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Roma, cidade eterna? Ninguém avisou Alex Telles

Defesa esquerdo marcou o golo que colocou o FC Porto nos quartos de final da Liga dos Campeões aos 117 minutos, num jogo impróprio para cardíacos que teve de tudo, literalmente, mas que premiou a equipa que fez mais por vencer

Tiago Oliveira

MIGUEL RIOPA

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Foi um jogo longo e emocionante, com jogadas para todos os gostos e dramatismo em doses industriais. Mas há sempre tempo para recordarmos uma bonita tradição. Já vão perceber porquê. Reza a lenda que quem lançar uma moeda para a Fontana di Trevi em Roma garante o seu regresso à cidade eterna. Se se entusiasmar e lançar uma segunda, apaixona-se por um italiano e pelo preço de apenas mais uma moeda, garante o casamento. Curioso, portanto, que o terceiro golo do Porto no jogo de hoje frente à Roma tenha garantido o matrimónio dos dragões com os quartos de final da Liga dos Campeões, numa noite europeia como há muito não se via no Dragão.

Uma vitória por 3-1 atingida aos 117 minutos de jogo quando as pernas já pareciam falhar e as cabeças não pensavam da mesma forma. Só que se há pé que não esmorece é o esquerdo de Alex Telles, que manteve a frieza e colocou a bola no lado contrário de Olsen. Tal como o direito de Pepe, que limpou em cima da linha uma bola com selo de golo de Dzeko e manteve a equipa viva. E isto tudo em apenas alguns minutos do final do prolongamento. Para trás há muito mais e depois as incidências ainda não acabariam.

À partida, duas equipas que se enfrentavam após derrotas no fim de semana frente aos maiores rivais e que provocaram muitas críticas aos respetivos treinadores. Também insatisfeitos com a prestações gerais, os técnicos não tiveram pejo em mudar as equipas em termos de caras e sistema tático para tentar levar o melhor de uma segunda mão após a vantagem de 2-1 trazida pela Roma ao Dragão. Do lado dos anfitriões, Militão, Danilo, Otávio e Soares saltaram todos para o onze enquanto no campo romano, destaque para a titularidade de Marcano no regresso ao Dragão.

Os italianos alinharam com um sistema conservador de cinco defesas e cedo se mostraram na expectativa perante uma equipa da casa que, empurrada por um estádio do Dragão cheio, partiu para cima do adversário. Com Otávio a atuar pelo meio e Corona na esquerda (no lugar do 'encostado' Brahimi), o FC Porto mostrou-se com vontade de dar rapidamente a volta à eliminatória. O primeiro aviso foi dado por Alex Telles aos dez minutos, com um remate à malha lateral, e a pressão foi-se acentuando até chegar ao golo inaugural da partida, num lance que mostrou as debilidades do lado direito da defensiva romana.

Bela jogada de envolvimento entre Corona e Marega, com o mexicano a deixar na altura exata para o maliano, que serviu Soares na pequena área para deixar os dragões em vantagem na eliminatória aos 26 minutos. Foi o primeiro lance a merecer análise do VAR e não seria o último, numa partida em que o dramatismo também se estendeu à arbitragem. Com a primeira decisão difícil a surgir dez minutos depois e a resultar num penálti correto assinalada a favor da Roma.

A falta de Éder Militão teve tanto de imprudente como de desnecessária e permitiu a De Rossi voltar a colocar o pêndulo da eliminatória para o lado dos romanos. O capitão italiano saiu lesionado perto do intervalo, até ao qual os dragões continuaram a atacar mas sem o mesmo fulgor de antes, como que abalados pelo golo caído do céu. Ainda assim, bastava um tento para empatar os oitavos e outro para dar a passagem, na crença que a Roma não marcasse mais nenhum. Um basta grande que Herrera testou no final da primeira parte com um remate a obrigar Robin Olsen a aplicar-se.

O capitão deu o mote para o segunda parte com uma entrada muito intensa do FC Porto, com os dragões a acumularem oportunidades e a encostarem os italianos lá atrás. Com Filipe imperial, Danilo tentacular e Corona a dar água pela barba, o segundo golo adivinha-se e só chegou à terceira oportunidade clara. Primeiro, Soares de cabeça aos 49, segundo, Marega de pé direito aos 51 e apenas um minuto depois o maliano a não se mostrar satisfeito e a encostar lá para dentro, no ar, após um excelente cruzamento de Corona.

Tudo empatado em termos de eliminatória no Dragão e o público em ebulição, a sentir que a equipa podia estar próxima do terceiro golo. E foi tentando ao longo da segunda parte, à medida que o espectro do prolongamento se aproximava. O primeiro remate da Roma na segunda parte só surgiu aos 68 minutos e a partir daí os italianos começaram a ter ligeiramente mais bola, se bem que sempre de pé atrás. Aos 77 minutos, um grande passe de Otávio deixou Brahimi (que entretanto tinha entrado para o lugar de Corona) perto do golo, com resposta pronta de Olsen.

Pepe (quase) vilão, Pepe herói

O perigo rondava e, após um erro clamoroso de Pepe, Perotti aproveitou mal uma bola oferecida aos 82 minutos que podia ter sentenciado a partida. Lance que parece ter feito um clique no central que, a partir daí, exibiu-se muito mais ao seu nível rumo ao corte in extremis que marcou a partida. Ainda faltam 30 minutos.

Período em que as pernas começaram a faltar e os romanos foram-se mostrando mais perigosos que no resto do jogo todo. Marega ainda esteve próximo do golo aos 94 minutos, com o maliano a não conseguir finalizar da melhor forma um cruzamento teleguiado de Alex Telles. O que até será de perdoar, do ponto de vista azul e branco, porque o maliano parecia estar em todo o lado, tanto a correr no ataque como a cortar bolas na defesa. Algo que Militão já não tinha forças para fazer, com o brasileiro a dar lugar a um homem que haveria de estar na jogada decisiva, Maxi.

Antes desse momento, espaço para o minuto que podia ter dado origem a toda uma outra crónica. Se da primeira vez, Dzeko ainda se pode queixar de si após um remate muito por cima em boa posição, logo a seguir só tem que gritar de frustração o nome de Pepe, que surgiu como se os anos não tivessem passado por ele a tirar a bola e a lançar festejos parecidos com o de um golo no Dragão. O lance galvanizou a equipa que procurou evitar os penáltis e foi recompensada quando Florenzi agarrou Fernando Andrade após um cruzamento remate de Maxi.

Inicialmente, Cuneyt Çakir não apitou só que o VAR entrou em ação e, após visionar as imagens, o juiz apontou para a marca de grande penalidade onde Alex Telles rematou para delírio do público afeto ao FC Porto. Seguiram-se minutos de sofrimento e carne no assador por parte da Roma, que esteve perto de beneficiar de um verdadeiro twist teatral quando o VAR chamou o árbitro para ver um lance entre Marega e Zaniolo. Desta feita a decisão foi a de deixar seguir e pouco depois a reviravolta na eliminatória ficou confirmada.

3-1 que confirma uma vitória dramática e balsâmica para os dragões após o desaire frente ao Benfica e que recompensa a equipa de Sérgio Conceição por nunca ter desistido de ir atrás de eliminatória. Resultado motivador para o que resta da temporada e que permite continuar a sonhar na liga milionária. Por agora, €10,5 milhões na conta e expectativa para saber quem será o próximo adversário.