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FC Porto

Este texto é sobre dragõezinhos que chegaram ao trono (e contém 'spoilers'... para Sérgio Conceição)

O FC Porto conquistou a Youth League pela primeira vez, ao vencer o Chelsea na final da prova (3-1), e o troféu provou que há muitíssima qualidade nos jovens portistas, explica o scout Nuno Pereira, que destaca os miúdos que mais sobressaíram

Nuno Pereira

O FC Porto venceu a edição de 2018/19 da Youth League, a Liga dos Campeões júnior

Eoin Noonan - UEFA

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Vim falar-vos de dragõezinhos. Esqueçam Viserion, Drogon e Rhaegal, a mãe Daenerys e os seus 83 nomes. Aqui fala-se dos Diogos, do Romário Baró, do Fábio Silva e de todos os restantes dragõezinhos do Olival, que, sob a batuta de Mário Silva, conquistaram o maior troféu europeu no que ao futebol de formação diz respeito.

Sou um defensor de que a qualidade da formação num clube não se mede pelos títulos conquistados, mas sim pela quantidade e qualidade dos jogadores que consegue colocar no futebol profissional e, sobretudo, pelo aproveitamento que é feito pela equipa principal. Os títulos são o principal objetivo no futebol sénior, mas não na formação.

Obviamente que os títulos serão sempre um indicador positivo da qualidade do trabalho desenvolvido e, neste caso, vencer a UEFA Youth League é um enorme atestado de competência que é passado a todo o departamento de formação do clube, equipa técnica e jogadores.

A bola entrou, o FC Porto foi melhor e venceu. Mas, caso isso não tivesse ocorrido, em nada beliscaria a evidente qualidade que estes miúdos tem mostrado ao longo da época. Não terão todos o mesmo talento, mas, como o próprio treinador frisou, todos foram importantes nesta caminhada, até os que pouco jogaram. O mesmo se aplica a este texto. Vou destacar apenas alguns, mas a mensagem, no fundo, é para todos eles.

Mor Ndiaye (18 anos, nascido em 2000)

Mor Ndiaye, jogador do FC Porto (à esquerda)

Mor Ndiaye, jogador do FC Porto (à esquerda)

Tottenham Hotspur FC

No início da época andava a prestar provas em Itália. Quando tinha tudo tratado para assinar pela AS Roma, surge a oportunidade de fazer testes no FC Porto. Veio, convenceu e ficou. Começou a jogar no início de janeiro e teve logo um enorme impacto na equipa, tanto que pouco tempo depois estreou-se a treinar com o plantel principal e viu ser-lhe oferecido um contrato profissional até 2022.

Fisicamente marca a diferença através da sua velocidade, força e grande poder de impulsão (ficou-me na retina a quantidade de bolas pelo ar que ganhou ao “gigante” avançado do FC Midtjylland nos quartos de final da competição), embora esta vertente física do seu jogo seja apenas um complemento. Ndiaye tem vindo a mostrar um excelente sentido posicional e qualidade com bola, revelando preocupação em deixar a bola jogável nos seus companheiros após a recuperação. Não me surpreenderia que fosse o primeiro dos juniores a chegar à equipa principal.

Tomás Esteves (17 anos, nascido em 2002)

Tomás Esteves, jogador do FC Porto

Tomás Esteves, jogador do FC Porto

Eoin Noonan - UEFA

É ainda juvenil mas jogou esta final four como se de um veterano se tratasse. É um lateral capaz de fazer a diferença nas duas metades do campo. Não tendo uma velocidade de deslocamento estonteante, pensa melhor e mais rápido do que a maioria, fazendo assim a diferença.

Capaz de procurar zonas mais interiores, destaca-se pelo seu critério a filtrar passes para os homens da frente. Muito seguro a defender. Na minha opinião, o MVP desta final four.

Romário Baró (19 anos, nascido em 2000)

Romário Baró, jogador do FC Porto

Romário Baró, jogador do FC Porto

Harold Cunningham - UEFA

De aspeto franzino e magia nos pés, Romário é um “descomplicador” de futebol. Entreguem-lhe uma “bola quadrada” e ele devolve-a redondinha (acreditem, fazer o oposto é bem mais fácil). Foi mais ou menos isso que fez quando inventou o terceiro golo da final.

Critério, qualidade técnica e uma margem de progressão tremenda. Foi o jogador mais decisivo do Porto na prova e, para mim, o melhor jogador da mesma. E a equipa B começa a parecer curta para ele.

Fábio Silva (16 anos, nascido em 2002)

Fábio Silva, jogador do FC Porto, a festejar de telemóvel na mão

Fábio Silva, jogador do FC Porto, a festejar de telemóvel na mão

Harold Cunningham - UEFA

Escreve-se “Fábio Silva” mas lê-se “golo”. É um finalizador de excelência. Tem apenas 16 anos, mas, à imagem de Tomás Esteves, tem já uma enorme maturidade competitiva. Fortíssimo nas suas movimentações a procurar a profundidade, tem ainda a virtude de ter dois pés que tratam a bola por “tu” e que através da sua qualidade de receção, com um ou dois toques, coloca com facilidade a bola à disposição de finalizar.

Fábio não é um “se”, é uma certeza. A equipa B já lhe assentava bem e, tendo em conta as opções da frente da equipa principal…

Os “Diogos” – Costa, Queirós e Leite (19 anos, 20 anos, 20 anos; todos nascidos em 1999)

Diogo Queirós, central do FC Porto, e Diogo Costa, guarda-redes do FC Porto

Diogo Queirós, central do FC Porto, e Diogo Costa, guarda-redes do FC Porto

Chelsea Football Club

O guarda-redes e os centralões. São já seniores de primeiro ano (a UEFA permite a participação de três) e são das principais figuras da grande geração de 99 do futebol português. Coloquei os três juntos porque já jogam juntos há tantos anos que se tornaram uma unidade. Os três juntos são melhores. Sempre que jogam juntos, a equipa fica melhor.

Queirós é o que leva a braçadeira, mas os três são os líderes, os capitães. Considero que por esta altura já poderiam ser nomes estabelecidos na Primeira Liga. Prontíssimos para a equipa principal, apesar da sobrelotação nas suas posições.

Diogo Queirós e Diogo Leite, parceiros no centro da defesa do FC Porto na Youth League

Diogo Queirós e Diogo Leite, parceiros no centro da defesa do FC Porto na Youth League

Harold Cunningham - UEFA

Todos eles são jogadores à Porto. Jogadores que dão tudo em campo, extremamente competitivos, com mentalidade vencedora, mas, acima de tudo, jogadores que têm qualidade.

À chegada ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro, Diogo Queirós, como capitão que é, foi o porta-voz da principal mensagem a reter: “Queremos que valorizem mais a formação do FC Porto”. O mote ficou dado.

Para estes dragõezinhos que fizeram história ao serem a primeira equipa portuguesa a vencer a competição, este foi apenas um dos primeiros capítulos das suas carreiras. Caberá agora ao clube dar-lhes o papel e a caneta para escreverem os seguintes.

Para os exigentes adeptos do Dragão, pede-se que continuem a exigir. Mas em vez de exigirem as capas de jornais e tempo de antena, exijam antes tempo de jogo. E, acima de tudo, mantendo a exigência, dêem-lhes espaço para aprenderem com os naturais erros que possam surgir e não os julguem ao primeiro tropeção, lançando imediatamente a cartada da “falta de intensidade” ou algo semelhante.

Se jogadores experientes com Ligas dos Campeões, Europeus e Mundiais nos seus currículos ainda hoje estão sujeitos a cometer erros na equipa principal (vou evitar falar sobre o fim de semana passado), o que se pede é que também dêem essa margem a estes miúdos. Porque também é a errar que vão aprender e crescer. E é muito melhor vê-los a aprender aqui do que a espalhar a sua enorme classe na Premier League, por exemplo.

Antes de cada jogo no Dragão, ouve-se cantar: “Ó campeão, o teu passado é um livro de honra de vitórias sem igual”. Agora é altura de deixarem o futuro do FC Porto escrever a letras de ouro nesse mesmo livro de honra.