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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

Rápido, rígido e impetuoso: é este o FC Porto de Sérgio Conceição

A Liga regressa já no sábado com um escaldante Sp. Braga-FC Porto (15h30), para a 27ª jornada, e o treinador Blessing Lumueno aproveita a ocasião para explicar como se comporta, afinal, a equipa de Sérgio Conceição, onde os fortes Soares e Marega coabitam com os criativos Óliver e Brahimi - bom, às vezes...

Blessing Lumueno

Carlos Rodrigues

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Desde que chegou ao Dragão, a intenção de Sérgio Conceição tem sido clara: jogar em 1-4-4-2, sem arriscar muito na construção no meio-campo defensivo e com a procura constante pela profundidade ou pelos cruzamentos, ainda que não estejam reunidas as condições para tal.

Em situações especiais, já se viu a equipa jogar em 1-4-3-3, mas com poucas alterações ao nível das rotinas ofensivas – a alteração de sistema prendeu-se, sobretudo, com preocupações defensivas em jogos contra adversários com um potencial individual ao mesmo nível que o dos dragões.

Não se pode dizer que o sucesso do Futebol Clube do Porto (Campeão Nacional; e disputa novamente o título este ano) está isento da influência do seu treinador. Pelo contrário! O clube está a ter todo este sucesso por força das ideias de um treinador que tem uma ideia de jogo bem definida. A pouca criatividade e plasticidade tática da equipa tem como objetivo retirar o máximo de algumas capacidades especiais dos jogadores.

Isto é, só é possível ter o aproveitamento de Marega ou Soares forçando; obrigando os adversários a enfrentar sucessivamente duelos perto da sua baliza. E como a maior parte dos adversários tem tentado também pela força parar a dinâmica do Porto, de campo em campo, Sérgio Conceição vai atropelando adversários com profundidade, cruzamento, e bolas paradas.

De outras situações de jogo mais rendilhadas e mais trabalhadas não haveria espaço para estes dois avançados, e ficariam completamente expostas todas as dificuldades que ainda assim vão aparecendo em todos jogos.

Como não é, declaradamente, uma equipa de construção no meio-campo defensivo, a chegada de Pepe e o posicionamento de Militão como defesa direito retirou estabilidade ao eixo defensivo portista e competência no envolvimento ofensivo no corredor lateral. Perdeu-se o melhor central da Liga e não se ganhou um lateral com qualidade ofensiva suficiente para cumprir com os movimentos e com as ações técnicas que o modelo de jogo impõe. Não houve um ajuste no momento de construção e criação quando jogam Pepe e Felipe como defesas centrais e a equipa continuou a tentar fazer o mesmo jogo com jogadores menos capazes de cumprir com as exigências das dinâmicas colectivas que o treinador trabalha. Não houve ajuste táctico, ou alterações da ordem anterior com a equipa atacava para tentar compensar a maior pobreza no corredor direito.

Óliver Torres é, e tem sido, um dos jogadores com menor aproveitamento na Liga. Desde que chegou nunca foi incontestável (como é que se pode duvidar deste jogador?!). E ele é, a par (da situação) de Militão, o que melhor nos mostra o pouco espaço que há para ajustes que beneficiem outro tipo de jogador, e a pouca criatividade táctica e pouca plasticidade do modelo de jogo do FC Porto.

Entra e sai da equipa ao ritmo das vitórias e derrotas, e sempre que há uma contrariedade ou quando Danilo e Herrera já estão há demasiado tempo no banco, é o médio criativo o primeiro a sair. Não há problema com isso, uma vez que o treinador confia mais noutros médios para cumprir as tarefas que exige, mas essa rigidez que funciona tão bem contra quase todos adversários internos perde fulgor quando enfrenta adversários com outros valores individuais. A ideia de jogo criada para aproveitar as características físicas ímpares de alguns jogadores leva também a um desaproveitamento de outros elementos. Acontece com todos os treinadores do mundo com um modelo de jogo bem definido: há jogadores que ficam de fora e que não cabem por não cumprirem os requisitos fundamentais das ações técnicas e táticas que vão enfrentar.

E, nos dragões, o estímulo não é o melhor para jogadores como Óliver, Otávio, Corona ou Brahimi. Parece utópico que se juntem todos em campo; afinal, só nos grandes clubes no mundo e só nas equipas de alguns treinadores podem coabitar no mesmo espaço mais do que um ou dois jogadores criativos.

E ainda há Diogo Leite, Fábio Silva e Francisco Conceição à espera de uma oportunidade para mostrarem o que valem no presente! Potencial, todos lhes identificam; mas creio que ao fim de um par de jogos na Liga estariam prontos para render e mostrarem-se como mais-valias no imediato. É uma pena olhar para jogadores com as características destes e imaginar que podem não ter a preponderância ou atingir o nível que se espera deles.

Na Liga portuguesa há que ter rendimento e físico, e para tal é necessário que jogadores como Bernardo Silva sejam campeões em dois campeonatos com um nível físico absurdamente superior ao nosso para conseguirem ter o aval para jogar cá. Fala-se muito do caso de Bernardo Silva como jogador de exceção, tendo em conta as condições físicas que não tinha (dizia-se, e continua a dizer-se de outros tantos) para enfrentar a alta competição, e esquece-se que há muitos jogadores com o mesmo perfil que continuam sem vingar pela mesma linha de pensamento. Vejam bem o que seria deste país com quatro Bernardos a servir o Cristiano? Uma chatice.

Do ponto de vista ofensivo, o corredor central do FC Porto serve fundamentalmente para tentar passes longos, e para aparecer em zonas de finalização. No corredor lateral pedem-se envolvimentos com os avançados, cruzamentos, ou situações de um contra um. A circulação é agressiva no sentido de procurar rapidamente entrar na área, mas não tem a preocupação de ir batendo em segurança as sucessivas linhas de pressão, e atacar a linha defensiva em condições que permitam aos jogadores mais criativos evidenciarem os atributos técnicos e inteletuais que os distinguem.

Os avançados fazem sempre os mesmos movimentos de rutura entre central e lateral e ao receberem na área são agressivos na forma como rapidamente procuram a baliza ou procuram colocar alguém em condições de finalizar. Na construção, no meio-campo defensivo, não há corredor central. Ou consegue sair-se pelo corredor lateral ou há uma procura imediata da profundidade do avançado e largura e profundidade do lateral. A linguagem corporal dos jogadores nessas situações é clara: poucos movimentos de aproximação para dar soluções para uma saída de curta, e o posicionamento agressivo e movimento do lateral e dos avançados a solicitarem a bola na sua direcção. O primeiro golo sofrido contra o Benfica demonstra bem as intenções coletivas quando os jogadores têm a posse em zonas recuadas.

Em organização defensiva, o FC Porto pressiona com duas linhas de três jogadores em “V”. Os dois avançados pressionam os centrais, e um dos médios pressiona o médio defensivo adversário. O outro médio fica mais recuado, juntamente com os médios ala, que se dividem entre o espaço central e o lateral. A pressão está bem trabalhada nos comportamentos que o treinador quer, não apenas ao nível do posicionamento, mas percebe-se que todos os jogadores entendem que o adversário não pode ter a possibilidade de variar o corredor, orientando todos o seu corpo enquanto pressionam para direcionar o adversário para o lado por onde começou o ataque.

A linha defensiva protege-se bem da profundidade, nesses momentos, retirando espaço quando a equipa pressiona e recuando quando a bola está descoberta. Os problemas defensivos aparecem na pouca agressividade com que os jogadores batidos na pressão recuperam, em organização ou em transição defensiva, bem como no tempo e espaço que o adversário ganha para atacar a linha defensiva caso a pressão seja batida.