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2001, odisseia no estrago

Há 18 longos anos que o FC Porto não entrava no campeonato a perder. Aconteceu este sábado, em casa do regressado Gil Vicente, num jogo em que os mantras de Sérgio Conceição, a intensidade e a objetividade, não apareceram. A derrota por 2-1 penaliza uma equipa que continua a não confiar no talento quando tudo o resto não funciona

Lídia Paralta Gomes

MIGUEL RIOPA/Getty

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Ali algures aos 55 minutos de jogo, Soares pegou na bola e foi por ali fora. Correu, tão voluntarioso quanto atrapalhado, e o filme acabou de forma previsível: com o avançado brasileiro a perder a bola.

Não foi um dos lances essenciais do encontro, mas talvez conte uma história. A história de como a este FC Porto falta o talento individual quando o coletivo não funciona e de como quando o coletivo até funciona, a falta de talento individual pode estragar tudo. Soares, nesse particular, teve uma noite para esquecer. Falhou oportunidades atrás de oportunidades, lances feitos, bolas redondinhas às quais só era necessário dar um toque.

E no fim, o FC Porto perdeu. Perdeu na 1.ª jornada do campeonato como não acontecia desde 2001, quando foi a Alvalade cair por 1-0. Agora tanto tempo depois, a ida a Barcelos foi uma odisseia no estrago, o estrago que é começar um campeonato logo a perder pontos.

Talvez seja injusto colocar o ónus deste trambolhão apenas em Soares, mesmo que este tenha tido o golo nos pés pelos menos três vezes. Ainda na 1.ª parte, Sérgio Oliveira deixou-lhe uma bola amortecida, mas Soares, talvez encadeado por estar ali em frente ao guarda-redes do Gil Vicente, rematou frouxo. Já na 2.ª parte, voltou a dar mal na bola, num lance construído por Zé Luís aos 50’. E aos 57’, imediatamente antes de dar lugar a Marega, não conseguiu concluir mais um cruzamento bem tirado por Bruno Costa. Soares será só o paradigma de uma equipa que parece por vezes ter medo do talento, que aposta todas as fichas numa constante intensidade e objetividade, que se desmorona quando surge uma equipa como este Gil Vicente, uma equipa construída em semanas, vinda do Campeonato de Portugal, mas com alguém no banco que sabe mais do que ninguém disto de tornar grandes equipas que supostamente são pequenas.

MIGUEL RIOPA/Getty

Porque se é certo que o FC Porto teve várias oportunidades, e oportunidades flagrantes, coisa que em Krasnodar não existiu, do outro lado estava uma equipa organizada a defender e fria no hora de contra-atacar - e foi no contra-ataque que o Gil Vicente fez cair este FC Porto de pouca inspiração, uma inspiração pela qual Sérgio Conceição não esteve disposto a fazer tudo. Porque só assim se justifica que Nakajima continue a não ter minutos nesta equipa.

Em vez de Nakajima, entrou Marega, ainda fora de órbita e o homem que perdeu a bola para o contra-ataque que deu origem ao 1.º golo do Gil Vicente, aos 61 minutos, cortesia de Lourency, que deu sempre que fazer à defesa do FC Porto. O empate aos 73’, numa grande penalidade marcada por Alex Telles, não marcaria um virar de página no jogo: apenas três minutos depois, numa jogada rápida e bem gizada pelo Gil Vicente, uma bola cruzada na esquerda sofreu um pequeno toque e, quase que magneticamente, foi parar aos pés de Kraev entre os centrais do FC Porto. E aqui, muito mérito para o búlgaro, muito oportuno a girar e a remate forte para a baliza de Marchesín.

Ainda com 10 minutos para voltar a tentar o empate, o FC Porto rondaria sempre a área do Gil Vicente, mas nunca com verdadeiro perigo. A intensidade era intermitente (e aqui talvez a opção de fazer descansar Danilo tenha saído furada), a objetividade desapareceu. O talento, não surgiu.

De Barcelos, o FC Porto só terá trazido uma coisa boa: a cada vez maior evidência que Marchesín é um bom reforço. A dupla defesa aos 28 minutos, primeiro a um remate de Sandro Lima e depois à recarga de Rodrigo, ainda no chão, sem sequer estar de frente para a bola, mas com o instinto de gato de esticar o braço, salvou ali mesmo a equipa de sofrer um golo prematuro.

No final, pouco contaria, mas contará em outras ocasiões.