certa maneira percebe-se: o campo do Estádio do Clube Desportivo das Aves não é exatamente largo, cheio de espaço para grandes filigranas futebolísticas. E Conceição escolheu assim um onze mais coeso, com duas linhas bem definidas e Soares e Marega lá na frente. Sem Óliver nos titulares, o FC Porto não é tão bonito, mas é mais férreo - funciona, mas não tem tanta graça.

A ideia na Vila das Aves seria controlar mais do que arrasar. Conceição terá visto o que este Aves vale nas transições, na velocidade de Baldé e na qualidade de Derley e numa fase destas mais vale um Aves na mão do que pontos a voar. E na 1.ª parte a estratégia correu bem: o jogo esteve longe de ser bonito, fluído, com boas jogadas de ataque, mas o FC Porto dominou completamente, não permitindo qualquer empertigamento à equipa da casa, que teve sempre enormes dificuldades para sair a jogar, encurralado pela defesa de betão do campeão nacional.

E apesar de não estar a jogar particularmente bem, as oportunidades iam surgindo para o FC Porto. Aos 15’, Beunardeau respondeu com excelentes reflexos a um cabeceamento de Soares e na sequência Marega rematou contra o poste. Seis minutos depois, novo duelo Beunardeau-Soares, com o guarda-redes do Aves a sair mais uma vez por cima, isto já depois do avançado brasileiro ter colocado a bola dentro da baliza rival, num lance que acabou invalidado por fora de jogo.

MIGUEL RIOPA/Getty

O golo que resolveria o jogo surgiria aos 25 minutos, num lance estranho em que Brahimi despejou uma bola para a área e, no meio da confusão de homens, Jorge Fellipe falhou completamente o corte, permitindo que um expedito Éder Militão aparecesse por ali, quais flecha, para encostar a bola para golo.

Na 2.ª parte, o jogo mudou de cara. Porque segurar resultados não é métier que o FC Porto tenha aprimorado e de tanto tentar controlar, de tanto tentar arrefecer o jogo, os dragões permitiram que o Desp. Aves crescesse. A equipa da casa andou assim durante boa parte da segunda metade a rondar a baliza de Casillas mas sem, na verdade, criar perigo iminente, ainda que os remates de Derley de cabeça aos 54’ e de Baldé aos 76’ tenham criado alguns arrepios na espinha dos adeptos do FC Porto.

Arrepios não tão intensos e assustadores quanto aquele que apareceu na derradeira jogada do encontro: um livre de Nildo Petrolina que embateu com enorme fanfarra na barra da baliza de Casillas, que nem conseguiu sequer reagir ao apito final que logo se seguiu. Ficou parado a olhar para o vazio, meio em choque, talvez a pensar que, ui, safou-se de boa.

O FC Porto safou-se de boa, sim, porque jogar contra um ADN já tão intrincado é sempre um risco. Ainda assim, os campeonatos fazem-se destes jogos em que se abdica de algo a favor de uma causa. A causa da revalidação de um título, reforçada com a derrota do Benfica e os 5 pontos de vantagem para o 2.º classificado na tabela, o Sporting.