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Mestres com cerimónias

O FC Porto venceu o Marítimo por 3-0 e o resultado dá a impressão de noite fácil. Mas não foi bem assim: perante um adversário a jogar com 10 desde os 6 minutos de jogo, faltou quase sempre criatividade aos dragões, que tiveram muito volume de jogo, mas muito pouca objetividade. Os primeiros golos só apareceram já bem dentro da 2.ª parte e de bola parada e só houve magia após a entrada de Brahimi e Óliver

Lídia Paralta Gomes

MIGUEL RIOPA/Getty

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Um 3-0, para efeitos de futebol, já conta como goleada. Uma goleada humilde, mas uma goleada. Fica bem no papel, onde parece uma vitória fácil, tranquila, uma noite onde as coisas, no geral, correram bem.

Mas este 3-0 específico, que o FC Porto infligiu ao Marítimo, tem mais história que os números. Porque perante um Marítimo fragilizado, a jogar com menos um desde os 6 minutos, os dragões demoraram uma eternidade até descobrirem a melhor forma de entregar a bola na baliza de Charles, algo que acabou por acontecer já bem dentro da 2.ª parte e com os dois primeiros golos a surgirem de bola parada.

A tal não será alheio o onze que Sérgio Conceição escolheu para os últimos três jogos. Um meio-campo com Danilo, Herrera, Otávio e Corona dá solidez, mas tira criatividade. Sem Brahimi e Óliver, o jogo dos dragões convergiu para as alas e durante a primeira parte o que se viu foi uma equipa com muito volume, mas sempre com mais um passe, mais um cruzamento, mais uma finta, muita cerimónia.

E uma equipa com cerimónias é tudo aquilo que este FC Porto de Sérgio Conceição não é. Ou não costumava ser. Ele habituou-nos à objetividade, à intensidade, à acutilância e tudo isso demorou a aparecer, perante um Marítimo que depois da expulsão de Lucas Áfrico praticamente desistiu de atacar.

Da 1.ª parte, em que os dragões tiveram muita bola, mas nem sempre souberam bem o que fazer com ela, ficaram apenas dois lances de perigo que já apareceram para lá da compensação. Aos 45’+1, num raro cruzamento com qualidade, Corona encontrou Marega, que após uma excelente movimentação cabeceou para uma grande defesa de Charles. E aos 45’+7 (a 1.ª parte teve muito, muito VAR e terminou com 53 minutos no relógio), na sequência de um canto, Herrera recebeu com o peito e rematou à queima-roupa. Mas ao poste.

MIGUEL RIOPA/Getty

Para a 2.ª parte, Sérgio Conceição trocou Pepe por Wilson Manafá e fez Éder Militão voltar ao eixo da defesa, de onde, aliás, nunca deveria sair, ainda para mais num jogo com estas características, em que se pede muita ação atacante aos laterais - coisa que Militão não tem.

Com Manafá no corredor direito, o FC Porto tornou-se mais perigoso, mas nem por isso iam surgindo oportunidades claras, ao ponto de Herrera, como que chateado, tenha até tentado a sua sorte de longe, aos 50’.

Não demoraria muito mais o FC Porto a marcar, e se em ataque apoiado estava difícil, acabou por ser através de uma grande penalidade que surgiria o golo, depois de uma mão na bola de Gamboa, que Alex Telles aproveitou para transformar em golo.

Seria de novo num lance de bola parada que o FC Porto faria o 2-0 da tranquilidade, num golo que só Marega saberá de quem foi. Após um canto, Éder Militão saltou mais alto e fica a dúvida se o maliano ainda tocou na bola na sua trajetória para a baliza. Fica a sensação que sim, mas oficialmente o golo foi atribuído ao central brasileiro.

Foi apenas após o 2-0 que o FC Porto mostrou algum do seu melhor futebol esta noite, situação à qual não será alheia a entrada em campo de Óliver e Brahimi, que vieram colocar um paninho quente na ânsia dos jogadores azuis e brancos em cruzar tudo o que era bola.

Aliás, o 3-0 nasce da magia de Brahimi, da capacidade de tourear defesas, de os enfrentar e quebrar com aquele movimento interior seguido de remate cruzado. Foi o que aconteceu aos 88, no melhor momento de um jogo que o FC Porto venceu com justiça, é certo, mas que mastigou até à exaustão até conseguir desbloquear.